quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Agrário




mudas de galinha
não brotam sem ovos
das palavras
os poemas
são os ossos
Canto do tempo perdido




o tempo passou
até pra brigitte bardot
o tempo tem
que tamanho o tempo tem
poesia não é filosofia
o poema dura
o tempo
que o tempo atura

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Traumatismos




meus medos
não tem pressa
cruzam
mesmo os sinais vermelhos
atropelam-se
seus corpos enfileirados
mastro no qual tremulo

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

cus, cus


meu primeiro cu
não era solto
havia uma vela
ao redor
parafinas voavam
pela fala

meu segundo cu
também não era
quase uma esfera
me prendeu à sala
quando explodi
virei janela



ensaio de fragmento




poesia é coisa
doutro mundo
que mundo é esse?
é esse? é esse?
se perguntava o alienígena
gaveta 49




no bucho
bala balançando
até virar susto
enxuto após
presa na mesa
furo no muro
estática estatística
do escuro
submerso no sangue
no pus do
absurdo
gaveta escaldada
nome sem vulto
defunto sem calma
estremece a tarde
com o silencio
sem espasmo

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Canto do muro futuro




os trens passam
apesar dos trilhos
a vida passa
apesar dos tiros
o mundo passa
apesar do escuro
apesar de tudo
que impede o passo
o muro sempre
é transparente
é sempre da gente
o futuro do presente

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Depois do sonho





a paixão me fez partir
em dois
o momento que perdi
me fez roçar as asas
na parede que ergui
antes do meu sonho
havia escuridão
hoje encontrei caminhos
sem usar as mãos

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Canção da paisagem sem letras


pensei em flores
no ar sem sombras
nas coisas que as palavras modificam
em tornar o avesso desnecessário
nos toques sem tato
pensei em me mostrar como
sempre deveria
ser ao vê-la
sinto poemas

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Entranhamento





muitas pessoas me amam
outras me odeiam
na mesma intensidade ou pior
eu não odeio ninguém
nem amo
não tenho essa capacidade
prefiro abandonar poemas
e me entranhar

terça-feira, 24 de novembro de 2009

REMINISCÊNCIA


de você pouco restou:
a foto do útero pregada na parede
e eu dentro dele
me regerando

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sístole, diástole



hipertenso
recolho o meu sangue
até o canto da veia
recolho-me
até o canto
encolho-me ao teu canto
o coração não deveria bater
nem quando estivesse com raiva
deveria ficar quieto
cumprindo silenciosamente
a sua função
o poeta bombeia poemas
sem precisar bater
Telhados recifenses



as copas das árvores se encontram
e formam o caminho
por onde automóveis
passam ensombrados
onde não há árvore
o sol assume outras formas de sombra
e descaminha os passos
onde não há sol
a chuva assoma os telhados
que encolhem o calor e
o espalha em calhas
onde não há chuva
flores de argila
carregam-se de mãos
que possam regá-las

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ENTREVISTA

- E o poema, como surge?
- Lapidar o silêncio até surgir essa forma.
- E os sons do poema?
- Som de poema é invencionice barulho de luz nos olhos do leitor.
- E o leitor, mero passivo?
- Do poema é pele e capa e alimento sem o qual falece à míngua frio e fome.
- E a palavra final?
- Ler até o pó virar sangue.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ANAMNESE

peço ao ausentes
que me despeço
confesso-me demente
ao meu corpo
verto delírios
sintomas pedaços
disfarço a morte
engolindo o fim

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DELIBERAÇÕES




primeira


deliberei não pensar
sem paredes na cabeça
como represar os sentimentos?

puxei os cabelos da paisagem
e contei um por um
eis a maneira correta
de amestrar a saudade


segunda


deliberei não sentir
sem paredes no sentimento
como libertar o pensamento?

a saudade puxa os meus cabelos
mas a cabeça não acompanha
eis a maneira correta
de abortar o sentimento

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Vinte séculos


Vinte séculos te amando
E o coração do mesmo tamanho
O amor transborda pelo corpo
E o que sobra
Primavera no jardim
Quando a poesia chegar




quando a poesia chegar
quero estar bem longe
vou deixá-la sozinha esperando
do mesmo jeito
que ela faz comigo
Disposições transitórias



quem ama com o coração
esquece do corpo
e o sangue não tem
pra onde correr

quem ama com a alma
esquece do corpo e
sem corpo a alma
descansa em paz amém

quem ama com o corpo
o coração aproveita
e foge pela janela da alma

quem ama com o coração
com a alma e com o corpo
esquece de si mesmo e o amor
pessoa de direito público
toma posse e revoga
todas as emoções em contrário

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

NÁUSEA DO DROGADO





A poesia não me faz bem
Mas quando durmo tudo passa
Como se o sonho
Embebesse a poesia em pranto
Que pertencesse à outra face

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CANTO DO ESCURO




o sol cai sem pára-quedas
no local de sempre
aposto um mar que hoje não sofre
um sal no filete de sangue
um mal no meio do corte
há postes imprecisos
luzes precisam do escuro
luzes precisas

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

saudades de joão sebastião

quando olho no jardim
um cravo
lembro de Bach e
do bar onde ficávamos
e que os franceses
insistem em chamar
café les deux magots
falávamos do som
de Arrigo e
enjoávamos facilmente
do modo como
o avião oscilava
mas conformados pois
a lucidez sempre
estava ali
no bolso prestes
a ser roubada
em qualquer esquina

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Circunstâncias, fumaças, etc



o poderoso encontro
do silêncio era fumaça

sonho ouro
mas não passa
da minha cabeça

sempre fui muitos
diminuído
sinto-me outros

quero apenas quem
tem a porta da
ferida e a chave

à face do outro
ofereço-me

POEMA DE SAMANTHA ABREU

MINHA ÚLTIMA GUERRA



Da minha janela,
todo o espaço que é mundo
(lá daquele canto até o outro),
não me cabe.

Meu peito,
inchado,
está ativando os pinos
de um campo minado.

Dentro de mim
começou a última guerra.


Samantha Abreu
cego




nada luz
o poema
mascara o
sintoma do
escuro
De pressões




a depressão voltou
como uma faca
cortou o último fio
que restava
ando solto
pulsos abertos
sem respiração
sem chão
a poesia cai
não move o chão
só entra em contradição


Tropicaos



Nem me construí
Prolifera húmus
Entre linhas tropicais
Saiba meu fruto
Porto mastigado
Nada de mim
Silêncio interrogado
É com a dor
Pensamento d’água
Cabeças de escadas
Trava o fundo
Traga a draga
Imóvel corpo madrugada
Turvo olhar
Diante difuso
Escuridão sem mãos
Sem mais palavras

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

POEMA DE FRANKLIN JORGE

Apenas um madrigal


Liberto da cueca
os culhões ao vento.
Escovo os dentes
mais por hábito
que por higiene e,
enquanto a água tépida
escorre da torneira
com a mão esquerda
esfolo o meu pênis.
Paisagem sem vidro




A poesia cortou a alameda
Pousou nas duas pontas
Depois nas margaridas
Depois na amoreira
A sombra do seu canto
Iluminou a varanda
Pensei ter visto um passarinho
E nem era eu sozinho
Pensei ter visto uma flor alada
E nem era a minha namorada
A poesia fez a curva
E se desfez de mim

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Veia aberta



a página em branco
é o abismo do poema
margens se preocupam debalde
o sangue no poema
nunca seca
quando muito assusta
corre por fora
sem coração
bombeia a face fora da margem
as partes do poema obcenam
membros sem vultos
intocável tronco de alimentos

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Gravidade zero




o espaço na cabeça do poeta é estrelado
as coisas flutuam
acima do permitido
e finalmente repousam
no indefinido

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

POEMA INÉDITO DE GERUSA LEAL

Menos mal



Não se meta comigo - ela disse
e maldisse o sorriso sensual
que lhe deu quando o viu sem camiseta.


É que não conhecia-lhe a faceta
que depois, sem mais tudo descobriu.


Quis mandar-lhe pra onde já se viu,
quis mas era mister reconhecer-se
nunca fora amada como tal.


Menos mal se o amor dele foi desses
que a mandado nenhum obedecesse,
ele disse - morena, não faz onda,
e meteu-se, sussurando em seu ouvido:
minha flor, no amor tudo é normal.


Gerusa Leal
Deriva



a poesia
fincou palavras
na minha espera
florescem sangues
na esfera
sem navalhas
nem revelas
solto palavras
como velas

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CANTILENA

não sou dado a discursos
nem às discussôes
ouvi em silêncio a cantilena
a nudez das pessoas não me toca
muito menos das palavras
desfilaram nuas bem próximas
em resumo dizendo que eu nunca a amei
chorei copiosamente
sem soluços
a verdade sempre me comoveu

TRÊS CARTAS EM MÃOS

CARTA PRIMEIRA


diante do medo
meu sentimento é outro
quem já esteve diante da morte
sabe do que estou falando
a morte não tem face
mesmo assim ela te encara
olho no olho
e você não tem a quem desmascarar
por isso meu amigo
quando a morte vier
não tenha medo
abra bem os olhos
para outros sentimentos
e continue a dormir


CARTA SEGUNDA

se pudéssemos
representar graficamente o tempo
ele teria a forma de um não

não este não comum
redondo
que te impede
mas o não vasto
que te bifurca
e te empurra
em direção ao sim
que não procuras


CARTA TERCEIRA

com aquela proposição deísta
não descartei Descartes
a dúvida de Deus é o seu vir-a-ser e, não sendo, não pode ser
passada a dúvida
Deus torna-se pensamento ou sentimento
a dúvida de Deus confunde-se com a do homem
afinal, segundo as escrituras,
este não é feito à sua imagem e semelhança?
ou o pensamento e o sentimento
possuem outro significado no plano divino?
que imagem e semelhança é essa
sem a aflição e a angústia da dúvida?
somos consequência da dúvida de Deus
ou Deus é a causa da nossa dúvida?
ou descarte outra opção
palhaço

precisava rir um pouco
comprou um espelho
puta

fito
a tua buceta como
quem morde o ar que passarinho não despreza
com seu canto vermelho prolongo
meu olhar até o fim do teu colo e
pasmo
espalho teu destino
pelo gozo

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

raiz de celofane

não morda o laço por dentro
não dente a face oferecida
não faça da boca uma estrada
não faça da amada um abismo
cereja de papel


um mar de borboletas sem asas
mesmo assim
sobrevoa a lágrima dobrada

meu medo
cabe no bolso furado
do mundo
Canto da alma esquecido


quando eu era feliz
não passei disso

se havia uma alma
não notei

hoje sou triste
e piorei

terça-feira, 6 de outubro de 2009

oração


escrever é a minha
maneira de rezar
quando crio
sou deus no gerúndio
solidão



a noite na sala
não tem astros

a solidão
um som que não sei imitar
embora o eco permaneça
repetindo a dor

no leito
o rio escorre o seu sono nervoso
e nada ao redor
faz parte do seu sonho

tudo é tão real
quanto o vôo da mosca
interrompido pela língua
do homem-rã
botãozinho de espera


boninas unhas
bolinas bolinas
boninas unhas bolinas
bolinas o meu
saquinho de esperma
bolinas boninas unhas
bolinas bolinas
até explodir
a terceira grande guerra

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

água


a poesia pronta
mas eu não vou chorar
porém a lágrima é um rio autônomo
cujo leito natural é o rosto
esse rio deságua no olhar do outro
pode ser plano
pode ser oceano
frugal




estarrecido
com o cheiro das frutas no varal
reparto minha fase
minhas frases em partes desiguais
não morro meus músculos
sem músculos o mundo se move
e nem por isso me comove

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ar suturado


os pontos internos do poema
não interrompem nada

respiram quase ao mesmo tempo
o poeta e o leitor

as suturas se abrem
antes das flores

espalham odores
difíceis de escrever

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CÉU CAMBOJANO


estrelado
a parede do meu céu descoberto
sem ninguém pra amar
sem o mar por perto
decerto suar
sem estar no deserto
encontrar no luar
outro tipo de oceano
descobrir que morrer e amar
estão no mesmo plano
CÉU DE CAMBOJA


mesmo sem o sol ainda
o céu de Camboja
é o mesmo de Olinda
as mesmas estrelas
a lua
as esquinas
as meninas que sonham
as que se humilham
sob o céu de Camboja
sob o céu de Olinda

terça-feira, 29 de setembro de 2009

PARA OS FILHOS

Quando ouvi seu coração pela primeira vez (1991)


felizes são as nuvens
porque retém as águas
eu não tenho essa felicidade
sou uma chuva derramada
mas quem retém os mares
mora na minha casa
e consegue libertá-los
com pulsação e asas


Para um mar retido no ventre (1994)


mergulhamos cada um
e a mesmo tempo
na melhor parte do outro
e não deixamos ondas na superfície
nem respingos
descobrimos o segredo
de permanecermos secos
sem tocar o fundo
nem voltar à tona

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

passo em claro




diminuo os passos
na esperança de me perder
aos poucos as pernas
vão se acomodando  ao espaço
reservado aos pés
e o corpo acompanha
o movimento juntamente
com as mãos 
diminuo mais ainda os passos
não perco a esperança
de me perder 
aos poucos o pensamento
vai se acomodando aos fatos
nenhum sentimento
acompanha o movimento
lento até a inércia
constato que jamais
me perderei

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

pipa do gabado


o amor me infla
com ares de abismo
quem me guia
segura pela alma
as mãos acompanham o lado
que o tempo inclina

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

haldol ou dor




como se não bastasse
o pai
e o filho
o espírito tanto
fez
que me trancou 
por fora
ou me escancarou


a cama de pregos
fere o sono
e o sangue
com a gula
de quem vive
ou morre
pela metade
me sacode
pra fechar os olhos
e procurar na face
a lucidez perdida

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

pane seca


o combustível da palavra é a fome
quem emudece diante da comida
sabe do que estou falando
o falar da poesia é outro
quem se cala
diante da página em branco
sabe do que estou falando
o combustível da idéia é a palavra
quem carrega perdas sobre os ombros
sabe do que estou falando
é vária a fome que te vara
é vária a comida que te invade
o vário alimento que te fecunda
a palavra que te cabe

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

comunhão de males


a minha dor
a ti me pertence
a tua dor
a mim te pertence
o fio tênue que nos une
tenso alonga-se
quase
desfazendo-se
quase
partindo
para sempre
outros fios
que vão
nascendo
canto do beijo sem fim


beijo até onde a vista alcança
mais que isso
borboleta inflada em verso
corpo além do esperado
passo bem dado
balé de estímulos
menino soltando ruídos de pedras
ninguém me espera
desço depois do pronto
apronto sonoro desencontro
sumo deixo que o rumo
me assuma

terça-feira, 8 de setembro de 2009

proselitismo


não tenha medo
a dor não precisa de sangue
o amor em fuga se despedaça
entre a pele e o osso
a alma dispara
costas


ancorar nas tuas costas
desaguar do amor sem volta
boca que não me fala
ar que me sopra
em direção ao mundo
sem rota

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

portas abertas


um rosto é muito pouco
um corpo é muito pouco
um dente
uma semente
uma solidão dormente
tudo muito pouco
um sorriso abre a porta
e você sai
para dentro do mundo
e num segundo
o mundo não está mais
o poeta posto a nu


o poeta foi descoberto
apesar do terno e da gravata
ou dos sapatos baixos
no meio da multidão ele se destaca
por não possuir nenhum cheiro característico
muitos não sabem
mas o silêncio do poeta
é repleto de palavras
mesmo assim ele é convocado para cantar
mesmo sangrando
o poeta poreja uma palavra
e o verão chega
o poeta lacrimeja uma frase
e vem o inverno
qualquer gesto do poeta
e as estações se manifestam
porém o poeta quer ficar imóvel
não como uma estátua em praça pública
quer ser um dos pombos
que se perdeu da revoada
porque se distraiu catando grãos
entre um silêncio e outro
uniforme

vesti a poesia e depois
o uniforme por cima
houve um movimento
tempos atrás
para que a poesia se
tornasse o uniforme oficial
mas a cor não
combinava com o mundo
oswaldiana 34


a noite caiu
sem licença da Câmara
e para felicidade geral
dos acionistas da
Companhia de Eletricidade
re sentimentos


vou até aonde posso
até aonde sinto não consigo

amar é longe
não tem endereço
odiar é perto
nem tem começo

se derramei amor ou ódio
sobre ti
meus sentimentos
esclaro


pedi licença
e fui escarrar lá fora
tenho meus pudores
essas coisas que saem de
dentro da gente
escarro porra merda mijo palavras
exigem uma certa privacidade
ainda bem que estou
escrevendo escondido
que ninguém veja
essas palavras

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

estrangeira



a poesia não faz fronteira
com nenhum país
não fala o meu idioma
nem o teu
não sabe quantas vezes
gira ao redor do homem
durante um ano
não sabe a dor
do lado escuro da lua
não sabe andar nua
nem vestida
não sabe olhar sem se ver
não demonstra culpa
quando não é entendida
ou quando o seu sentido
e a sua forma
não acompanham o nosso desejo
ou o seu ritmo está fora do nosso
e não desvendamos o que
seu passo quer marcar
a poesia não quer comida
mas alimenta
não quer vida
mas se movimenta
não quer intimidade
quer ficar trancada no ar
esperando o nosso respirar

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

eu dei na minha mãe


eu dei na minha mãe
o maior susto
quando ela me viu chegar
fantasiado de poesia
ela percebeu
nos desenhos bordados
que eu ficaria mirrado
triste desencontrado
desiludido seco perdido
abatido solitário
desvalido sem caminho
depois ficou conformada
quando expliquei
que na estrada
mais vale o passo
que a chegada
que a dita palavra
não é nada
se não for transformada
em riscos

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

das coisas irreversíveis



mesmo que você não veja
o sol brilha
em algum lugar

todo o mundo
mete a cara na vida
ao lado do fundo

e férias é o idioma
que a morte
não sabe falar
bar


vinte copos submersos
sob a superfície do olhar
todos os pensamentos
bebidos

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

canto do beijo sem lábio

minha cabeça não está pra beijo
o corpo talvez
e o lábio que se turva
diante do outro que se curva
está aquém
entre a pele
e o momento
entre entre eu disse
sem usar a cabeça
a pele do pensamento
suspensa
pingando saliva
movimentando cartilagens
sem vida
minha cabeça não está
o corpo me fez
curvar o poema
evitando tocar o lábio
pele do sentido
pregada no sangue
movimentando
a palavra exangue

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

trancelim anuviado


as nuvens pulam
de um prédio para o outro
o sol perfura o meu corpo
o chão sabe do meu passo
o tempo do meu passo em falso
espiar o mundo me obriga
a pendurar o prédio no pescoço
cada um carrega
o peso que merece
que eu carregue o mundo
que a poesia me carregue

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

ditirambo


amar não precisa
de pensamento
como beber um poema
um gosto de poente
se espalha
entre o canto da boca
e da alma
poética ou
pra não manchar a idéia


a poesia não modifica nada
não vai salvar o mundo
nem afundá-lo
a poesia não evita o sofrimento
nem provoca alegria
alguém já disse
que a poesia é um sentimento
outro retrucou que a poesia
é uma epidemia inventada
para reduzir a população mundial
mas a beleza evitou criando anticorpos
a poesia não promove a paz
nem incita guerras
não é a origem de todos os males
nem evita mal algum
pra mim a poesia
é um fenômeno físico
quando me perguntam
por que faço
respondo que dois corpos
não podem ocupar o mesmo espaço

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

féretro


no centro da sala o defunto
ninguém toca no assunto
as moscas no formato de flores
as dores em forma de cores
o assunto querendo ser tocado
apenas o morto
se desespera
ateia ausência
em forma de terra

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

córrego


o barulho do pólen
a dor do casulo
manchas de flores no esgoto do sol
nem a primavera
nem o dia
apenas a vida pingando
lentamente
em preto e branco

terça-feira, 4 de agosto de 2009

esperando soluços

a casca da espera
irrompe a planta dos pés

quando eu falava
nem havia palavras

eu te espero
como escuro
é o mesmo
desespero

quando eu falava
nem havia boca

a espera oscula o fácil
mastigar sem cuspe

quando eu falava
nem ouvia

queriam escrever minha culpa
porém não tenho pele
uso apagar sem mostrar
ouso escrever sem me dar
as árvores que me deram as costas
agora se agacham

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

não sou mais artista


não sou mais artista
conheci o senso de ridículo
sem me olhar no espelho
não vou mais fazer ninguém feliz
nem me fazer
não que isso seja uma atribuição do artista
mas a felicidade requer
a ausência de senso de ridículo
só os artistas e os felizes
dançam e cantam em voz alta
pelas ruas
e são confundidos com os loucos
não sei lavar os fatos
a água que me cabe
só me afoga
não sou mais artista
quero que me desconheçam
quero que me esqueçam
que não amanheçam ao meu lado
quero ficar rente ao chão
pendurado pelos braços

quinta-feira, 30 de julho de 2009

desconhecida


na ponta do pés
e não consigo alcançar meu coração
ele subiu na esperança de enxergar
alguém que nunca mais vai voltar
meu corpo apodrece antes de mim
apodrece antes do meu fim
raizes atravessam o meu corpo
prova que ainda não estou morto
não sei o que buscam essas raízes
regadas por lágrimas
enquanto isso vou nascendo
antes de me tornar semente

POEMA DE G.VIEIRA

REPOÉTICA


porque sou poeta
jogo palavras como dardo
escrevo poemas à foice
pra arrancar flores
e botões da camisa
suja de abraços
a quantas braças do sentir
a tantos nós de mim - poesia
mar que me seca e alarga
entre coisas que sempre
vou desaprender

quarta-feira, 29 de julho de 2009

perdulário provisório 2


nem morto nem feliz
por isso aberto
à poesia
a dor o amor
resvalam na alma
deixando sequelas

terça-feira, 28 de julho de 2009

perdulário provisório


não tenho obrigação nenhuma de morrer
nem muito menos de ser feliz
a vida é o reflexo
onde a beleza se ampara
e a felicidade é o sonho
que a morte esqueceu

segunda-feira, 27 de julho de 2009

poética ou
para não manchar a página


se eu fosse poeta
e me fosse dado
escrever um poema
eu não o faria
deixaria a foto na máquina sem revelar
lacraria o botão antes de a flor abrir
represaria o rio antes do mar
poesia requer
desabrochar revelações escoamentos
coisas que nunca vou aprender
para preencher lacunas

ela nunca me viu chorar
apesar dos motivos
ela nunca me viu morrer
apesar dos motivos
gostaria que ela voltasse a me ver
sem nenhum motivo

quinta-feira, 23 de julho de 2009

dia agnóstico

chega o momento
em que o remédio
não faz mais efeito
os exames trazem
mais dúvidas que certezas
o momento em que é preciso abrir
e depois de aberto
descobrir que o caso
não é mais operável
chega o momento
em que é preciso dizer
o que ninguém quer falar
ouvir o que ninguém quer escutar
dizer o que ninguém quer dizer
chega o momento
em que questionamos à vida
e ela sai à procura da resposta
e nunca mais volta

segunda-feira, 20 de julho de 2009

de sabores

o tempo me proibiu de comer palavras
os sentimentos têm o mesmo sabor
mas são venenosos
o silêncio nutre muito mais
porém o sabor é amargo
prefiro desobedecer ao silêncio
como palavras
alimento

quinta-feira, 16 de julho de 2009

boaconha

uma ramagem de canabis sativa
tatuada nas costas de uma mulher
lembrou-me de um antigo poema
no qual eu descrevia ervas medicinais
lembrou-me de uma namorada
que me deixou plantado na praça leningrado
sob rega de lágrimas
lembrou-me das várias fomes do não
a vida
que sempre me tratou bem
mesmo sem me conhecer
- como deveríamos tratar a todos -
me faz lembrar de coisas
que eu nunca deveria esquecer

terça-feira, 14 de julho de 2009

posologia


a cadeia produtiva do não
começa na infância
não faça isso
e termina na angústia
não quero morrer
a cadeia produtiva do sim
é mais complexa
exige mais palavras
nela entram as pessoas
e o modo de usá-las

terça-feira, 7 de julho de 2009

recíprocas


aprendi com o tempo
a sorrir
por dentro
ensino ao tempo agora
a sentir
por fora

sexta-feira, 3 de julho de 2009

céu de agosto


bebi o céu de agosto
e não gostei
a pedra sob o meu corpo
tem vida apesar de mais quente
quem carrega o meu corpo
sabe que não morrí
mas a cova está aberta
e as flores ansiosas se precipitam
sobre setembro antes de mim

terça-feira, 30 de junho de 2009

porco sabor de corpo oco


esperar que a aurora me levante
é o mesmo que esperar que a noite me deite
vai sempre dar
neste gosto porco de crepúsculo
antes de balbuciar alvorada
depois
poesia tá aqui pra isso mesmo
desabotoar os caminhos
para que a solidão não tropece
e fique amontoada
num canto do peito
pesando
além do mais
solidão por solidão
basta a de não ter
teu sangue no meu coração

segunda-feira, 22 de junho de 2009

espelho de cego

o amor é precário
esbarra em palavras
peles e ossos
olhares vazios
e quando transborda
não tem mais
pronde correr

sexta-feira, 19 de junho de 2009

SEM BAGAGEM


com o céu insosso e sem cal
com a palavra arremessada na garganta
com o tempo tecido
com a linha da vida
a poesia saiu pra comprar imagens
e nunca mais voltou

quinta-feira, 18 de junho de 2009

abraço


meus braços pretos cruzados
em suas costas brancas
ao redor todas as outras cores
dos pássaros das flores das borboletas
o amor tem cor
mas é de outra natureza

segunda-feira, 15 de junho de 2009

perda, breve comentário


nem todo o corpo chora
há uma parte que evapora

quem não sabe ser caco
finge ser inteiro
e obstrui a paisagem

sexta-feira, 12 de junho de 2009

SAUDADE

cabe num copo
não cabe num corpo
não cabe num vivo
cabe num morto
PRORROCAÇÃO


ia te dizer
mas não interessa
pra que a pressa
se a prega ficou calma
e a boca desaba
independente do volume
venha me dizer
isso me interessa
tenho pressa
e as minha pregas
ultrapassam a queda

segunda-feira, 8 de junho de 2009

poeminha engajado

não falo da fome
pra não lembrar da infância
não falo da política
pra não lembrar a militância
não falo das putas
pra não lembrar da doença
não falo da angústia
pra não lembrar que sou poeta
não falo da morte
pra não lembrar onde estou
não falo da vida
pra não lembrar aonde vou

redoma

eu te amo não
me livra da morte
corte longitudinal da vida
nos coloca
em lados opostos
eu te amo transparente
pele por onde enxergo o amor
e a impossibilidade de tocá-lo

terça-feira, 2 de junho de 2009

o problema da pele





o osso ancora

onde a pele pensa

o olhar derramado sobre o fato

entope o discernimento



pra onde vão os sentimentos

o homem não sabe

pra onde vão os sentimentos

o homem e o seu ralo

quinta-feira, 28 de maio de 2009

gota submersa

corpo que não quero
ocupa o vário caminho
peço desculpas milimétricas
troco chaves de palavras
varo fugas de raspão
chego em fúria
quero tanto que não falo
mais teria se coubesse
amestro o grito sem perdas
amordaço o tempo sem mandíbulas
o mundo avança em minha boca escancarada
expulso o fruto sem caroço
arrebento em flores sob a terra
eu deveria ser paredes de perfume
porém o chão não tem culpa do alicerce
verto em sins o que não pedes
amputo os braços da ternura
por dentro encontrarás um abraço
num corpo deserto
alma camuflada de miragem

domingo, 24 de maio de 2009

COMO FAZER UM POEMA

primeiro sinta
depois minta

se estiver amando
espere a paixão passar
se estiver com ódio
espere a raiva passar
se estiver feliz
espere a alegria passar

procure uma palavra
com o som parecido
com a que você pretende utilizar
depois faça o mesmo com a outra
depois com a outra
depois com a outra

se o poema tiver
algum sentido
qualquer um dos cinco
prefira o sexto

noturno

a comunidade dos pássaros
empalhou o som

cobri a lua
com o silêncio que sobrou

sexta-feira, 22 de maio de 2009

ODE AMOR



para Si



do amor que eu sentia


e guardei durante


toda a minha vida


não sobrou nem a janela


onde eu te esperava


a casa foi demolida





do amor que me prendia à janela


do tempo aprisionado na gaiola


da migalha atravessada pelo silêncio


da palavra enraizada na distância





pele que despetalha


pelo que desespelo


falo que disclara


do fim que nunca esfero

medida

meça

a palavra impressa

é melhor escrita

na cabeça

quinta-feira, 21 de maio de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

a quem interessar posse

nada é meu
meu sorriso
viajou no olhar de outrem
meu olhar perdido na paisagem
não mudou a paisagem

nada é meu
esse poema
é a leitura de alguém

quarta-feira, 6 de maio de 2009


BOLETIM

os sentimentos me entubaram

não há remédio

o amor a dois palmos

dos braços de chumbo

a tristeza embutida

no peito inviolável

o amargo planar

da alegria sem asas

constantes fisgadas

na altura da alma amputada

os sentimentos me entubaram

viver não tem cura

POÇO DE PELE

teu cu e a falácia:
a ponta da língua
não desenha estrelas
ao redor da tua pele

com a caligrafia
do meu corpo
me entranho
na página do teu sonho
me despejo em palavras
escritas com pelos
artérias e gozos

não te curvo mais
até o som se abrir
em dois em dias
não te cavo mais
a minha pele
enquanto for a tua
adia o teu chão
onde não me caibo mais

sábado, 2 de maio de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009


PROVA DE AMOR

disseram-me:

sentirás todo o sabor do mundo, inclusive.

disseram-me.



minha fome e minha sede

separados do corpo

após a queda



disseram

não sentirás nenhuma dor

pudera

os nervos deixados pelo caminho

antes do início



disseram, disseram...

amar e não ouvir

eu vos digo

MADRIGAL

o vale
o lago
a casa
o caminho de pedras
os bichos
o cheiro do mato
o céu sem nuvens
o tempo paralítico
a poesia desnecessária

terça-feira, 14 de abril de 2009

CEGUE DORES

para G.Vieira

segui os passos do mundo
me desencontrei
me vi chegando absurdo
me calei
aos passos
sapatos do destino
grosso intestino
me aprisionei
aos poucos
soldei o pranto
à face perdida
me retirei
segui amores
curtume invertido
couro de flores
estiquei
sofri dores
cores de fato
luzes do tato
ceguei
seque dores
a mola que me empurra
amola minha ausência
me cortei

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sombra transitória

sob a tua vulva

planto minha sombra



derramo o meu concreto

ergo colunas com meu gozo



teus galhos retorcidos

em minhas costas

o fruto do mundo

o morder sem vontade

a fonte dilatada pelo arrepio



queira meu corpo



desfaça meu saber

falar com a pele



sussurre sementes no campo devastado

saiba das flores que reguei

usando as minhas digitais



o perfume do meu sonho

arrebentou os botões

o corpo solto o sopro solto



não queira que eu não seja ninguém



o impossível no teu envoltório

sou eu querendo ser água



preencho todas a curvas do universo

teu períneo é o meu céu

poro que exploro

suor de amor não tem sal
tem sul
tem o peso de dois corpos
ou mais
tem a cor que o amor precisa
imprecisa
não escorre nem poreja
não evapora
apavora
suor de amor não tem hora
agora