quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

CICATRIZ

quando foste sangue
eu era o corte
por onde fugiste

ANJOS DE COLA

durante a noite os automóveis
flertam com os anjos
para os transeuntes
os anjos não existem
por sua vez os anjos
penduram suas lembranças
na noite e decolam
com suas asas de cola

AMONTOADOS

os dias amontoam-se
uns sobre os outros
o primeiro quase esmagado
o último mais aliviado
e queremos nos situar
sempre no melhor momento
mas não há tempo
os dias nos tornam
iguais a eles
e vamos nos amontoando
uns sobre os outros

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

PIER PROVISÓRIO

no fundo do teu olho
vou sumindo
o melhor túnel que consegui
agora sei dos pensamentos
dos ventos ancorados
marinheiros vestem sonhos
e botas de abismos
nos outros estão
todos os sentidos
a solidão não me passou
para o lado de cá

NA ESTAÇÃO

bagagem de mão
tecidos do céu
fornecem estátuas
trilhos entreolham-se
queria um trem
no lugar do coração
apesar de puro
mordo com a mesma força
que me escapam
deviam ser olhos
porém perdi
agora sou apenas paisagem

MAIS TRANSPARENTE

a palavra que faltou ao poema
guardo
a solução do problema
guardo
a alegria plena
guardo
a poesia é o melhor lugar
para guardar as coisas
o silêncio é mais transparente
que o vidro

CÓPIAS

com o tempo tudo apaga
para evitar que isso aconteça
tire cópias de tudo o que você fizer
os gestos as falas os erros
principalmente os erros
principalmente os erros que você
nem sabe que cometeu
depois guarde tudo
bem guardado
num lugar bem fácil de esquecer

IDIOMAS

quem planeja ir para o céu
deve esquecer a poesia
a poesia é o idioma do inferno
por outro lado é o único idioma
que o demônio não aprendeu
por isso os poetas que chegam ao inferno
não são compreendidos
e são devolvidos imediatamente
a poesia no céu é codificada
por isso os poetas que chegam ao céu
não são entendidos
e também são devolvidos imediatamente
aos poetas do céu e do inferno
resta vagar por este lugar
onde também vaga o infinito

ALEGRIAS

a pele ao sol
a invasão da alegria
o que restou do corpo
descansa à sombra
do varal onde
a pele pende ressecada

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LITOTOMIA

o teto sem teto
o céu azul repleto de estrelas
as nuvens guardadas
numa caixa sob a cama
noutra caixa os sonhos
miro o mundo com o períneo
o refluxo faz retornar
as mesmas palavras porém sujas
espero um amor sem dor
todos esperam
a ação de esperar não é ação
nem reação
esperar revela buracos
maiores que a escuridão

INCLINADO

a luz sobre o lago
a sombra da luz sobre o lago
sobre o cardume
a luz do cardume sobre o fundo do lago
a sombra do fundo do lago
inclinando o mundo
minha boca na beira do mundo
tento saciar a minha sede
mas a minha sede
não é de luz sombra ou cardume
vai além da seiva da luz
transcende ao negrume
ao dorso escorregadio do peixe
minha sede não cabe no mundo
caberia se eu fosse água

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COISA SEM NOME

às vezes sinto
todas as coisas juntas
e é necessário separá-las
cada coisa com seu nome
e das coisas sem nome
faço poesia

LONGE

nunca estive perto da poesia
talvez da sombra
talvez da agonia
nem da palavra estive perto
se eu disse e alguém escutou
se eu estive e alguém aceitou
quando eu descobrir
o segredo de ficar perto
quando eu disser
estarei deserto

MARCA DESFERIDA

toca a minha superfície
ondulo-me
espalho aos cantos do lago
todos os sentimentos
no meio de tudo
guardo a marca
do ferimento

FIM IMPERMEÁVEL

vascularizei o ósculo
o crepúsculo
pensando ser com ele
avermelhou-se
aglutinou todas as flores
para dentro
todas as dores
pra fora
impermeabilizei o fim
nada acaba
sem mim

FELINA

todos os músculos
do alfabeto
precisam de descanso
a poesia sabe disso
escolhe as presas
e desce em vôo rasante

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MUDA

mudar o vaso de lugar
não muda a planta
mudar a casa de lugar
não muda a planta
mudar o modo de regar
não muda a planta
mudar o modo de olhar
não muda a planta
mudar o modo de podar
não muda a planta
mudar a terra
não muda a planta
mudar a estação
não muda a planta
mudar o homem
não muda a planta

POEMA DE NATAL

dizem que poesia não dá dinheiro
que quem se mete a escrever poemas
é um maluco que se envolve
em algo que não dá lucro
apesar disso
pedem um poema de natal
dizem que o natal é poético
porém o natal dá dinheiro
é uma coisa que dá lucro
e o maluco que escreve poemas
segura essa coisa chamada natal
em suas mãos e procura poesia
vê uma ilusão
algumas pessoas lembram que
comemoram o nascimento de alguém
que tempos depois vão trucidar
outras nem lembram disso
o maluco que escreve poemas
não vê nenhum lucro emocional
em escrever esse poema
como se escrever qualquer poema
desse algum lucro emocional
mas procura motivações palavras
imagens abstrações emoções
não enxerga neve nem jesus
nem passado nem futuro
vê presente
alguma esperança
num pacote fechado
e impossível de ser aberto

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

EXPLICAÇÕES

pediram explicações
eu fluí dos mapas
disse que eram contas
as estrelas sossegadas
o poro que engoliu o abismo
é o mesmo olho que fechou o mundo
falei das coisas tangíveis
como se houvesse
e a poesia funda
como se explicar coubesse

FURO

o tempo fura
o meu cabelo
e alcança o sonho
o tempo é maior
que o meu sonho
por isso não consegue
parti-lo ao meio
o sonho perdido
no meio do tempo
pensa realizado
por estar no centro
o tempo quer ter sonho
mas não tem tempo

GRAMA

a grama expele verde
o que consegue
sendo inerte
sob a pele o verme
sugando a areia a carne
sob a pele imberbe
barba de terra sem navalha
os pés que se assemelha
a um afago
não passa de escravos
de caminhos desmedidos

SOBRE CORTES

certo como a morte
a poesia vem
o que difere é o corte
na poesia o sangue se esvai
sem nenhum corte
na morte é menos sangue e
mais corte
dizem que a morte
abre portas
eu sei que da poesia
não há volta

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BELEZA

turvo as páginas do livro
derramando derrotas
florestas erguidas
feito álcool
feito fitas
enroladas no precipício
era fácil a leitura
a visão era escura
quem procura clareza
deve esquecer a beleza

PENSAR

pensar meu corpo sem osso
pescoço preso ao mastro
tremulando
pensar meu corpo sem peso
tecido insólito
sem lastro
pensar meu corpo
sem pensamento
por um momento
não penso

PASSAGEM

não sei pra onde vão
as palavras que descarto
as pessoas que descarto
quando parto
minha passagem
não tem preço
também me descartam
quando não mereço
lembrar é a melhor bagagem
esquecer é a melhor viagem

VERÃO

o sol salta
de olhos vendados
varal de sombras
secam flores
desmotivadas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SOLILÓQUIO

falarei de amor
serei simples
o sentar-se à mesa
a toalha limpa
o prato
os talheres
o copo
e a espera pela comida
quem ninguém vai trazer

SONO DE FLORES

dormir como flores
não nos tornará primavera
no máximo
um sonho colorido
quem sabe perfumado
talvez uma abelha ou um beija-flor
dignifique o nosso sono
torne algum dos nossos pedaços
mel ou fruto ou bagaço

ESCOMBROS

o céu é o meu chapéu
as botas o chão
minhas roupas
algo parecido com o universo
mas não passa de um coração
desculpe o modo como piso
desculpe o modo como penso
agora passo por um mau momento
o que me invade de assombro
quando me descubro
escravo do escombro

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ESBARRÕES

as palavras vão por um caminho
eu vou por outro
nunca tivemos um encontro marcado
de vez em quando nos esbarramos
e sendo elas mais fortes
sempre acabo machucado

MASMORRA

construí um castelo de areia
comecei pela masmorra
nela prendi meus sonhos
junto com a maré
assim sempre tenho
o castelo em pé

MEDALHÃO

coca-cola não apodrece
ódio também não
apodrece quem bebe os dois
demonstre seu ódio
a quem te odeia
demonstre seu amor
a quem te ama
pendure o coração no pescoço
mostre que ele é um osso
duro de morrer
mostre que ele pulsa
por impulso
não porque gosta de viver

domingo, 19 de dezembro de 2010

QUEDA D'ÁGUA

a sonoridade da água
caindo sobre o corte
igual a da vida
sobre a morte
a água
não estanca o sangue
a vida
não estanca a morte

CHEIROS

cheirar dezembro por dentro
um ótimo exercício para o olfato
a primavera engolida
deixa pedaços nos dentes do sol
durante a noite
recolho os fragmentos
pra fazer poemas

PEDRA

quando olhei a pedra
não aconteceu nada
quando a poesia olhou
enxergou uma queda d’água
parecia de pedra aquela queda
parecia poesia a pedra
que cegou a minha alma

VISÃO PERIFÉRICA

minha visão periférica
mostra flores
de cores imprecisas
igual às cores da vida
minha visão periférica
mostra algo
parecido com a alegria
a alegria de frente
jamais consegui enxergar
ou ela já passou
ou nunca vai me encontrar

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SUBLINGUAL

a minha rotina de lágrimas
tomou um novo rumo
escondi o veneno sob a língua
na esperança de matar as palavras
esqueci as escritas
esqueci as pensadas
e estas que pensei
e escrevo agora
formam a onda sonora
onde a minha lágrima desamparada
é a última que faltava
pra inundar o mundo

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ESFERAS

a epiderme da rua
envolve o destino
de tal forma
que a bolha de sabão
desfolha-se
rompe o casulo
em direção à claridade
era de pele o frio
era de esfera o vazio
quem me dera
deu porque me perdi

O SOL SE CURVA

o sol que se curva
mostrando os ossos
agora se deita e morre
a felicidade é a angústia na sombra

FELICIDADE

se eu não fosse tão triste
seria mais frágil
quando a felicidade me atingiu
fui despedaçado
voltei os passos
pelo mesmo caminho
recolhendo cacos
e ainda não encontrei
nenhum dos meus pedaços

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DECÚBITO CENTRAL

coloco-me numa posição incômoda
propositadamente
almofadas
paredes acolchoadas
serviria para o sono eterno
se não apodrecêssemos
decúbito central
mão da palavra na altura do peito
flores unindo um dente a outro
por este ângulo
fica difícil enxergar o meu sorriso

HOJE

pensaram o tempo morto
e ele nem havia nascido
neste momento do parto
crescimento e morte
nem cabe um pensamento
o tempo não precisa de espaço
basta um passo
e permanece imóvel

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ÁRVORE NO MEIO DO RIO

uma árvore é inocente
porque não tem coragem
de mover-se
tirar a sombra do lugar
uma árvore é inocente
porque não vende frutos
nem flores em ramalhetes
uma árvore é inocente
porque prende o nosso olhar
quando nasce no meio do rio
não sente frio
nem falta de formigas
abre o rio ao meio
e ele a abraça do outro lado
já cicatrizado

A BANDEIRA DO POETA

existe uma lua
para cada poeta
na qual ele
finca a sua bandeira
a bandeira do poeta
na lua tremula
e quando tem cores
não são adequadas
a bandeira do poeta
não precisa de hino
ou de guerras
o poeta ocupa o território
entre as cabeças

A ENTRADA DA NOIVA NA IGREJA

é de nuvem o véu
estrelas na grinalda
sapatos de diamantes
obrigam a curvatura da escadaria
o coração entre as flores
nas mãos trêmulas
portas são demolidas
pela felicidade
o corredor de perfumes coloridos
olhos sustentados por sorrisos
a música faz tudo flutuar
e pensamentos e palavras e gestos
formam uma doce névoa
a noiva desliza em direção ao altar
no final o noivo
talvez plane com asas prateadas
parece imóvel
parece longe
pintado de um amarelo artificial
e quando se aproxima
mostra os braços abertos
juntos às travas de madeira
as sete chagas se abrem
para recebê-la

COISAS DESAGRADÁVEIS

ultimamente
tenho feito muitas coisas
desagradáveis
escrever por exemplo
levaram os meus pulsos
deixaram o sangue
levaram o meu corpo
deixaram a morte
não posso me eximir
do espólio
se o silêncio foi degolado
o sangue vai irrigar
todos os corpos imaginários
a poesia é a causa
de todos os sangues
é fácil de carregar
não cria músculos
a poesia tem o mesmo peso
do silêncio

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DICIONÁRIOS

quem ama não se importa
com o significado da palavra amor
quem ama perde dicionários
acredita que tudo tem significado
a palavra não representa o que apresenta
o sentimento significa todo o momento
quem ama enxerga o outro sem palavras
a palavra não enxerga nada

CAIXINHA

a caixinha de guardar poemas
mantenho sempre aberta
nunca se sabe o que vem nos visitar
uma lua fraturada
um sangue deglutido
um amor lancinante
um pronome possessivo
a caixinha de guardar poemas
agito com a espera
sobe um cheiro
de silêncio quase morto
de pensamento antes da cabeça

EQUILÍBRIO

cultivo o equilíbrio necessário
para sobreviver
corda bamba não consigo
cabo de aço entre prédios
impossível
outros pulos malabares
nem pensar
dou três passos
paro respiro me reequilibro
e a cabeça não acompanha
esse movimento
fica lá atrás
pensando em que poesia
eu estaria sentindo
naquele momento

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SOLTO

a árvore segura a rua
a rua segura o mundo
eu gostaria de falar
do de dentro
das coisas minhas que desconheço
das coisas tuas
eu não me alcanço
eu não te alcanço
a árvore segura a rua
a rua segura o mundo
não sei quem me segura

BARULHOS

um surdo desenha sons
conforme o movimento
o barulho da vida
é escuro
o barulho da morte
é claro
o barulho da poesia
é raro

CREPÚSCULO

para a poeta Eunice Arruda


o sol se põe
e os girassóis suicidas
bebem o veneno da noite

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

TRANSFUSÕES

o amor não tem sangue
meu coração não tem amor
as bombas latejam sem gritos
os líquidos curvos navegam
meu coração bombeia sangue
o amor me bombeia
os sentimentos gotejam meus gritos
os sonhos esquisitos criam carne
meu sangue não tem amor
o amor me transfunde para o mundo
moribundo me rejeita

JARDINEIRO

construo flores
com palavras
uso o silêncio
como estrume

VERTIGEM

belo ou ralo
comum ou raro
um poema sem vertigem
é um poema sem pele
e sem pele
só ossos e nervos
e músculos expostos
difícil também
não causar vertigem
e mesmo sem corpo
só alma
ou quase isso
quase nada
ainda resta a vertigem
e aos que planam
aos que penam
aos que não enxergam
os que não tem noção da vertigem
ainda assim fazem parte
da mesma queda

GRITO

do poema
o que não é dito
é o grito
o que se mostra
é o silêncio
atravessando a página
o olho o ouvido

no poema
do lado de fora
do infinito
mora o grito

JUNTO AO MURO

o amor caído junto ao muro
lembra uma árvore
sem raízes
sem tronco
sem copa
uma árvore sem corpo
lembra o amor caído
junto ao muro

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ESCONDERIJOS

não existem lugares escondidos
para a poesia
um verme
que se arrasta no escuro
deixa um rastro de estrelas
a dor mais bela
escurece o destino
a morte nos preenche
com o silêncio existente
entre uma palavra e outra

GOSMA

por ser poeta
vomito pedra
lamento decepcioná-lo
se o vômito não é rosado
também é de pedra
o que escarro
o que eu cuspo
e o que falo
e que a latrina
quase branca
quase folha
nunca se encolha

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CRÂNIO

a nave navega sem a vela
corta o céu do intestino
em busca dessa luz
amalgamada
nem sempre onde
os dentes se mostram
mora a alegria
sorriso não prescinde de carne

PARALAXE

aos que gemem
sem o peso da sombra
aos que pesam
sem repouso
aos que me bifurcam
e me encontram
aos que me acendem
sem desculpas
ofereço o meu desamparo
diante da folha que curvo
diante do vulto intruso
poema que me despedaça

VAMOS SER POLITICOS

se você não tivesse dito
o que disse
se tivesse dito outra coisa
se você não tivesse feito
o que fez
se tivesse feito outra coisa
se você não tivesse
se envolvido
se você tivesse ficado calado
se você falasse
o que deveria ser dito
se tivesse ouvido
o que se falou
se tivesse esquecido
o que ouviu
se tivesse lembrado
de esquecer
se tivesse esquecido
de lembrar
se tivesse movido
o que estava imóvel
se tivesse deixado
tudo no lugar
se tivesse envolvido
naquilo
se não soubesse
daquilo
se você estivesse atento
se não fosse tão distraído
acredite
nada mudaria nada
tudo o que aconteceu
inevitavelmente
aconteceria
a situação ou a oposição
pesam em pratos diferentes
da mesma balança
nós somos a mesa
na qual ela repousa

ESCULTURAS

a melhor escultura do trigo
é o pão
a melhor escultura da água
é a seca
a melhor escultura da luz
é a escuridão
a melhor escultura do amor
a ausência
a melhor escultura da dor
a presença
a melhor escultura da luz
é o dia
a melhor escultura do silêncio
a poesia

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VIA CRUCIS

braços abertos
procuro uma cruz que me caiba
um cravo que me atravesse
algo que fixe a minha alma
no seu lugar devido
de onde nunca deveria ter saído
algum lugar entre
o esquecer de viver
e o nunca ter nascido

PARAÍSO PROVISÓRIO

o coração misturado ao estômago
gases nobres
a raiz da unha
regada pelo desejo
neste momento
a felicidade encurrala alguém
aprisiona num modo
e empalha migalhas
o escolhido pensando ser eterno
faz do inferno
um paraíso provisório

LAGO

carreguei o lago pra casa
as arestas derramaram-se pelo caminho
redondo não cabe na sala
profundo não cabe no dia
quase não cabia na poesia
quando namora
deixa o que sente
do lado de fora

CORES BRUTAS

acima do tempo o amor
e as demais cores brutas
que nunca conheci
e que procuram telas inúteis
pois mesmo sem pensá-las
posso senti-las
sem tocá-las

sábado, 4 de dezembro de 2010

ACHADO

parecia perdido
o poema
agora tenho certeza

JUNTANDO ÁGUA

não é só juntando palavras
que se forma a água
nem alterando
o curso do destino
basta espremer o tempo
para verter o líquido feminino

não é só juntando palavras
que se forma um poema
nem mencionando o tempo
ou o destino
basta espremer a página
para verter o líquido infinito

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

REFERÊNCIAS

o chão usa os pés como referência
e os espasmos
para espantar os aviões

minha referência
são as coisas que não sinto
dissecadas e empalhadas pelo não

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

CASULO

nem tenho essas cores todas
e as borboletas insistem
na minha existência
elas tecem meu corpo de sonhos
projetam destinos
faz do meu caule
a ligação com o outro
nem tenho essas dores todas
e o tempo me guarda
nesse casulo de gritos

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DIGITAIS DO TEMPO

os cabelos da minha avó
derramam-se sobre minha vontade
pirulito de açúcar mascado
cores de fugas folhagens
oitizeiro desenhado nas digitais
do tempo me perdi
de ontem não alcancei
a saudade embaça
as coisas que desejo
pegar com o tempo
esse jeito do tempo
olhar pra trás
sem precisar de olhos
sem que as coisas estejam
nos lugares devidos

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

PRISMA

triste como um prisma
recebo a luz
e espalho cores
em algum lugar fora de mim
não tenho luz
não tenho cores
a dor que a luz provoca
ao me traspassar
é a mesma
que o poema provoca
ao me calar

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

BEIRADINHA DE SUPETÃO

quando a América do Sul
moveu a minha língua
tornou de sangue as palavras
e o que parecia ser a curva
de uma idéia
necessária

quando a América do Sul
cruzou o meu cu
eu estava assoberbado
e os homens e as plantas e as cores
transbordaram
tornaram-me esse
pacífico oceano

AO MEU LADO

a alegria desorganiza
minha calma
a alma esbarra num muro
que pensava desabado
teu corpo ao meu lado
dor de difícil acesso
doce regresso
à primavera estagnada

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LIMITE

o nível da minha tristeza
ultrapassou o limite
não cabe nesse poema

quem quiser ficar triste
abra as janelas
veja que o mundo existe

ARVORAR

fui retirado
juntamente com o entulho
as coisas se transportam
em contratempos
as folhas de dezembro se amassam
incluindo os frutos
misturam-se ao enxerto
desse resto do dia
além do horário permitido
não me encolheram
sobrei vomitando a raiz
da planta dos meus pés

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

INDESTINOS

as flores que interrompem o intestino
são flácidas
gastas pra quem vem
entre os asfaltos
meu intestino moderno
reduz o terno
compasso que escrevo
escravo da palavra
resisto
falo de falo por dentro
do delgado intestino

REDOR DO TRONCO

a respiração da árvore
um filme do qual
não faço parte

o meu tronco sem folhas
porém com galhos
com os quais me arrasto

a natureza sabe
onde vou chegar
por isso me plantou aqui

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

MODO DE OUSAR

meu modo de ousar
não consta bulas
não contra gritos
não busca gulas
meu modo de usar
a palavra
consta no modo
de calar

OS MODOS DE USAR

eu fiz de tudo para não enlouquecer
mordi todas as luzes
e permaneci escuro
apaguei todas as cruzes
e não reverti os corpos
eu fiz de tudo
ergui furos sem alicerce
e desamparei minhas quedas
forjei no sonho outra cabeça
e fiz do corpo janelas
eu fiz
uma lucidez que não vou usar

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SAL

escondo o meu grito da multidão
trago bem guardado na mão
o silêncio necessário
onde ele se ancora
eu não sabia
que era um navio
eu sentia o frio
e o mar bravio
eu não sabia
que a minha vida era o sal

ARTÉRIA

respiro
e não alcanço o mundo
mesmo demonstrando minha artéria
toda a ilusão é inacabada
como a velha dor
que se instala
entre a narina
e a flor que me empala

NEM TODO O CORAÇÃO

se o coração parar de bater
não tem importância
as palavras vão sobreviver
a mão que se move
sobre a folha imóvel
mesmo que não gere palavras
o simples gesto fará algo mais
importante que o fim

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

COMPOSITOR

passarinho surdo
compõe jardins
pra ficar ouvindo o verde

RATO DE PRATA

não há nada que me faça
escrever agora
uma carta
ontem
vi um rato de prata
beijar bem de perto
a tarde molhada
ela se desfez em páginas
da própria alma
não há nada que me faça
desfeito
sou perfeito

terça-feira, 26 de outubro de 2010

ACIMA DO PERMITIDO

acima dos trilhos
o trem
abaixo das carnes
alguém
acima do brilho
um nariz
abaixo do milho
a raiz
acima do céu
uma cor
abaixo da terra
uma dor
acima do mel
um sabor
abaixo do fel
bolor
acima do fim
a razão
abaixo do início
a paixão

FASTIO (POÉTICA)

querem palavras mastigadas
ofereço círculos na entranha
minha alma jogada tocando a superfície
é mais que o silêncio
querem palavras mastigadas
e eu nem engulo
querem palavras digerir
quero palavras de gerar
relva
lago
ordem
tudo perfeitamente
fora do lugar

POEMA DEFINITIVO

gostaria de participar a todos
o poema definitivo
derrama-se agora com o meu silêncio
esgota os esgotos
gota a gota o movimento
o poema definitivo
parte de mim
para sempre
para nunca vais

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

POEMA DE G.VIEIRA

PESAR DE ELOS

não desesperes
quem espera
é que não sai de onde
se espera
nada alcança
sempre cansa
não desesperes
se a corte te põe pra fora
a peso de elos
te serve em fatias
paridas da mais pura
hipocrisia
não desesperes
ainda resta uma
dívida paga com unhas
e dentes arrancados
a forceps no colapso
entre vida e poesia.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

GRITO EMPALHADO

não enlouqueça
não enlouqueça
a morte é longa e a vida à beça
o sonho nasce antes da vida
e ele quer que você meça
o tamanho da dor
pra entender
onde termina onde começa
não enlouqueça
a vida não se resume a uma cabeça
existe o corpo existe o morto
algo que quem sabe desconheça
o modo de olhar a vida
como de fato ela mereça
não enlouqueça
não enlouqueça
a vida é simples reconheça
alguma coisa sem sentido
antes do fim
que recomeça
não me enlouqueça
não enlouqueça
não enlouqueça

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ENXURRADA

tentar permanecer alegre
tentar atravessar o frio coração
com o olhar alheio
tentar permanecer insípido
em meio ao saboroso mundo
a poesia vem com tudo
e nem é uma enxurrada
vem com tudo
e nem sabe que é um sentimento

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

MAIS LEVE QUE O MAR

mais leve que o mar
vôo além das falas
vôo além das vagas
deixo na praia
as marcas das asas

A MENINA DOS OLHOS COLORIDOS

para Fatinha

a menina dos olhos coloridos
plantou um abismo
no meio do meu desespero
e os frutos são tão necessários
quanto um sonho
impossível de acordar

a menina dos olhos coloridos
não se parece comigo
por isso caibo em suas mãos
sou exatamente
do tamanho do seu carinho
e faço do seu caminho
o meu chão

O POETA E O CONDUTOR

o condutor sabe
qual o caminho correto a seguir
o poeta não
o poeta nunca sabe
por este motivo escreve
espera que a palavra consiga
encontrar o caminho errado
a poesia nunca encontra
o caminho certo
quando encontra
não é poesia
é algo desconhecido
nas mãos do condutor

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

COISAS

as coisas independem das palavras
chamadas queimam como frutos
faladas entrevam furos
as pessoas são palavras apontadas
desenham tesouros obscuros
quando quero tudo
quero água
quero o precipício e suas malas
as coisas me carregam para o centro
de tudo que arrebenta pela praia
a poesia esgarça
o que ainda tenho por dentro

terça-feira, 5 de outubro de 2010

ENLATADO

quase não sinto nada
peles me defecam em latas
abrimos pouco
quando o assunto é puro
a sujeira de evitar os venenos
quase nos torna humanos
já fui pequeno
cresci quando me dividiram
em pequenas latas
submersas sob as asas

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

DORES PRIMÁRIAS

às vezes coloridas
às vezes doloridas
o sonho atola
o sol na insônia
e o dia prega pontos
em frases inaudíveis
nervos astutos apontam
a sombra necessária
poucos assumem
a perda exclusiva
da treva eu sei
a cor que liberta
o tato que habita

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

ANTES DAS FLORES

a rosa na mão
e a amplidão do destino
desfolhou sorrisos
mesmo sendo inteiro
deixou-se levar
ao fim que não buscava
o botão da mão
abriu-se em homem

DADOS

os números jogados
fora dos dados
somam o meu fim

PORTAS DA LUZ

a nuvem exala a tua ausência
o emplasto azul ao redor
interrompido por uma luz provisória
a luz não tem portas
caminho ileso de sombras

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

LIRA DOS CINQUENTANOS

comi cinquenta anos
e não me dei por satisfeito
plantei pentelhos no medo
depois depilei
plantei milhares de dedos
depois decepei
comi cinquenta humanos
e não me dão por suspeito
quando o rio cobriu
fingi que era o leito
antes de tudo começar
fingi que estava feito
comi cinquenta manos
e não me dá o sujeito
motivos para ser o predicado
motivos pra ser indelicado
com o tempo que me comeu
a fome de ter passado

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

RECIFE

as luzes no cais
abortam sombras
assombradas baias do
cavalo marinho relincha
doces águas no casario
falta a cor do
rio alonga os braços
espreguiça caminhos
aponta vãos de pontes
fontes de arrecifes
arrepiados com o olhar
das coisas vendidas
sem espanto navego
entre mangues
salpicados nas redes
peixes cortam a
superfície da sede

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UM DIA

o sol pela metade
o vento completo
na outra metade do sol

pessoas descoloridas
atravessam pontes coloridas
até este lado

o tempo amortece toda queda
até quem não tem pele
se afaga

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CORAÇÃO PURO

meu coração é puro
qual um poste
tenso solitário
ilumina um lugar
que não lhe pertence

meu coração puro
mora num peito
que não merece
não para de irrigar
e nunca surge a horta
não para de bater
e nunca abrem a porta

terça-feira, 21 de setembro de 2010

VÃO

o amor acabou
na minha cabeça

a cabeça não sabe
onde começou

sabe que subiu
dos pés à cabeça

sabe que cruzou
o vão da sala

sabe que entupiu
os canais da fala

sabe que deu
nessas palavras

o amor abriu
um vão na minha cabeça

agora tudo que sinto
são palavras

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SINTOMAS

eu não havia chegado
quando os sintomas começaram
quando eu cheguei
o mal já estava instalado
e me jogou da sala para o quarto
e eu que pensava ter vivido
nem havia passado pelo parto
e eu que pensava ter morrido
nem havia passado

ASSÉDIO

não digo não
ao não
aceito o assédio
vitupério
em tua mão
envolvo a minha carne
ergo o meu caule
no teu centro
empalho meu gameta
qual um fauno

domingo, 19 de setembro de 2010

EXTERNO

meu coração
fora de si
bate num lugar
onde eu não posso alcançar
inútil bisturi
na minha mão
inútil
transplante de emoção

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

VOLTA

o retorno não
requer pés nem passos
requer tropeços fracassos
a paisagem no canto do olho
a lágrima no canto
da paisagem
lavo meus sonhos
enquanto estou acordado

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

LEITO

bebemos o rio
sem engolir o leito
despetalamos
e morremos flor
se somos
não sabemos
quando somos
sentimos
e o sentimento não nos cabe
a poesia acaba
e nunca sabe

ARDÊNCIAS

o outro
que me olha
sem os olhos
sem tato
sabe que não sou
faço
arder por dentro
pelos lados
só me resta o amor
que cabe em mim
sem arder

terça-feira, 31 de agosto de 2010

SETEMBRO

os ventos empurram
setembro contra agosto
ambos desabam
no abismo do tempo
por um momento
pensei ter me visto
entre a pele
dos dois
sendo mais leve
quase sem mágoa
eu me infinito por dentro
quando deságua
em mim o tempo

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

BIFURCAÇÃO

sigo o sol
até que me esqueça
tudo se bifurca
igual quando se ama
se a flores soubessem
o quanto são magras
seriam mais calmas
o céu onde me ponho
perdi ao chegar
quem me vê aos pedaços
sabe que sou sonhos

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

LEITURA LABIAL

fiz a leitura labial de deus
li que o mundo morreu
e desse corpo inerte
não somos nem os vermes
depois percebi a ilusão
o lábio de deus era o lábio de um cão
por tamanha maledicência
deus me condenou à existência

terça-feira, 24 de agosto de 2010

MINEIRO

o poeta escava minas no ar
são de ouro suas asas
as luzes das palavras
nas grutas do silêncio

domingo, 22 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CARTA SUICIDA 2

das minhas mãos
sobraram os gestos
da minha boca
as palavras
do meu corpo
a carcaça
sobraram desculpas
em demasia
culpas
sobrou do tempo
a agonia

CARTA SUICIDA

adeus mundo cruel
o asfalto sangrado
agora é o meu chapéu

terça-feira, 17 de agosto de 2010

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

INFÂNCIA

meu pai tinha um negócio
de mostrar as coisas
mostrava intenso
minha mãe por dentro
criança nunca sabe
que vai morrer
mesmo morrendo

terça-feira, 10 de agosto de 2010

ALIMENTO

amor é alimento
coma devagar
divague o sumo
coma com prumo
mastigue sem morder
morda sem arder
salive calmo
alimente o rumo
faça tudo pra não engolir
tudo pra não fugir
pelo canto da boca
pelo pranto
faça tudo pra não cuspir
amor é alimento
que se fala
com a boca cheia
e quando falar
fale alto
espalhe o hálito
espalhe o lugar
onde fica o pomar

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

PEDAÇO

doeu não
mas arrancou pedaço
e do pedaço que arrancou
não saiu sangue
se saísse sangue ou doesse
seria mais fácil
um torniquete um analgésico
tudo estaria resolvido
doeu não
mas arrancou pedaço
e o pedaço que saiu
não se encontra fácil
só se recupera com o tempo
e o tempo não entende de pedaços

MANCHA

está ouvindo esse barulho?
é o de uma alma se desmanchando
ela se desfaz em poema
deixa essa mancha na página

sábado, 7 de agosto de 2010

SER AMADO

eu tinha
todas as flores do mundo
agora nem me pertenço

tudo o que sinto
cabe num canto
é preciso um coral
de espaços

quando penso
espanto o mundo
quando falo
me convenço
desse espanto

espero que o amor
me desvende
quando eu chegar

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CULPA

se eu pudesse
trocar a minha pele
e embrulhasse na alma
por engano

por enquanto
é o que me cabe
só tenho a vida
como entrave

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MORTE ÍNTIMA

quase não morro
deixo a vida passar
me comovo
pouco desespero
pertenço aos cacos
pelo avesso
amordaço o mundo
e o silêncio que escorre
me expele
não me contenho
sobro em tudo
que desfaço
do infinito sou o espaço
do refletido o aço
da agonia a espera

EM BRANCO

o punho cerrado
que esperava o meu rosto
para o soco
transformei em tronco
onde brotei meus galhos
minhas flores meus frutos
agora não tenho escolha
aos socos futuros
e às palavras
ofereço minhas folhas

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

AOS TOLOS

sinto muito
não sinto nada
de vez em quando
escrevo poemas
para despistar os tolos
poesia se escreve
com o pensamento
e o pensamento do tolo
direciona para o sentimento
sinto muito
acabou o estoque
de palavras
acredite
não acredite em nada
do que eu disse
não acredito
que você acredite
no que eu sinto
sinto muito

quinta-feira, 29 de julho de 2010

BEBENDO ABISMOS

eu avisei
desde o princípio
nada aconteceria
entre o primeiro dia e o último
a pele não muda
quando precisamos
a palavra não emudece
à nossa frente
apenas um copo
repleto de abismos
desde o início
eu falei
e nada que se fale
será olvido
tudo que é preciso
será inútil
todo necessário
será sonho
eu não disse
desde o começo
medir os desejos
leva à culpa
espancar os medos
nunca sangra
nem adianta
vir com beijos
eu não tenho boca
para isso

quinta-feira, 22 de julho de 2010

TATEANDO NÃO VEJO O QUE ME FIZ

quando arrancaram meus olhos
só faltei chorar
ceguei gritei sangrei mas não chorei
quando me arrancaram os olhos
eu estava dormindo
sonhando com paisagens apagadas
quando me arrancaram os olhos
só faltei chorar
nem vi porque dormi um pouco
além da conta
quando arrancaram os meus olhos
só faltei chorar
tudo o mais que eu tinha direito fiz
porém com tato

DA NUDEZ COMO FORMA DE DEGUSTAÇÃO

nua
da cintura pra fora
o mundo é um caminho sem demora

nua
da cintura pra cima
poema intoxicado pela rima

nua
da cintura pra baixo
a fêmea do abismo não tem macho

nua
da cintura pra dentro
o princípio de tudo é o centro

CURATIVO

no começo pensei que fosse
uma dor comum e logo passaria

pensei que se piorasse
qualquer analgésico resolveria

pensei que por ser suportável
eu me acostumaria

pensei que se eu disfarçasse
ninguém perceberia

pensei que fosse uma dor só minha
mas todo mundo sentia

pensei que se eu me abandonasse
mesmo assim a dor me acompanharia

pensei em mudar o conceito da dor
mas mudar o conceito não a extinguiria

então escrevi nesta página
e a dor se tornou poesia

quarta-feira, 21 de julho de 2010

NOTURNO

o pedaço que falta
da poesia
não tem autorização
para funcionar
durante o dia

o pedaço que falta
da poesia
acende a noite
porém não cabe
na minha mão
apenas queima
a minha escuridão

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VENENOS

se você viver
vai sofrer
se você morrer
vai sofrer
se escolher viver
saberá o valor do veneno
se escolher morrer
saberá o sabor do veneno
seja qual for a escolha
o veneno estará presente
a felicidade consiste
em escolhas erradas

terça-feira, 13 de julho de 2010

DESMEMORIADO RETICENTE

a felicidade
arranha o disco
da serenidade

a infelicidade
não tem pontas
desce reta
até o ponto

eu quero as coisas curvas
mesmo as curtas
não precisam
de memória

REVOADA

as palavras fogem pela janela
não encontram poetas
tornam-se estrelas

segunda-feira, 5 de julho de 2010

nove furos

um ralo
com vinte e quatro furos
cobrindo o furo maior
sou um ralo
com nove furos
cobrindo um ralo menor
a precisão da minha água
não dá em nada
não lava
não vale a vala
que cava
a precisão é turva
deságua seca
sem curva

segunda-feira, 28 de junho de 2010

BRANCO COMO ÁGUA

os soldados pisam na grama
sem cerimônias
manequins movimentam sua imobilidade
nas vitrines
chuva reta
automóveis planos
apesar de tudo
as flores insistem em nascer
proliferam suas garras verdes
em aeroplanos
vôos sem futuro
queimam o algodão do céu
alguns vão entender este incêndio
outros vão esquecer

REFLEXO

Minha alma
Chora em prantos
Como enxurradas que levam corpos
Onde vai parar o meu destino
Em que tipo de poça
Vou poder me ver

FATINHA REGO BARROS

MIRAGEM

a chuva sugere
poemas incompreensíveis
talvez a água me venere
dizem que ela atravessa
qualquer fenda
mantenho-me aberto
e nunca a água chega
em meu deserto

terça-feira, 22 de junho de 2010

AMARA LUCIA

ESTE BLOG PRESTA HOMENAGEM À AMARA LÚCIA AUGUSTO, GRANDE ESCRITORA, GRANDE MULHER E GRANDE PESSOA. FALECIDA NO ÚLTIMO DIA 20 DE JUNHO DE 2010. REPUBLICO O MEU POEMA QUE ELA MAIS GOSTAVA

Madrigal


a borboleta corta a paisagem
sem utilizar lâmina
a paisagem ondulada
pelo vôo
empalha a borboleta na memória

segunda-feira, 14 de junho de 2010

NENHUMA CANÇÃO

minha cabeça
parece uma angústia acordada
meu corpo
tem o tamanho da agonia
minha alma faz tempo
foi embora e nunca mais voltou
habita em algum corpo certo
minha poesia
não parece comigo
por isso a alegria
não tenho mais projetos
o silêncio é meu amigo
fala comigo com os olhos
questiona por exemplo
por que poreja o
meu esquife
enquanto me carregam
em direção ao infinito

velho novelo

uma coisa que eu faço
desfazer o mundo
mas sou pequeno e fugaz
o mundo me desfaz

tenho outras coisas pra fazer
disfarço
e finjo desfazer

quinta-feira, 10 de junho de 2010

canto do silêncio necessário

os quadros na parede
formam um retrato
quando eu fui parede
eu vivia pendurado
entre as pedras
como flores
que esperam ser regadas
pelos pensamentos sãos
sem a necessidade
de inventar palavras
de afagar navalhas
de tornar-me sonho

viagem

não consigo chorar
o suficiente
sempre falta uma lágrima
para preencher o lago
mesmo assim espalho os barquinhos
embarco no melhor de todos
e me deixo submergir

duro

o amor era mole
ficou duro
no escuro tento um furo
com afagos e dentes
o amor não amolece
o amor desmorona o muro
do escuro aceito

terça-feira, 8 de junho de 2010

MANEIRAS DE CALAR

a poesia é a maneira
mais complexa
de dizer as coisas simples
por exemplo
eu poderia dizer isso
de outra forma
mas escolhi essa

domingo, 6 de junho de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

LÂMINA

a lâmina do sorriso
corta a alegria ao meio
o sangue da alegria
é a tristeza espantada

MINTO

quando sinto
não sou eu
coração na mesa
dois copos
quem te abraça
sem corpo
não sou eu
quanto sinto
coração bem passado
talheres
quem te morde
sem palavras
não sou eu
quando minto

MADRIGAL SEM FLORES

a flor no mar de sangue
guarda um segredo no perfume
estrume explode em flores
contaminando a natureza
com cores

quinta-feira, 20 de maio de 2010

fastio

o poeta sérgio lima silva
deixa bem claro que
o que você está lendo
é isso mesmo que
você está lendo
não há outra
imagem visual
além dessa
que
o que está escrito
é isso mesmo
que a poesia
decretou que
o poeta sérgio lima silva
faltou
sem exposição de motivos
sem justificativa plausível
faltou e sem ele
como todo o resto
que o cerca
sem ele nada chega
e o que chega
não advém dele e
sim de algo que foge
do seu controle
logo
a poesia também
não veio
restou algo parecido
entre o silêncio
e o engano
e o que foi lido
é algo ainda
a ser esculpido

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SOLO

venéreo
enxergo perdão na revoada
o silêncio que restou
estupefato
diante de mim
aéreo

POÉTICA

venero
derramo poesias ácidas
não concedo
espasmo palavrinhas fáceis
percebo
exploro o mundo inodoro
descasco
em faces tudo o que procuro

quinta-feira, 6 de maio de 2010

POEMA DE MAÍRA PINHEIRO

SEM REGRAS


Meu útero se foi
restou meu furor feminino.
Não tive menino
nem menina.
Nenhum homem que coubesse
em minha sina
esponsal
terá o meu sangue mensal.


em San Francisco, 1981

sexta-feira, 30 de abril de 2010

EMBLEMA

poesia
e todas as luas do mundo
guardadas no bolso
entre elas
um gesto esquecido
talvez um adeus
talvez um pedido
talvez um fim
do tamanho do não

quarta-feira, 28 de abril de 2010

DORSO

meu dorso
pendurado em teu osso
busca o barulho
do chão
aguado qual
libélula acesa
provocando mãos

PRESENTES

as flores murcham
como os gestos
não há nada a oferecer
que não vá murchar
perfumes
gestos
palavras
amor
tudo irá murchar
só me resta
oferecer o esperar

MEDO DE VOLTAR

simplório gesto
de medir o ar
usando o sol
respire-se por dentro
vou colar brisas
no meu
medo imaginário
vou ter espasmos
fora do corpo
levitar a insônia
marcar com estrume
onde nunca pensarei
abraça-me
porque nunca
vou chegar

terça-feira, 27 de abril de 2010

CANTO DA CABEÇA

nas segundas-feiras
minha cabeça fecha

o que restou de mim
talvez escombros

nunca tive
alicerce

paredes foram erguidas
durante o sonho

os pesadelos constroem
as palavras que pronuncio

nos outros dias
minha cabeça alerta

quinta-feira, 15 de abril de 2010

EPITÁFIO

todo o momento
em que tentei morrer
consegui o meu intento
hoje me contento
com a morte permanente
essa é a minha vida
daqui pra frente

terça-feira, 30 de março de 2010

BARULHO DESNECESSÁRIO

o poeta quer ficar pra sempre
no poema
mais que o poema quer ficar
no poeta
logo vem a última palavra
e antes do silencio
o poeta se cala
eterno é o poema
sem a fala

DORES

o amor
nos isenta da dor
e a lágrima
e o sangue derramado
e a ferida aberta
por toda a vida
tudo passa
como se não
estivéssemos vendo
mas tudo não passa
de outra maneira
de estar doendo

segunda-feira, 29 de março de 2010

ABRIGO

quem beija sozinho
não deixa marcas
o chão se abre
para os solitários
mas a queda é rasa
os ossos nem precisam
ser recolhidos
tornam-se casa

POEMA DE FATINHA REGO BARROS

Chegada




Corro o risco
De correr e não sair do lugar

Vejo ao meu redor
As paisagens desfiguradas
Mas elas não mudam de lugar
As mesmas árvores e sombras

Corro o risco
De correr e não chegar

quinta-feira, 25 de março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

MENSAGEIRO DO ABISMO

um homem com pouca mão
não sabe um abraço
não sabe um afago
não sabe um soco bem dado

um homem com pouca mão
não para um trem
não sabe o mundo que cabe
na pouca mão quem tem

quinta-feira, 18 de março de 2010

espelhos

do outro lado do poema
: o olho
a paisagem elencando vidas
deste lado do poema
: o silêncio diante de palavras invisíveis

sexta-feira, 12 de março de 2010

LIMITE

quando o assunto é verde
limito com urina
meu domínio amadurece
antes de surgir a casca

ANSIEDADE

unha de montanha
neve marcada
fogo feriado

o olhar de nuvem
fala pouco
se vê

ABATE

nem todo coágulo é sangue
nem todo sangue é vivo
nem todo vivo é coágulo

um círculo de plástico
desenrola em jardim

DESPOJOS

o alvoroço e suas consequências
escalar a emoção sem piscar
violar os gritos sem presença
deixar em festa os incomodados
nunca mais vou te deixar
segurando meu couro
se por acaso eu morrer
deixarei meu ócio
e o modo de segurá-lo
e aos ossos asas
ao que posso nada

quarta-feira, 10 de março de 2010

cansaço mecânico

não vou consertar mais nada
o que estiver quebrado
vai permanecer quebrado
as ondas os amores
as coisas impensáveis
a máquina que evita a dor
em nada mais porei minhas mãos
meus motivos
minhas chaves e alavancas
e principalmente o meu tempo
deixarei que fiquem assim
amontoadas
sem funcionar
até que eu me torne
uma delas

segunda-feira, 8 de março de 2010

AR DE CONFESSIONÁRIO

passei a tarde
bebendo culpas
dos outros
as minhas não
tiveram princípio
pediram tarde
demais o início
amo precipícios
não caio sem
certeza de nada

sexta-feira, 5 de março de 2010

OUTROS GESTOS OBSCENOS

a tripa do inseto chegou
bordou a manhã na parede
como se estivesse esmagado
traço o perfil da tarde
como quem morre
adeus e outros gestos obscenos
guardo no cantil
não sei com quem repartirei minha sede
não sei com quem partirei
solto os trincos
cuspo as portas
não importa se o passo ainda não veio
verto o caminho
a partir do que vejo
chego aonde não posso cegar

quinta-feira, 4 de março de 2010

EXTERIOR EXTIRPADO

minha dor
nunca ultrapassa os limites
chega até à morte
e daí não passa
gritos esparsos
espasmos
pequenas gotas
num oceano sem água
minha dor
sente meu latejar
projeta uns sorrisos
até me extirpar

segunda-feira, 1 de março de 2010


Barulho de flores



escrevi palavras na pele do silêncio
mas o silêncio nunca se mostra descoberto

escreverei primaveras nas folhas do outono
quando as flores se abrirem
mostrarão o que eu quero dizer

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Canto da lembrança



esqueci
não quero me perder
tentando lembrar

este momento
é o melhor argumento

o que serei
nunca saberás

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

ESBOÇO DO DELÍRIO PROVISÓRIO

empalho pensamentos na minha cabeça
rascunho corredores nos muros
viver é escuro porem a morte madrugada
gaveta repleta de gestos e a chave perdida
mordo o que a paisagem arrefece
o gosto que me engole noite que me isole
pequeno grão entre os dedos do dia
a loucura são gritos alimentados pelo silêncio

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Grandes lábios





meu lábio superior
toca a lua
com isso o espaço
sufoca a minha fala
digo estrelas inúteis
gesticulo escuros
debalde claridades
meu lábio inferior
me ocupa
com essas palavras

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Casca desferida




a ponta do dedo mínimo
roça a minha entranha
finjo que não sinto
algo me inclina
para o centro
máscaras de dor e gozo
são iguais
quando olhadas no espelho
o que difere é por dentro
e o líquido expelido
sei que estou doendo
não sei por onde
a gaze da palavra
me esconde

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010




Folha de rosto




as folhas do meu rosto
amassadas
esperam o texto
embora pareça
eu não estou angustiado
as falhas no meu rosto
amansadas
espiam o texto

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quase setembro




as paredes do tempo
com suas tintas soterradas

cores imprecisas
acumulam as horas

nem chegou setembro
e as raízes me empurram
contra a água

aprendo com as flores
o modo menos doloroso
de me abrir
Para quem me faz sorrir


chega de olhar para os lados
de abraçar o mundo
vou fazer sorrir
quem me faz sorrir
abraço o meu corpo
faço do abraço uma gaiola
onde prendo a minha alma
evito que ela voe
cortando as suas asas
corto em segredo
porque é mais seguro

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O DESENHO

O desenho trata-se de GALO DE SOUZA, grafiteiro cujo blog deve ser visitado urgente
www.galodesouza.blogspot.com
Terceiro trabalho




o silêncio
é o terceiro trabalho da poesia

os dois primeiros
desconheço

por enquanto trabalho no quarto
e a luz que me invade
me evapora

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

POEMA DE DIONE BARRETO

O compromisso
Para Cida nogueira


poucas coisas são de valia neste mundo:
a solidão ancestral
alguma delicadíssima tristeza
este gesto contínuo de perder-se
e a tua ausência - esta
a que me traz uma saudade necessária

tudo o que sou, trago comigo
e dou-te.
este poder de consagrar o mundo
torná-lo meu
e pertencê-lo.

esta alegria de saber ser pássaro
um jeito novo de colorir palavras
e o meu olhar dentro do teu, configurado

não é muito

mas este é o meu compromisso com a felicidade.