quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

CICATRIZ

quando foste sangue
eu era o corte
por onde fugiste

ANJOS DE COLA

durante a noite os automóveis
flertam com os anjos
para os transeuntes
os anjos não existem
por sua vez os anjos
penduram suas lembranças
na noite e decolam
com suas asas de cola

AMONTOADOS

os dias amontoam-se
uns sobre os outros
o primeiro quase esmagado
o último mais aliviado
e queremos nos situar
sempre no melhor momento
mas não há tempo
os dias nos tornam
iguais a eles
e vamos nos amontoando
uns sobre os outros

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

PIER PROVISÓRIO

no fundo do teu olho
vou sumindo
o melhor túnel que consegui
agora sei dos pensamentos
dos ventos ancorados
marinheiros vestem sonhos
e botas de abismos
nos outros estão
todos os sentidos
a solidão não me passou
para o lado de cá

NA ESTAÇÃO

bagagem de mão
tecidos do céu
fornecem estátuas
trilhos entreolham-se
queria um trem
no lugar do coração
apesar de puro
mordo com a mesma força
que me escapam
deviam ser olhos
porém perdi
agora sou apenas paisagem

MAIS TRANSPARENTE

a palavra que faltou ao poema
guardo
a solução do problema
guardo
a alegria plena
guardo
a poesia é o melhor lugar
para guardar as coisas
o silêncio é mais transparente
que o vidro

CÓPIAS

com o tempo tudo apaga
para evitar que isso aconteça
tire cópias de tudo o que você fizer
os gestos as falas os erros
principalmente os erros
principalmente os erros que você
nem sabe que cometeu
depois guarde tudo
bem guardado
num lugar bem fácil de esquecer

IDIOMAS

quem planeja ir para o céu
deve esquecer a poesia
a poesia é o idioma do inferno
por outro lado é o único idioma
que o demônio não aprendeu
por isso os poetas que chegam ao inferno
não são compreendidos
e são devolvidos imediatamente
a poesia no céu é codificada
por isso os poetas que chegam ao céu
não são entendidos
e também são devolvidos imediatamente
aos poetas do céu e do inferno
resta vagar por este lugar
onde também vaga o infinito

ALEGRIAS

a pele ao sol
a invasão da alegria
o que restou do corpo
descansa à sombra
do varal onde
a pele pende ressecada

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

LITOTOMIA

o teto sem teto
o céu azul repleto de estrelas
as nuvens guardadas
numa caixa sob a cama
noutra caixa os sonhos
miro o mundo com o períneo
o refluxo faz retornar
as mesmas palavras porém sujas
espero um amor sem dor
todos esperam
a ação de esperar não é ação
nem reação
esperar revela buracos
maiores que a escuridão

INCLINADO

a luz sobre o lago
a sombra da luz sobre o lago
sobre o cardume
a luz do cardume sobre o fundo do lago
a sombra do fundo do lago
inclinando o mundo
minha boca na beira do mundo
tento saciar a minha sede
mas a minha sede
não é de luz sombra ou cardume
vai além da seiva da luz
transcende ao negrume
ao dorso escorregadio do peixe
minha sede não cabe no mundo
caberia se eu fosse água

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COISA SEM NOME

às vezes sinto
todas as coisas juntas
e é necessário separá-las
cada coisa com seu nome
e das coisas sem nome
faço poesia

LONGE

nunca estive perto da poesia
talvez da sombra
talvez da agonia
nem da palavra estive perto
se eu disse e alguém escutou
se eu estive e alguém aceitou
quando eu descobrir
o segredo de ficar perto
quando eu disser
estarei deserto

MARCA DESFERIDA

toca a minha superfície
ondulo-me
espalho aos cantos do lago
todos os sentimentos
no meio de tudo
guardo a marca
do ferimento

FIM IMPERMEÁVEL

vascularizei o ósculo
o crepúsculo
pensando ser com ele
avermelhou-se
aglutinou todas as flores
para dentro
todas as dores
pra fora
impermeabilizei o fim
nada acaba
sem mim

FELINA

todos os músculos
do alfabeto
precisam de descanso
a poesia sabe disso
escolhe as presas
e desce em vôo rasante

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

MUDA

mudar o vaso de lugar
não muda a planta
mudar a casa de lugar
não muda a planta
mudar o modo de regar
não muda a planta
mudar o modo de olhar
não muda a planta
mudar o modo de podar
não muda a planta
mudar a terra
não muda a planta
mudar a estação
não muda a planta
mudar o homem
não muda a planta

POEMA DE NATAL

dizem que poesia não dá dinheiro
que quem se mete a escrever poemas
é um maluco que se envolve
em algo que não dá lucro
apesar disso
pedem um poema de natal
dizem que o natal é poético
porém o natal dá dinheiro
é uma coisa que dá lucro
e o maluco que escreve poemas
segura essa coisa chamada natal
em suas mãos e procura poesia
vê uma ilusão
algumas pessoas lembram que
comemoram o nascimento de alguém
que tempos depois vão trucidar
outras nem lembram disso
o maluco que escreve poemas
não vê nenhum lucro emocional
em escrever esse poema
como se escrever qualquer poema
desse algum lucro emocional
mas procura motivações palavras
imagens abstrações emoções
não enxerga neve nem jesus
nem passado nem futuro
vê presente
alguma esperança
num pacote fechado
e impossível de ser aberto

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

EXPLICAÇÕES

pediram explicações
eu fluí dos mapas
disse que eram contas
as estrelas sossegadas
o poro que engoliu o abismo
é o mesmo olho que fechou o mundo
falei das coisas tangíveis
como se houvesse
e a poesia funda
como se explicar coubesse

FURO

o tempo fura
o meu cabelo
e alcança o sonho
o tempo é maior
que o meu sonho
por isso não consegue
parti-lo ao meio
o sonho perdido
no meio do tempo
pensa realizado
por estar no centro
o tempo quer ter sonho
mas não tem tempo

GRAMA

a grama expele verde
o que consegue
sendo inerte
sob a pele o verme
sugando a areia a carne
sob a pele imberbe
barba de terra sem navalha
os pés que se assemelha
a um afago
não passa de escravos
de caminhos desmedidos

SOBRE CORTES

certo como a morte
a poesia vem
o que difere é o corte
na poesia o sangue se esvai
sem nenhum corte
na morte é menos sangue e
mais corte
dizem que a morte
abre portas
eu sei que da poesia
não há volta

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BELEZA

turvo as páginas do livro
derramando derrotas
florestas erguidas
feito álcool
feito fitas
enroladas no precipício
era fácil a leitura
a visão era escura
quem procura clareza
deve esquecer a beleza

PENSAR

pensar meu corpo sem osso
pescoço preso ao mastro
tremulando
pensar meu corpo sem peso
tecido insólito
sem lastro
pensar meu corpo
sem pensamento
por um momento
não penso

PASSAGEM

não sei pra onde vão
as palavras que descarto
as pessoas que descarto
quando parto
minha passagem
não tem preço
também me descartam
quando não mereço
lembrar é a melhor bagagem
esquecer é a melhor viagem

VERÃO

o sol salta
de olhos vendados
varal de sombras
secam flores
desmotivadas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

SOLILÓQUIO

falarei de amor
serei simples
o sentar-se à mesa
a toalha limpa
o prato
os talheres
o copo
e a espera pela comida
quem ninguém vai trazer

SONO DE FLORES

dormir como flores
não nos tornará primavera
no máximo
um sonho colorido
quem sabe perfumado
talvez uma abelha ou um beija-flor
dignifique o nosso sono
torne algum dos nossos pedaços
mel ou fruto ou bagaço

ESCOMBROS

o céu é o meu chapéu
as botas o chão
minhas roupas
algo parecido com o universo
mas não passa de um coração
desculpe o modo como piso
desculpe o modo como penso
agora passo por um mau momento
o que me invade de assombro
quando me descubro
escravo do escombro

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

ESBARRÕES

as palavras vão por um caminho
eu vou por outro
nunca tivemos um encontro marcado
de vez em quando nos esbarramos
e sendo elas mais fortes
sempre acabo machucado

MASMORRA

construí um castelo de areia
comecei pela masmorra
nela prendi meus sonhos
junto com a maré
assim sempre tenho
o castelo em pé

MEDALHÃO

coca-cola não apodrece
ódio também não
apodrece quem bebe os dois
demonstre seu ódio
a quem te odeia
demonstre seu amor
a quem te ama
pendure o coração no pescoço
mostre que ele é um osso
duro de morrer
mostre que ele pulsa
por impulso
não porque gosta de viver

domingo, 19 de dezembro de 2010

QUEDA D'ÁGUA

a sonoridade da água
caindo sobre o corte
igual a da vida
sobre a morte
a água
não estanca o sangue
a vida
não estanca a morte

CHEIROS

cheirar dezembro por dentro
um ótimo exercício para o olfato
a primavera engolida
deixa pedaços nos dentes do sol
durante a noite
recolho os fragmentos
pra fazer poemas

PEDRA

quando olhei a pedra
não aconteceu nada
quando a poesia olhou
enxergou uma queda d’água
parecia de pedra aquela queda
parecia poesia a pedra
que cegou a minha alma

VISÃO PERIFÉRICA

minha visão periférica
mostra flores
de cores imprecisas
igual às cores da vida
minha visão periférica
mostra algo
parecido com a alegria
a alegria de frente
jamais consegui enxergar
ou ela já passou
ou nunca vai me encontrar

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SUBLINGUAL

a minha rotina de lágrimas
tomou um novo rumo
escondi o veneno sob a língua
na esperança de matar as palavras
esqueci as escritas
esqueci as pensadas
e estas que pensei
e escrevo agora
formam a onda sonora
onde a minha lágrima desamparada
é a última que faltava
pra inundar o mundo

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ESFERAS

a epiderme da rua
envolve o destino
de tal forma
que a bolha de sabão
desfolha-se
rompe o casulo
em direção à claridade
era de pele o frio
era de esfera o vazio
quem me dera
deu porque me perdi

O SOL SE CURVA

o sol que se curva
mostrando os ossos
agora se deita e morre
a felicidade é a angústia na sombra

FELICIDADE

se eu não fosse tão triste
seria mais frágil
quando a felicidade me atingiu
fui despedaçado
voltei os passos
pelo mesmo caminho
recolhendo cacos
e ainda não encontrei
nenhum dos meus pedaços

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DECÚBITO CENTRAL

coloco-me numa posição incômoda
propositadamente
almofadas
paredes acolchoadas
serviria para o sono eterno
se não apodrecêssemos
decúbito central
mão da palavra na altura do peito
flores unindo um dente a outro
por este ângulo
fica difícil enxergar o meu sorriso

HOJE

pensaram o tempo morto
e ele nem havia nascido
neste momento do parto
crescimento e morte
nem cabe um pensamento
o tempo não precisa de espaço
basta um passo
e permanece imóvel

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ÁRVORE NO MEIO DO RIO

uma árvore é inocente
porque não tem coragem
de mover-se
tirar a sombra do lugar
uma árvore é inocente
porque não vende frutos
nem flores em ramalhetes
uma árvore é inocente
porque prende o nosso olhar
quando nasce no meio do rio
não sente frio
nem falta de formigas
abre o rio ao meio
e ele a abraça do outro lado
já cicatrizado

A BANDEIRA DO POETA

existe uma lua
para cada poeta
na qual ele
finca a sua bandeira
a bandeira do poeta
na lua tremula
e quando tem cores
não são adequadas
a bandeira do poeta
não precisa de hino
ou de guerras
o poeta ocupa o território
entre as cabeças

A ENTRADA DA NOIVA NA IGREJA

é de nuvem o véu
estrelas na grinalda
sapatos de diamantes
obrigam a curvatura da escadaria
o coração entre as flores
nas mãos trêmulas
portas são demolidas
pela felicidade
o corredor de perfumes coloridos
olhos sustentados por sorrisos
a música faz tudo flutuar
e pensamentos e palavras e gestos
formam uma doce névoa
a noiva desliza em direção ao altar
no final o noivo
talvez plane com asas prateadas
parece imóvel
parece longe
pintado de um amarelo artificial
e quando se aproxima
mostra os braços abertos
juntos às travas de madeira
as sete chagas se abrem
para recebê-la

COISAS DESAGRADÁVEIS

ultimamente
tenho feito muitas coisas
desagradáveis
escrever por exemplo
levaram os meus pulsos
deixaram o sangue
levaram o meu corpo
deixaram a morte
não posso me eximir
do espólio
se o silêncio foi degolado
o sangue vai irrigar
todos os corpos imaginários
a poesia é a causa
de todos os sangues
é fácil de carregar
não cria músculos
a poesia tem o mesmo peso
do silêncio

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DICIONÁRIOS

quem ama não se importa
com o significado da palavra amor
quem ama perde dicionários
acredita que tudo tem significado
a palavra não representa o que apresenta
o sentimento significa todo o momento
quem ama enxerga o outro sem palavras
a palavra não enxerga nada

CAIXINHA

a caixinha de guardar poemas
mantenho sempre aberta
nunca se sabe o que vem nos visitar
uma lua fraturada
um sangue deglutido
um amor lancinante
um pronome possessivo
a caixinha de guardar poemas
agito com a espera
sobe um cheiro
de silêncio quase morto
de pensamento antes da cabeça

EQUILÍBRIO

cultivo o equilíbrio necessário
para sobreviver
corda bamba não consigo
cabo de aço entre prédios
impossível
outros pulos malabares
nem pensar
dou três passos
paro respiro me reequilibro
e a cabeça não acompanha
esse movimento
fica lá atrás
pensando em que poesia
eu estaria sentindo
naquele momento

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SOLTO

a árvore segura a rua
a rua segura o mundo
eu gostaria de falar
do de dentro
das coisas minhas que desconheço
das coisas tuas
eu não me alcanço
eu não te alcanço
a árvore segura a rua
a rua segura o mundo
não sei quem me segura

BARULHOS

um surdo desenha sons
conforme o movimento
o barulho da vida
é escuro
o barulho da morte
é claro
o barulho da poesia
é raro

CREPÚSCULO

para a poeta Eunice Arruda


o sol se põe
e os girassóis suicidas
bebem o veneno da noite

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

TRANSFUSÕES

o amor não tem sangue
meu coração não tem amor
as bombas latejam sem gritos
os líquidos curvos navegam
meu coração bombeia sangue
o amor me bombeia
os sentimentos gotejam meus gritos
os sonhos esquisitos criam carne
meu sangue não tem amor
o amor me transfunde para o mundo
moribundo me rejeita

JARDINEIRO

construo flores
com palavras
uso o silêncio
como estrume

VERTIGEM

belo ou ralo
comum ou raro
um poema sem vertigem
é um poema sem pele
e sem pele
só ossos e nervos
e músculos expostos
difícil também
não causar vertigem
e mesmo sem corpo
só alma
ou quase isso
quase nada
ainda resta a vertigem
e aos que planam
aos que penam
aos que não enxergam
os que não tem noção da vertigem
ainda assim fazem parte
da mesma queda

GRITO

do poema
o que não é dito
é o grito
o que se mostra
é o silêncio
atravessando a página
o olho o ouvido

no poema
do lado de fora
do infinito
mora o grito

JUNTO AO MURO

o amor caído junto ao muro
lembra uma árvore
sem raízes
sem tronco
sem copa
uma árvore sem corpo
lembra o amor caído
junto ao muro

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ESCONDERIJOS

não existem lugares escondidos
para a poesia
um verme
que se arrasta no escuro
deixa um rastro de estrelas
a dor mais bela
escurece o destino
a morte nos preenche
com o silêncio existente
entre uma palavra e outra

GOSMA

por ser poeta
vomito pedra
lamento decepcioná-lo
se o vômito não é rosado
também é de pedra
o que escarro
o que eu cuspo
e o que falo
e que a latrina
quase branca
quase folha
nunca se encolha

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

CRÂNIO

a nave navega sem a vela
corta o céu do intestino
em busca dessa luz
amalgamada
nem sempre onde
os dentes se mostram
mora a alegria
sorriso não prescinde de carne

PARALAXE

aos que gemem
sem o peso da sombra
aos que pesam
sem repouso
aos que me bifurcam
e me encontram
aos que me acendem
sem desculpas
ofereço o meu desamparo
diante da folha que curvo
diante do vulto intruso
poema que me despedaça

VAMOS SER POLITICOS

se você não tivesse dito
o que disse
se tivesse dito outra coisa
se você não tivesse feito
o que fez
se tivesse feito outra coisa
se você não tivesse
se envolvido
se você tivesse ficado calado
se você falasse
o que deveria ser dito
se tivesse ouvido
o que se falou
se tivesse esquecido
o que ouviu
se tivesse lembrado
de esquecer
se tivesse esquecido
de lembrar
se tivesse movido
o que estava imóvel
se tivesse deixado
tudo no lugar
se tivesse envolvido
naquilo
se não soubesse
daquilo
se você estivesse atento
se não fosse tão distraído
acredite
nada mudaria nada
tudo o que aconteceu
inevitavelmente
aconteceria
a situação ou a oposição
pesam em pratos diferentes
da mesma balança
nós somos a mesa
na qual ela repousa

ESCULTURAS

a melhor escultura do trigo
é o pão
a melhor escultura da água
é a seca
a melhor escultura da luz
é a escuridão
a melhor escultura do amor
a ausência
a melhor escultura da dor
a presença
a melhor escultura da luz
é o dia
a melhor escultura do silêncio
a poesia

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

VIA CRUCIS

braços abertos
procuro uma cruz que me caiba
um cravo que me atravesse
algo que fixe a minha alma
no seu lugar devido
de onde nunca deveria ter saído
algum lugar entre
o esquecer de viver
e o nunca ter nascido

PARAÍSO PROVISÓRIO

o coração misturado ao estômago
gases nobres
a raiz da unha
regada pelo desejo
neste momento
a felicidade encurrala alguém
aprisiona num modo
e empalha migalhas
o escolhido pensando ser eterno
faz do inferno
um paraíso provisório

LAGO

carreguei o lago pra casa
as arestas derramaram-se pelo caminho
redondo não cabe na sala
profundo não cabe no dia
quase não cabia na poesia
quando namora
deixa o que sente
do lado de fora

CORES BRUTAS

acima do tempo o amor
e as demais cores brutas
que nunca conheci
e que procuram telas inúteis
pois mesmo sem pensá-las
posso senti-las
sem tocá-las

sábado, 4 de dezembro de 2010

ACHADO

parecia perdido
o poema
agora tenho certeza

JUNTANDO ÁGUA

não é só juntando palavras
que se forma a água
nem alterando
o curso do destino
basta espremer o tempo
para verter o líquido feminino

não é só juntando palavras
que se forma um poema
nem mencionando o tempo
ou o destino
basta espremer a página
para verter o líquido infinito

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

REFERÊNCIAS

o chão usa os pés como referência
e os espasmos
para espantar os aviões

minha referência
são as coisas que não sinto
dissecadas e empalhadas pelo não

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

CASULO

nem tenho essas cores todas
e as borboletas insistem
na minha existência
elas tecem meu corpo de sonhos
projetam destinos
faz do meu caule
a ligação com o outro
nem tenho essas dores todas
e o tempo me guarda
nesse casulo de gritos

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DIGITAIS DO TEMPO

os cabelos da minha avó
derramam-se sobre minha vontade
pirulito de açúcar mascado
cores de fugas folhagens
oitizeiro desenhado nas digitais
do tempo me perdi
de ontem não alcancei
a saudade embaça
as coisas que desejo
pegar com o tempo
esse jeito do tempo
olhar pra trás
sem precisar de olhos
sem que as coisas estejam
nos lugares devidos