segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

POEMA DE G.VIEIRA

BEM SIMPLES (E URGENTE)


o amor
precisa de pessoas
para amar

MORTE SÚBITA

melhor interromper a vida
a ficar com algo atravessado na garganta
uma lágrima um sonho uma gargalhada
não engula nada
melhor interromper a vida
um ambiente refrigerado
é tão falso quanto
o sol que nos cobre
melhor interromper a vida
quem te abraça comovida
abraça porque esconde
algo que duvida
então é melhor interromper a vida
e trocar por outra

ALTURA

não sei em
qual altura
devo cortar
a perna
sinto que
não há
sangue
suficiente
para o
recipiente
sinto que
há mais
veia do
que sangue
sinto que
a paralisia
talvez afete
o movimento
da mão
que produzirá
o corte

A MORADA DA PALAVRA

a morada da palavra é a poesia
afora isso
é chuva lavando os
pés do sol
que lambe a neve
a morada do poeta é o poema
afora isso
é trocar a pele
por problema
a morada da poesia é o poeta
afora isso
há fora
além do poeta não há hora
nem lugar
para se abrigar

PARA EXORCIZAR O MEU DESEJO

para exorcizar o meu desejo
copulo tudo que vejo
despetalar a flor
ou arrancar meus dedos
dá no mesmo

LÁGRIMA

a lágrima escorre pelo rosto
e cai no ouvido
ouço a correnteza da lágrima
a lágrima não é só água
pequena superfície da mágoa
onde quem sabe nadar
não usa o corpo

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

MONTANHA COM CHUVA

as pedras irregulares da montanha
perturbam as nuvens
elas tropeçam chuvas
sobre a montanha que se banha

DIAMANTE

as árvores se comunicam pelo teto
os homens pelo alfabeto
quando me calo estou morto
quando falo provoco abortos
a alma da árvore é sua folha
na qual escrevo sem escolha
o diamante do silêncio a sua agonia
lapido a página até surgir poesia

LEITURA RASA

li nos moluscos
que o coração daqui parece pedra
a água abraçada ao corpo
não faz o esforço necessário
e ele passa levando o coração
batendo contra as pedras
a pedra que carrega
li nos moluscos
nem tudo que se lê
é o que se tem
já tive o mar
sem nenhuma palavra
embora para se ter o mar
não seja necessária a leitura
nem tudo que se tem
é o que se vê

TALVEZ UM POETA

talvez um poeta escrevendo um poema
emagreça a linha do sistema
talvez
se ele não usar caneta
talvez
se ele pensar que pensa
talvez
se ele sentir que pensa
talvez um poeta escrevendo um poema
me inclua nessa fabulosa loucura
de silêncio e hipocrisia
chamada poesia

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

EXISTÊNCIA

perdura no pescoço
o osso da existência
magro cor de cadeira
o mundo sentado
objeto obsoleto
esqueleto incompleto
não suporta a essência
do fim

QUALQUER COISA MAIS QUENTE

qualquer coisa é mais quente que o meu ódio
meu ódio não depende do meu sangue
por não ser líquido não precisa de encanamento
por não ser sólido não precisa de calçamento
por não ser ar não precisa respirar
por não ser gás não precisa flutuar
por não ser não precisa
meu ódio quando se acocora
empurra seus testículos sobre o meu corpo
contra a terra

AS COISAS GUARDADAS

então perguntaram
de onde tirei essas coisas
então olhei para as coisas mencionadas
e elas devolveram o olhar
as coisas estavam guardadas no espelho
e não tinha como eu tirar

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

INFLAMADO

pouco recebi quando catei palavras
revirei os sacos de nuvens
e plásticos que curaram os abismos
nem por isso deixei de ser pleno
as serpentes aprenderam o idioma
quando cantaram o sol em suas bíblias
pouco percebi quando cortei palavras
sequei a água do mundo
e as montanhas chegaram atrasadas
nem por isso me deixei sempre
acompanho o meu corpo em chamas
antes que a poesia cicatrize

EFÊMERO

esse foi o melhor arranjo
que consegui
não importa
se tudo for efêmero
e a palavra não seja
a esperada
melhor um passo
que ficar parado
melhor um soco
que um grito
a poesia é apenas
o silêncio despido

BOLAS DE GUDE

quando eu era adolescente
me apaixonava todo dia
não sabia por que a poesia
me irritava tanto
nem porque a lua me olhava
as bolas de gude eram os meus olhos
e todas as meninas do mundo
as suas cores
descobri que os olhos das bolas de gude
não enxergam como a lua enxerga
que todas as meninas do mundo
moram na mesma casa
que a paixão era a mesma todos os dias
e que a poesia continua poesia

DORMITÓRIO

o amor e o ódio
dormem na mesma cama
um tem sonhos
outro pesadelos
nunca dormem abraçados
um só desperta
quando o outro dorme

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MIRAGEM

mesmo no deserto
lembrei de ti
fiquei repleto
de água do mar
mesmo na miragem
mergulhei no amor
plausível
abraçados secamos
futuro fóssil
do impossível

NENHUM TOQUE

nada me toca
o invólucro do meu corpo
tem a forma do amor
o amor me trouxe aqui
para eu nada sentir
além do invólucro
que envolve o
meu corpo
nada me tocará

INVOCAÇÃO DO RECIFE

rua da união
o busto de Manuel Bandeira
tosse tosse tosse
escarra sobre o
cadáver do Recife
na casa onde ele morou
ficou o espaço
onde as estrelas
não são aceitas
fosse um cartório
não reconheceria a sua firma
sua tristeza cria pernas
carrega o seu busto
para se afogar
no Capibaribe

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ISOLAMENTO

melhor morrer sozinho
é estranha a beleza da morte
deixar como herança a tristeza
acumular riqueza
melhor morrer sozinho
um carinho na pétala
não torna a flor eterna

QUERER DO MAR

a maré
organiza as ondas
e os outros artefatos
profundos
rasos
salgado
alguns acreditam
que o mar existe
porque é azul
alguns só querem do mar
espuma
do mar
eu não quero
que me beba

VERSÃO OFICIAL

na verdade
a verdade é feita
de muitas versões
a poesia é a verdade
na sua pior versão
acreditem ou não

LEIA ISSO POR ENQUANTO

os benefícios do poema que interrompe a página
o olhar parado nas letras e a cabeça viajando
sem precisar do corpo
ou o corpo viajando em outro corpo
ou o olhar desnecessário
ou a página precisando que o corpo
segure esse olhar por enquanto

PERSONAGEM

foi passando a mão sob mesas suspeitas
que descobri o bolor
descobri o horror quando eu era mesa
duro sabor de quatro pernas
o peso nas costas
o cheirar joelhos
descobri a cor
quando eu era flor
decorei as cenas
virei personagem de poema

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

AS COISAS FÁCEIS

escrever o nome
na areia é fácil
quero ver escrever na estrela
aí a coisa pega
quero ver sorrir
sem causar estrago
chorar sem causar afago
chover sem a terra ceder
sentir e esconder
pular sem transtornar
quero ver dar a volta
sem usar a curva
falar com a flor
e ela permanecer muda
quero ver partir
sem sentir-se numa emboscada
a infelicidade não serve pra tudo
a felicidade não serve pra nada

FACE DO CANAL

na face do canal
uma lágrima perdida
ninguém enxerga a prega
do navio dobrando
a solidão do canal

FLOR

a flor não teve escolha
ficou neste poema
dissecará se eu levar pra casa
não secará se eu fechar a página

HORA DE REGAR

nunca sei a hora certa
de regar a planta
a planta não se espanta
curva a cabeça
para a terra
e se enterra

nunca sei a hora certa
de nada
isso não me espanta
evitar que interrompam
a terra que me aterra
é a minha guerra

O CARDÁPIO DO TOLO

o cardápio do tolo é a crença
crê na noite no dia
crê até na poesia
acredita que o abismo é fácil
e que as paredes do sonho
não escondem a vida real
no cardápio do tolo
todo prato é principal

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

UMA POESIA COM SENTIDO

disseram que a minha poesia
tinha um certo sentido
encolhi mais que a cadeira
dobrei a agonia em quatro pedaços
e escondi sob os sapatos
tentei lembrar
de alguns dos meus poemas
o máximo que consegui
lembrar da minha esperança morta
dos ferimentos adquiridos na infância
e ainda abertos
tentei levar a conversa
para uma janela menos devassada
descobri na multidão
entre um transeunte e outro
alguns dos meus poemas
uns parecendo gente outros objetos
mas não consegui descobrir neles
nenhum sentido

URUBLUE

observo tudo de cima do mundo
o lago a carniça
pessoas que pensam estar vivas
e insistem
pessoas que sabem estar mortas
e persistem
em olhar para o alto
e não me enxergar
minhas asas azuis cobrem todo o céu
basta um leve bater
e anoiteço tudo
azuleço claro
do outro lado do mundo

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POESIA DE GALO DE SOUZA

ARRANHÃO LUNAR

quando a nuvem arranhou a lua
eu estava longe mas ouvi o barulho
rasgar de página de água sem luz própria
então me aproximei
e descobri que a nuvem não existia
o que arranhou a lua
foi a poeira da poesia

HISTÓRIA

no século XII D.C. (depois do coito)
um famoso artista plástico e cientista
ao fazer experiências com vultos
cabeças e outros órgãos
até agora desconhecidos
montou um estranho equipamento
parecia um homem
só que flutuava
parecia uma mulher
só que perdoava
e o estranho objeto
pronunciava palavras
que formavam outras palavras
que geravam outras palavras
passado muito tempo
sem que ele descobrisse
para que aquilo serviria
resolveu nomeá-lo de
máquina de fazer poesia

CÓPIA MAL FEITA

este poema não confere com o original
onde havia sensibilidade ficou um buraco
a tão falada palavra exata
ficou ininteligível
o poeta responsável foi visto
dobrando a esquina do esquecimento
com os bolsos cheios de carimbos
este poema é uma cópia mal feita
sugiro a extinção da sua leitura

INSTRUMENTO DE CORDA

trago boas notícias
o pai do grito
construiu o instrumento
nas ondas sonoras
navega a minha dor
cordas dedilhadas
minhas tripas disfarçadas
de luz sem calor

DEMORA

as coisas de dentro demoram
como demoram as de fora
todas as coisas demoram
demoram porque te esperam
esperam porque perduram
perduram porque te esquecem
do dentro somos o fora
do fora somos o dentro
sabemos que não somos tudo
muito menos o centro
das coisas que muito demoram
as coisas de fora e as de dentro

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ESVAZIANDO BEXIGAS

esvazio a bexiga
sobre as urtigas
o resto de orvalho nas folhas
vão de encontro
ao canto do muro
o ar da bexiga
e a sua borracha flácida
misturados ao canto do muro
formam uma estranha canção
talvez a urtiga provoque
a pele do ar
e o arrepio seja a música
talvez seja apenas um sopro
e eu tenha exagerado no ritmo

A NUDEZ DAS FORMIGAS

as formigas que caminhavam
sobre o corpo da minha mãe
estavam nuas
o vestido surrado da minha mãe
com um rasgo na altura do joelho
pedia flores
as formigas nunca precisaram
de flores que escondessem
sua nudez ou algum vestido
que talvez um dia usassem
nunca vi minha mãe
usando um vestido surrado
mas agora não havia tempo
para essas formalidades
eu nunca imaginei
que as formigas caminhassem nuas
sempre as imaginei
usando vestidos na altura do joelho

O POETA RESPONDEU COM UM SORRISO

o poeta respondeu com um sorriso
e todos voltaram os seus olhares
para o ponto onde ele mirava
e descobriram estupefatos
o ponto final

ALEIVOSIA

deparei-me com aleivosia
e não poderia naquele momento
recorrer a um dicionário
eu estava cercado daquelas pessoas
que me julgam intelectual
a palavra surgiu em meio
a uma discussão a respeito de poesia
e a poesia tem essa peculiaridade
de se apresentar e levar
a quem a ela se dirige
a uma situação onde
determinada palavra surge
e o interlocutor principal
não sabe o que fazer com ela
principalmente quando
não sabe o seu significado
mas decidi ser fiel
à confiança que em mim depositavam
e conclui que a poesia
por ser um ser aéreo
desprovido de raízes e galhos
não pode jamais ficar entre
aleivosias
idiossincrasias e
palimpsestos
a conversa tomou outro rumo
e eu tomei o meu

A CASA DE OSSOS

por pouco cogitei
a casa de ossos
o termômetro a ardósia
a carne enrolada
daquele modo
que não se diz
com palavras
mas sente-se o fluxo
o nervo imposto
na clareira desconhecida
o modo pelo qual
tudo se alinhava
a casa de ossos
e os seus gritos
esmagando os vermes
de vidro

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

RELÓGIO

meu relógio aqui
não é igual
quando estou no Nepal
caminho do mesmo modo
evitando cair no mesmo lugar
procuro abismos inéditos
um sol mais sadio
mas o relógio não acompanha
o meu raciocínio
meu compromisso com o tempo
requer mais que um pulso
cortado no sentido horário
requer que a faca comporte-se
e corte o desnecessário

CANAL

a maré baixa
mostra o canal
como realmente
ele é

minha maré
está baixa
melhor procurar
outro lugar
pra mergulhar

CÉU TURCO

não sei como se pronuncia
céu da boca na Turquia
ou em Madagascar ou
em qualquer outro lugar
não sei como o
céu da minha boca se pronuncia
falo flores e sorrisos
um idioma incompreensível
o céu da minha boca
nunca fica estrelado
pra sempre fica nublado
tudo o que eu tenho a dizer
é o que consigo escrever

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

PRATO PRINCIPAL

o amor repousado na mesa
aberto dividido em pedaços
aquela massa colorida
disforme mal revolvida
agarra-se sem laço
e ninguém tem certeza
quem segura e quem
está sendo segurado
e qual parte do amor
coube a cada um na partilha
e a porção descobre a boca
que a mastiga mastiga
e torna-se saliva e língua
e o que se engole e fala
fica no ar à mingua

A VIDA E SEUS SUSTOS

a vida e seus sustos
a morte inesperada
é uma redundância
a poesia inesperada
nem tanto
a poesia sem morte
sem sustos

a morte e seus surtos
nos gestos nos olhos
a vida que aniquila
a esperada dose de poesia
não cura nem alivia

ALGO PARECIDO COM O TEMPO

o tempo me abraça
aproveito e mordo as
as suas axilas depiladas
ou o tempo
não tem pelos
e as axilas mordidas
pertencem a algo
que me abraçou
fingindo ser o tempo

PÁTIO DO COLÉGIO

o homem de terno e descalço
caminha no pátio do colégio
sob o braço antigos papéis
e uma solidão paralítica
os gritos das crianças
espalham os papéis
e os penduram nas árvores
tornando as lembranças frutas
a solidão levanta-se mas não anda
prefere acomodar-se ao homem
sua cadeira de rodas

GELO

a ausência intumesceu a água
e ela pensando ser gelo
esfriou ao redor do meu corpo
enquanto eu queimava
folhas seguiram o seu caminho
mãos dadas com as cinzas
até tornarem-se abruptas
sei o que perdi quando calei
sei como nasci quando me dei
de ser peixe e tentar
caminhar como um pássaro

ESCUROS

a luz que a lua mija
alimenta os holofotes
disseram que o escuro acabou
só porque abriram os olhos
pensavam ser calçadas
o piso que apoiava os passos
eram abismos entre uma
claridade e outra

QUANDO O CÉU ERA PERTO

quando o céu era perto
eu caminhei em seu deserto
não imaginava água
que me envolvesse
não imaginava sol
que me aquecesse
quando o céu era perto
eu era mais vivo por certo
havia o meu corpo decerto
que alguém bebesse
que alguém esquecesse

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

QUASE DE NOITE

o amor é quase de noite
véu laranja se escondendo no céu
calor que foge
estrelas se abrindo
o amor é quase morte
quando parte deixa fundo
o canto do olho da noite

FIM DO EQUIPAMENTO

com o tempo os parafusos afrouxam
e as chaves de fenda se perdem
em gavetas comidas por cupins
e toda essa engrenagem se corrói
mesmo que a embriaguem de óleo
e o adeus fica no ar sem mãos
e a fuga fica na intenção sem pernas
e o coração desaba
em meio a outros objetos

NOME BOM

eu tinha um nome bom
quando me chamavam
eu nem ouvia
eu pensava que cantarolavam
e eu dançava
e os que me chamam
e os que me fazem dançar
continuam cantando
e eu continuo a dançar

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

SALA

as linhas formadas pela luz
escondem o mundo lá fora
o homem quer ser o princípio
mas necessita de água
e a sua fala não cala
onde tudo recomeça
sua sede seu suor
marcam as cadeiras
e os seus passos
coincidem com o pensamento
mesmo que fabrique outro peito
não conseguirá refazer
o coração que restou aos pedaços

CLARO ESCURO

não entendi
como a palavra
largou-se do tamanho
e se meteu aqui
tive medo
que o escuro
a engolisse
e me acendi

PERDA

olho mina água
boca mina dente
a vida é plástico
alguns discordam dizem
a vida é carne
sangue e nervos
engrenagem que apodrece
olho mira outro olho
boca aproxima outra boca
a vida é plástico
eu não vou apodrecer

AS FLORES QUE DESABAM DOS MUROS

senti um longo poema
a respeito das flores
que desabam dos muros
apesar de todas as cores
eu estava escuro
as flores se recolheram
e escreveram um poema
cujo tema era o poeta

SE DE REPENTE

e se repente você nascer
como vai ver?
e se de repente você voar
como vai pousar?
e se de repente você sofrer
como vai chorar?
e se de repente você morrer
como vai ser?

CORREDORES

as portas se abriram
entrei sem medo
boca do corredor desdentada
paredes taciturnas
caminho que se desmancha
teto empurrando mágoas
o fim que não chega
poderia um cansaço
agora não
poderia uma desistência
agora não
o meu fim sabe
que não vou chegar
a tempo

DESEMBARQUE EM MARTE

quem desembarca em marte
sabe que a poesia não está em toda parte
e quem se olha no espelho
quem tem medo
quem cria musgos na pele
quem se expele
também sabe
por esses caminhos não cabe
poesia nem sabe
com quem se parece
nem se atreve a saber
poesia quer caber
em qualquer parte
sem caber

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SONHANDO COM PEDRAS

a pedra balançando
por dentro do sonho
tirando lascas
os pedaços
vão formando cascas
até fazer uma cabeça

CURRA

o tempo
mais osso que carne
cobre-me
prefere o difícil
abre um novo orifício
escuro que me derreto
vai criando por dentro
meu novo esqueleto

SALTO

meu fêmur
trabalha no vermelho
não suportou o meu artelho
por que um passo
após o outro
se posso usar num pulo
os dois pés
sem muito esforço

MELHOR VENENO

os melhores venenos
estão nas palavras
por isso nunca as utilizo
e os que me lêem sabem
que uso algo parecido
com o silêncio esculpido

RETORNO

se eu comer os teus passos
arrotarei o caminho de casa

DANÇA

o indicador e o médio
da mão direita
sobre a mão esquerda aberta
dançando qual bailarina
não sei que música ensaiava
sei que não se cansava nem suava
e os gestos no ar formavam
um estranho desenho
talvez um palco
repleto de olhos
talvez uma criança
brincando de existir
talvez algum humano
brincando de fingir

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

HORIZONTAL

as moscas cobrem o meu corpo
com salto alto bico fino
inúteis perfurações num cadáver
eu amassava formigas sem vê-las
amassava estrelas sem tê-las
agora não mais sou visto
ou tocado
deste lado as moscas se apresentam
e não me sinto incomodado

QUARTA-FEIRA

se eu pudesse ser um mês seria setembro
e as palavras que me provocam dores
explodiriam em flores
mas sou apenas uma quarta-feira
o dia enjaulado no meio da semana
e as feras que nele perambulam
usam os meus dentes para morder
usam minha pele para se esconder
se eu pudesse ser um rumo seria o norte
e interromperia esse hiato
entre nascimento e morte
se eu pudesse ser um tempo seria sempre

DERIVA

bebo o mar e não tremo
a vida é menor que o mar
ela acaba na areia
no fundo
no outro lado do mundo
a vida é rasa
ninguém mergulha na vida
e se afunda
nem se afoga
nem sal a vida tem
quem bebe a vida se encalha

SOMBREADO

o cheiro do sol
sobre a sombra
exala escuro
o horizonte da luz
não tem sentido
o que eu sinto
esbarra no muro
divide o meu corpo
em compêndios

MAR SEM SAL

quero o mar do amor sem sal
meu afogamento insosso anunciado
marola da lágrima salgando a entranha
quero do amor o mal
meu corpo submerso sob o azul
praia movediça engolindo a vida

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

PALAVRA EM NOVELO

ver a palavra sangue
é diferente de ver o sangue
vamos esquecer essa palavra
a palavra libélula
é mais bonita que a libélula
vamos guardar essa palavra
existem palavras
que são como novelos
por exemplo
a palavra silêncio

PARADA PARALELA

minhas dores
são as minhas dores
estaciono paralelo à poesia
mas não tenho acesso
tenho um acesso
de flores e espasmos
poesia não remedia
nem tem simpatia
minha dor parece outras
parece pouca
dor maior é não alcançar a poesia

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PARQUE

as crianças brincam de ser sérias
desenhando sombras
contornam os sonhos com os passos
e fingem gestos coloridos
erguem telhados de vidro
formam nuvens com as pedras
as crianças caem sem noção de desabar
tropeçam e os pés envelhecem
atravessam portas sem deixar marcas
porque são puras voam
e os outros enxergam pássaros

OLHO

não essa palavra
não esta
nesse
neste espaço
entre teu olho
e a palavra
a poesia

EPITÁFIO DE BERÇARIO

eu pensava
que ninguém morresse
e a luz ficasse
em quem permanecesse
eu pensava
que o escuro era doce
e a ignorância verde
eu pensava
que tudo se resolveria
quando o princípio chegasse
agora não penso
atolado no amargo escuro
por mais que a luz me beba
não consigo ser engolido
por mais que me perca
nunca sou esquecido

CANTO DA PRIMAVERA

a teimosia da primavera
prende flores no canto da boca
as estações vazias são mais simples
provocam pequenos incêndios suspensos
incinerando a tristeza
e eu que nunca chego
a lugar algum ou parto
na medida certa
espero ansioso chegar
com a passagem

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A VIDA PARADA

a vida parada
criando lodo e larva
antes fosse um mictório
um mar congelado
um vomitório
antes fosse água parada
usufruto da entranha
antes fosse para casa
antes fosse ilusório
a vida parada
espera que eu passe
antes eu fosse

MANÉ FERREIRA

meu avô palitava os dentes com um esmeril
usava iscas de chuva para pescar o passado
quando entupido de saudades
cuspia nas malas e as esquecia
em algum lugar entre a surpresa e o ócio
mordia estrelas até arrotar luz própria
meu avô descia as escadas do absurdo
comigo nos braços e o meu peso
transportava os seus ossos para este asfalto

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

VERTIGEM E SOMBRA

o sorriso irregular do sol
preenche todos os meus poros
com seu cuspe
a chuva fugiu
carregando as nuvens nas costas
preciso voltar ao normal
vertigem e sombra
discutem o meu destino
vou povoar idéias
até ficar intransitável
instalar esgotos no inefável
vou fugir por eles
desaguar sem conforto
no desaguado mundo

TEMPO

o tempo cai do rosto
escorre pelo corpo
e se espalha no chão
viscoso quase imóvel
dificulta os movimentos
parece areia movediça
é apenas um abismo
sem sentimentos

PORTADORES

o que portamos
não importa
para a felicidade
mantenho as mãos vazias
até ela chegar

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

DESESPERE

a vida demora
a dizer sim
quando diz
você nem sente
porque está sem freios
transparente
preso a um não
que não tem como voltar

MANTENHA O AMOR NA EMBALAGEM

parecia de plástico
era só o que o envolvia
quando aberto evaporou como o dia
parecia uma flor somente cor
cor da coisa que sentia
parecia que não deveria estar
onde aparecia
parecia só estar
quando alguém queria
parecia que não desapareceria
desapareceu sem aparecer como devia

PAISAGEM RELATIVA

cuido do meu olhar
do mesmo modo que
cuido da paisagem a ser vista
mantendo as árvores suspensas
o céu sem retoques
e as pessoas nos lugares
impossíveis de serem
alcançados pela visão

PAREDES

os fragmentos espalhados na cabeça
desembocam em palavras
gostaria que fossem águas
resolveria a tua sede
no começo parece de areia
no final são apenas paredes

ALEGRIA ALEGRIA

sou invadido
por uma súbita felicidade
meu coração desmemoriado
desperta ao lado do
meu sangue coagulado

desculpe interromper
o seu dia com a
minha súbita alegria
muitos desconhecem
a felicidade
outros sabem que
ao nascer já inexiste
essa possibilidade

ANO VELHO

uma fenda
entre uma página e outra
calendários em chamas
as cinzas do futuro encharcam
a fralda geriátrica
do ano que vem