segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

QUASE UMA VISTA

não enxerguei o óbvio
remexeram no fundo
e a borra que se acumula
no fundo da poesia
turvou a minha vista
os dias se amparam nas horas
as horas não se acocoram
carregam o tempo nas costas
deixam no chão suas marcas
no nosso rosto nosso corpo
cresce mais quando silencia
o silêncio é o modo mais eloqüente
de se fazer poesia
entre um silêncio e outro
os ossos da palavra
formam o esqueleto
será poesia quando não enxergar o óbvio
será poesia quando não se amparar no dia

DANCE

dance
antes
que a
vida
interrompa
a música
dance
mesmo
sem
música
dance
movimente
o seu
corpo
antes
que
alguém
o faça
dance
antes
que
removam
o seu
corpo
para o
silêncio
das
palavras

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O VÁRIO

a beleza nunca
esconde o necessário
a transparência do ovário
não ajuda o envoltório
as flores que enfeitam
o mictório
medem desculpas
ninguém tem culpa
da atmosfera do armário
as mãos trafegam
em curvas isoladas
os sons que se afagam
não sabem das crianças
disfarçadas de anáguas

ACÓLITO

do mesmo modo
após a ceia
ele tomou o
meu corpo
e o repartiu
entre os quatro
cantos do mundo
dizendo
serás puro
enquanto não escreves

LEMBRANÇAS

esquecer
é uma das atribuições
dos mortos
não
não esquecerei
as coisas do bem
ou do mal
pendurarei pra sempre
em minha pele
por dentro

SERES IMAGINÁRIOS

não deixe
que os seres imaginários
tomem conta de tudo
a vida espera
na porta de entrada
para encontrar a chave
basta abrir os olhos

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

PENSANDO NA JANELA

quem pensa ter janelas
pensa saber o mundo
as coisas que não se pensam
penduradas na paisagem
parecem fazer parte da vida
fazem parte da outra parte
onde pensar fica mudo
onde ficar já é tarde

CHEIRO

às vezes o sonho
regurgita o sonhador
assim como estou
derramado
entre o vômito da memória
e o fragmento de uma história
onde o cheiro
nunca vai fazer parte

BOSQUE SEM FLORES

os passos do bosque
sob o asfalto
torna firme um sol
escondido entre as folhas
de aço desfolhado
dos automóveis
parecia uma lágrima
era gasolina
parecia um carinho
era a terceira marcha
o sol parecia um farol
com o outro queimado
porém era o sol de verdade
abrindo um varal
com o bosque pendurado

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SENTIMENTO DE FLORES

flagrei as flores
em pleno sentimento
pensavam ser pessoas
com algum movimento
o pulsar febril do coração
era tão artificial
quanto a respiração

INFELICIDADE

está feliz
as rosas abertas
na hora certa
e os perfumes
filtrando o vigor do estrume
tomam conta do espaço ao redor
os espinhos foram todos abortados
está feliz
e qualquer gesto
é uma dança
qualquer pensamento
é uma boa fala
enquanto isso
a vida te empala

COISAS PESADAS

as coisas pesadas
bóiam na água
assim as palavras
na poesia
as palavras pesadas
na superfície
as leves adormecidas
no fundo
a poesia
a exemplo da água
é um recurso limitado
bebemos lavamos
mergulhamos pensando não ter fundo

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

TROPEÇO

sempre andamos devagar
onde costumamos tropeçar
ando devagar na poesia
local onde tropeço todos os dias
nunca evito esse tropeço
outro dia outro começo

GERMINAL

Para G.VIEIRA

o amanhã foi ontem
o mundo acabou amanhã
sobraram os fragmentos
necessários para este poema
o poeta que era ontem
nunca será amanhã
agora um homem
conduz seus gametas
entre as frestas da sombra
sob o desastre que o assume

REMÉDIO

precisamos da cadeira pra sentar
do inimigo pra matar
do poema pra rezar
o resto é pão
ar e tédio
de vez em quando algum remédio
pra antecipar o cemitério

VETUSTO

a velhice arrasta a solidão pelos pés
folhas levam a primavera à boca
e um gosto frágil determina
alguns passos superados
é difícil falar da dor
quando não se tem mais a boca
e os gestos se perderam
entre as frutas podres
resta pendurar as idéias
uma para cada osso
e esperar a carne ser comida

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

LUAR

a lua distante
sucumbe diante
de tanta claridade
sem um rim de verdade
faz do sol
seu urinol
enxuga a sua culpa
usando a desculpa
de que é só

O CU DA MÁQUINA

o cu da máquina
pensa que é de pele
a porra que expele
o cu da máquina
parte e ainda fica
nenhum dos seus dejetos se recicla
o cu da máquina
pensa ser o centro
do mundo
pensa que por dentro
é fundo
pensa que é só pela cabeça
que se pensa
o cu da máquina
tem fome
tem nome e sobrenome
o cu da máquina é o homem

PASSARINHO NO FIO

pode faltar
eletricidade
e o canto continua
iluminando a cidade

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TALVEZ UM ANJO

a ponta da asa
despontou junto com o dia
era o sol comendo minhas hóstias
ou um anjo fraturou esse poema
era o gesso em minhas mãos
formando palavras
ou a esperança deixou essa mancha
na página

MORTE

a morte nos deixou
pela metade
e o que restou
é pouco
mesmo sendo
a outra parte

MOLDURAS

amores novos
apodrecem primeiro
amores antigos
já nascem carcomidos
retire a moldura vazia
da parede e engavete

QUER DIZER

quem nunca tateou
palavras no escuro
não sabe o que o silêncio quer dizer
quem nunca se deixou afogar
abaixo do nível do sonho
não sabe o que a vida quer dizer

ABRAÇAR SOZINHO

pouco braço para um abraço
quando se tem medo
a cama arranha quando assombra
os pés presos à teia de aranha
corpo no ar não tem brisa
desliza no último corredor
a solidão não precisa
abraçar o corpo sem dor
cai entre o asfalto e a coriza
sob a esperança esmagada sem cor

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DISSABORES

esse gosto de sangue
em minha boca
vem de fora
a tarde ensangüentada
lambeu a minha fala
apesar de não estar
nunca fui embora
o que eu dizia
retirava a parte
enrugada do dia
essa a minha ausência
nunca será sentida
essa a minha fala
nunca será ouvida

DESERTO COM SOMBRA

desse lado deserto
a solidão é mais perto
tórrido solo insensível
o sol abraçado
com os poros fechados
desse lado
havia uma lágrima
mas se perdeu
desse lado
havia uma pessoa
eu pensava ser eu

ULTIMO SUSPIRO

contrito
entreguei-me ao gozo
do amigo
acolhi seu falo
em meu reto
senti minha alma
mais perto
dos seus gritos
floresceram suspiros
nos jardins do ouvido
respondi até breve
deixou toda a dor
embrulhada em
minha febre

INTERROMPENDO COISAS

às vezes quero parar com tudo
ponho tudo sobre a mesa
na mesa não cabe tudo
tudo abrange coisas
que ainda não conheço
e as que desconheço
são as melhores coisas
melhor continuar com tudo
contudo tudo
não é tudo que se pára

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

OS QUE CAÍAM DA JANELA

das pessoas que caíam das janelas
lembro dos olhos
nuvens de paisagens inacabadas
arvores e postes circulando
gosmas e salivas e sangue represado
das pessoas que caíam das janelas
caiam outras pessoas
por aqueles buracos
parecidos com lembranças
pessoas cujas sombras
os mortos herdaram

PARA QUE ME DEIXEM

cerque-se de certos cuidados
não seja forte
não tenha passado
não queira salvar o mundo
não seja
não esteja
não queira o que os outros queiram
não minta
escolha as melhores verdades
não se encontre
não vá pra onde
não se entregue
não se esfregue de lado
não seja quieto
não fique animado
não leia o que eu digo
não morra
não me socorra

LUGAR EXATO DA DOR

onde você pensa
que vai doer
a dor surpreende
e lança outra dor
no lugar que você
nem vai saber
mas vai sentir
e você vai querer
que doa
onde você pensava
que deveria doer
e a dor não vai
se espantar
com seu espanto
e vai continuar
doendo mesmo
sem você saber por que

BREVE CHUVA

a breve chuva
desmaiou em gotas leves
de um horizonte liquido
formou-se seu cadáver
matou a sede dos esgotos
aglomerou mais luzes
tornou os braços cruzes
a breve chuva
molhou com acenos a tarde

NÃO ESCUTE

não importa
em que você acredita
a vida é mais bonita
que esse fato
pendure esse retrato
em seu pescoço
prefira o osso ao bife
siga o que acredite
não escute o que eu disse

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

DOR DE ESTRELA

a escura dor da estrela
cruzou o céu sem entendê-la
o som da luz espantou o espaço
e as estrelas escondidas
umas atrás das outras
com medo de serem medidas
com medo de serem escravas
despeja a larva escura
onde a dor pôs as escaras

COMPÊNDIOS

atolado em silêncio
procuro em compêndios
poemas possíveis
verto sangue em pedaços
converto cortes possíveis
incluo palavras
nas cicatrizes invisíveis

AMAVIO

solidão solene
sobe às costas
os pés invadem
o território do vão
joelhos limitam o colo
onde a vida abraçada
pedia socorro aos percalços
respirar seja sombrio
espera o ar que envenena
tudo o mais amavio
sobra ao poeta a pena

PRIMEIROS DIAS

os primeiros dias ardem
depois tudo passa
o cadeado da dor
contém fronteiras limitadas
cada estrangeiro sabe seu fruto
na sua língua o sabor e o nome
da chave descobre o segredo
os primeiros dias não passam
depois tudo arde

ASA DA CORAGEM

quando as palavras se levantam
nem sempre andam
na maioria das vezes alçam vôo
a sombra das asas que te cobre
parece a da palavra
mas é o que te move
despele o sonho
antes que a coragem te embarace

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CAIXA DE BRINQUEDOS

crianças crescem
o olho destila imagens
num cérebro impreciso
o tempo dorme mas não sonha
desperta osso retorcido
nervo imposto
pele de sorriso
adultos são crianças condenadas a envelhecer
adormecem na caixa de brinquedos
do tempo

CACOS

a luz estilhaçou o dia
se eu soubesse
onde começam os cacos
eu me terminaria

PEQUENA PEÇA URBANA

automóveis repletos de pessoas solitárias
apartamentos repletos de pessoas solitárias
hospitais repletos de pessoas solitárias
presídios repletos de pessoas solitárias
igrejas repletas de pessoas solitárias
cemitérios repletos de pessoas solitárias
indústrias repletas de pessoas solitárias
comércio repleto de pessoas solitárias
campos repletos de pessoas solitárias
poema repleto de pessoas solitárias

PRATO FRIO

em versos
confesso o meu silêncio
barulhos ancoram
na outra margem da imagem
a vida pendurada nas janelas
impede o caminhar dos fatos
o poema deixa a lida
descansa em automóveis de plástico
o poema deixa a vida
esfriando no prato

MAIS VASTA QUE O SONHO

não alcanço a palavra
ela é mais vasta que o sonho
não cabe na cabeça
nem na boca
nem sei onde começa
ela que se espalhe
e que se meça

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

SEM BRINCADEIRAS

tem dias que não
estou pra brincadeira
deixo a poesia de lado
e jogo na página
um poema aos pedaços
esqueço o começo
e parto para o seguinte
princípio
o fim não tem ponta
aponta a sua curvatura
contra o início
da palavra
quero a desculpa
do vazio

FINO E LONGO

curto o grosso
quero arrombar-me
o fino é falso
e faz cócegas
o grosso vai
direto ao assunto
mostra o que é
como é
o fino engana
geralmente se prolonga
o grosso é curto
passa logo
não alcança o fundo
mas nas paredes
deixa o estrago
o fino não risca
as laterais
pensa que alcança
o fundo
o fino pensa
o grosso age
mais falso ainda
é o meio termo
o que se diz fino
e nos arromba
o que se faz grosso
e não assombra
quem é grosso
não anuncia
a grossura é a alma
do negócio
quem é fino
faz muita propaganda
geralmente falsa
a propaganda verdadeira
sempre é grossa
não curto o fino
quero enganar-me

GUIA

repleto de lembranças do futuro
o poeta espera no escuro
a chegada da poesia
a poesia cega
só enxerga
o que é preciso
enxerga no poeta
um obstáculo a
ser ultrapassado
e ao tatear
constrói seu dia
a poesia cega
precisa do poeta
como guia

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

PÁTIO DA IGREJA

talvez uma ladeira íngreme
um começo de caminho do cachorro
depois do capim a escada
coqueiros espreguiçando palhas
o cheiro do verde olha pra cima
a igreja começa na árvore
talvez a árvore comece na igreja
a paz respira fundo
expira um céu absurdamente azul
eu bóio no meio do azul
esqueço que existe a lágrima

LUTO, LUTAS

jejuar tua fé
foi o prometido
ao teu pé transferir
o caminho percorrido
agora quase nada
na maré ensangüentada
a palavra na pedra
que se quebra
em sombras que se escuta
a morte não permite permutas

AUTOFAGIA

comecei pelos olhos
terminei pelas mãos
agora são sopros as palavras
talvez nem escutem
as mãos que acenam adeus
apenas ensaiam tatear saudades

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

DA LARGURA DOS PÉS

meus lábios de setembro
não pronunciam meses
o barco afundado na terra
murcha as viagens na bagagem
sem o meu consentimento
o dia alarga os meus pés
não são os sapatos
que estão frouxos
é a vida que me larga
nessa caixa sem fundo

BIFURCAÇÃO

por onde vão os mortos
dali vem a poesia
não se angustia o sol
quando desnecessário
caminhos não se bifurcam
estão vindo ao teu encontro

URGÊNCIAS

as coisas transparentes
são as mais urgentes
o tempo urge em minha porta
não me carrega nas costas
tenho a forma que corta
o que é preciso
ao tomar-me nas mãos
não deixe a pele do lado de fora

EMBALO

o que não me angustia
não é poesia
o que não é
não me abala
o não é
me embala
o que me angustia
não é poesia

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

MATERNIDADE

a puta me pariu
porque não tinha espaço
achou pouco o que faço
e ainda me deu dois braços
achou pouco a minha treva
e ainda me deu duas pernas
achou pouco as minhas feridas
e ainda me deu uma vida
a puta que me pariu
nunca me quis por perto
criou uma filial do deserto
e me largou dentro
nunca alcancei o centro
da metade que ela sabe
quando me largou perdeu a chave

VENDAVAL

as fotos do vendaval
que me levou
ficaram empalhadas
nas ruas
onde parei não foi possível
amenizar a parte que me cabe
o que não coube
as pernas do tempo
chutaram para dentro

sábado, 5 de fevereiro de 2011

DESERTO

o sol não se move
por pura preguiça
onde estavam as pirâmides
agora areia movediça
quem quiser água
que filtre o próprio sangue
quem quiser sombra
faça da pele chapéu
meu inferno preferido
é o céu

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

INFÂNCIA COM FORMIGAS

não existe ignorância
no pus da infância
a sábia queda do galho ou do telhado
é um fato totalmente planejado
a ponta do espinho da laranjeira
cava a trincheira da cura
e as viúvas formigas enfileiradas
carregam além de folhas a culpa
de terem nascido adultas
às vezes uma pedra
um quintal um arranhão
formigam a infância nas mãos

MESMO QUE EU GRITE

quando eu cuspia
em lugares proibidos
eu era mais bonito
a boca seca permitia
a palavra perfeita
e o que era dito
mesmo sem grito
abria mares vermelhos
agora cuspo
em lugares permitidos
estou mais feio que o previsto
a boca seca não permite
nenhuma palavra que se preze
e o que eu digo
mesmo quando grito
não abre nem um espelho

BIÓPSIA

fragmento do cadáver da árvore
a página
fragmento do cadáver do homem
a palavra
fragmento do cadáver inútil
o leitor

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

APRENDIZAGEM

aprendi a entender a vida
quando não vi mais saída
aprendi a adiar a morte
durante o enterro da sorte
aprendi a falar com o mundo
quando eu era mudo
aprendi loucuras com o tempo
não sei quando
sei que a poesia só serve
pra quem ta falando

MADRIGAL SEM FLORES

de um lado o jasmim
do outro o capim
a planta dos pés
sustenta um tronco indeciso
o tamanho do mundo é preciso
termina onde o jardim acaba
começa onde nada passa
andar sobre a dor
não é curá-la
chorar sobre a flor
não é regá-la

EMPAREDADO COM MUSGO

despedaçado
nem são nem salvo
o lodo todo se encolhe
e ainda assim não me descobre
a dor é o meu corpo
e não sabe
o mundo é meu bolso
e não caibo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

PÁ DE CAL

abortei meus dentes
no vaso sobre a mesa
troquei as flores
quem se debruça sobre a cova
sonha sorrisos
recebe cal fervida pelas lágrimas
a última visão do céu
é um retângulo distante
por esse motivo e
por mais nenhum outro
é preciso regar o sorriso
guardado no vaso sobre a mesa

MARINHA

ainda que me curve
não alcançarei o vôo
mesmo assim não sinto o chão
nem algo que me prenda
sou apenas um sopro inacabado
esperando a boca que complete
as asas das gaivotas
formam palavras
de um azul ilegível
resolvi transcrevê-las aqui

NAMORADO DO CHÃO

nunca estarei sozinho
deixei-me cair pelo caminho
alguns me recolhem em suas sacolas
e me oferecem como esmola
alguns me acolhem e me guardam num canto
onde me alimento de espanto
alguns nem me percebem e me ignoram
abraço-me ao chão que me namora

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

RONDÓ PARA INICIANTES

não fique triste
a tristeza não existe
a lágrima é um sonho
que se perdeu dos olhos
e a alegria é um desespero
que aprendeu a mentir

VARAL

penduro os poemas
pelo lado de dentro
os ventos os tremulam
as cores de uns
contra as cores
dos outros
os respingos no piso
formam estranhos desenhos
este por exemplo

O QUE NÃO É ÁGUA

eu sou mais forte
que o meu sonho
desperto inacabado
a aridez do mundo me completa
minha sede é imensa
bebo com os olhos
o que não é água na paisagem
eu torno

POÇO

não é preciso chegar
ao fundo do poço
pra saber que a fonte secou
a lama no balde
dá a notícia
a lama quando espera
vira pedra
expõe o esqueleto de janeiro
deitado nos trilhos espero a poesia
o trem chega primeiro

PRIMEIRA DOR

para se obter a primeira dor
não precisa de cerimônias
o preço nem será sentido
o furor explodirá sem espanto
e os pássaros criarão espaços
a primeira dor virá
talvez clara talvez baça
entre a pálpebra e a paisagem
o mundo perecerá miragem
parecerá passagem

O TUBO DA CANÇÃO

é no cantar
que se desvenda o mundo
o envoltório do futuro
se renova
apenas parece escuro
o tubo onde se guarda a canção
não tem fundo
a música se derrama pelo chão