terça-feira, 26 de abril de 2011

BURACO NO MEIO

minha sombra
com um buraco no meio
o espaço da alma que não veio
a alma se foi enquanto eu dormia
a sombra sem alma durante o dia
por isso esse buraco no meio da sombra
não me assombra
esse buraco no meio
não disse a que veio
se era da alma por que tão feio
por que não de lado e não no meio
minha sombra
com um buraco no meio
o nada que jorra forma um veio
quem pensa ser água agarre esse seio

FOLHA SOLTA

soltei a folha
ela não caiu no chão
as palavras a deixaram no ar
a poesia faz o chão
noutro lugar

segunda-feira, 25 de abril de 2011

LAUTRÉAMONT

A verdade trivial tem mais genialidade que
as obras de Dickens, Gustave Aymard, Victor
Hugo, Landelle.
Com estas, uma criança
sobreviverá ao universo mas dificilmente reconstruirá a
alma humana. Com aquela poderia fazê-lo facilmente.
Concluo isso a partir da descoberta da definição de sofisma.
As palavras são expressas na tentativa de adquirir um efeito significativo.
Um idéia pode melhorar, apenas se mudarmos o sentido de algumas palavras.
O plágio é necessário. O progresso implica nisso.
podemos melhorar as palavras de outro escritor, usando algumas de suas expressões,
apagando uma idéia falsa e substituindo por uma idéia
mais justa.


PLAGIADO DO ORIGINAL FRANCÊS

terça-feira, 19 de abril de 2011

BENJAMIM PÉRET

A doença imaginária



Eu sou o cabelo de chumbo

que viaja de astro em astro

que se tornará em cometa

e num ano e num dia te destruirá.



Mas por enquanto não há dias nem anos

existe apenas uma planta viçosa

de que desejas ser semelhante



Para ser irmão das plantas

é preciso crescer na vida

ser sólido quando na morte

Ora eu sou somente imóvel

e mudo como um planeta

Vou banhando os pés nas nuvens

que como bocas em volta

me condenam a ficar

entre os que parados estão

e que as plantas desesperam



No entanto um dia

os líquidos revoltados

lançarão para as nuvens

armas assassinas

manejadas pelas mulheres azuis

como os olhos das filhas do norte



E esse dia será dentro de um ano e um dia

FRANCIS PICABIA

segunda-feira, 18 de abril de 2011

GIACOMO LEOPARDI

CANTO XXVIII - A SI MESMO



Repousa para sempre,

Meu coração cansado. O engano extremo

Que acreditei eterno – é morto. Sinto

Em nós de enganos puros,

Não que a esperança: o desejo já extinto.

Dorme até nunca – e o muito

Que pulsaste. Não vale coisa alguma

O impulso teu, nem de um suspiro é digna

A terra: amarga e balda

É a vida, mais que tudo – e lama o mundo.

Aquieta-te, não creias

Numa outra vez. Ao querer nosso o fado

Paga em morte: despreza-te, por fim,

E à natureza, e ao mudo

Poder que – ingente – à comum perda leva,

E à infinita vaidade de tudo.


(Tradução de Renato Suttana)

HILDA HILST

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

GLAUCO MATTOSO

#4 MANIFESTO COPROFÁGICO [1977]

"Mierda que te quiero mierda" (García LOCA)

a merda na latrina
daquele bar da esquina
tem cheiro de batina
de botina
de rotina
de oficina gasolina sabatina
e serpentina

bosta com vitamina
cocô com cocaína
merda de mordomia de propina
de hemorróida e purpurina

merda de gente fina
da rua francisca miquelina
da vila leopoldina
de teresina de santa catarina
e da argentina

merda comunitária cosmopolita e clandestina
merda métrica palindrômica alexandrina

ó merda com teu mar de urina
com teu céu de fedentina
tu és meu continente terra fecunda onde germina
minha independência minha indisciplina

és avessa foste cagada da vagina
da américa latina

http://glaucomattoso.sites.uol.com.br/quem.htm

AUGUSTO DOS ANJOS

ESSE BLOGUEIRO VAI DAR UM TEMPO - POR MOTIVOS TÉCNICOS MAS ENQUANTO ISSO VOU PUBLICAR ALGUNS POEMAS QUE EU GOSTO, HOJE VAI ESSE DE AUGUSTO DOS ANJOS, QUE NÃO MORREU DE TUBERCULOSE MORREU DE PNEUMONIA, QUE NÃO ERA TRISTE ERA ALEGRE, QUE GOSTAVA DE BRINCAR COM AS PALAVRINHAS COMO EU TAMBÉM GOSTO.

ILUSÃO



Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes
Tudo que sentes. A infelicidade
Parece às vezes com a felicidade
E os infelizes mostram ser felizes!

Assim, em Tebas -- a tumbal cidade,
A múmia de um herói do tempo de Ísis,
Ostenta ainda as mesmas cicatrizes
Que eternizaram sua heroicidade!

Quem vê o herói, inda com o braço altivo,
Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,
E, persuadido fica do que diz...

Bem como tu, que nessa crença infinda
Feliz me viste no Passado, e a inda
Te persuades de que sou feliz!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

SOTERRADO

invento namoradas
e elas
como se beijassem
ao mesmo tempo em que
a terra me cobre com esse
outro beijo
que me apaga
e me conduz ao silêncio
que nunca acaba

MAR SEM CAMINHO

aproveito o dia vago
divago
devagar entre as vagas
que me invadem
eu era o mar
antes de ser
tudo isso
era o meu cais
onde atraco
os meus ais
eu era porto
antes de ser
quase morto
fui o caminho
onde pensas
que vais

terça-feira, 12 de abril de 2011

ESCUDOS

quem não tem delírio
usa o ódio como escudo
e nós que bebemos o dia
como quem bebe uma hemácia
e nos embriagamos com o tédio alheio
e nos mostramos felizes embora mortos
e nos deixamos levar por certas palavras
e nos enforcamos nos galhos ocultos da força
precisamos do ódio pra evitar o silêncio
e gritar aquelas palavras que não nos leva
e vestir a limalha que nos reserva
quem não tem delírio
não tem fama
nem fome
nem a poesia como escudo

NECROFILIA

quando abusaram do meu corpo
eu estava morto
fingi que eu era uma flor
e me deixei regar pelo ódio
meu corpo não sentia nada
nem a flor esparramada
alterou a paisagem
um ódio verde temperou meu corpo
ergueu sem brisa esse fruto
meu silêncio cultivou botões
certo momento as flores vingam
fingem que são cores suas dores
fingem que são mansos seus odores

segunda-feira, 11 de abril de 2011

COISAS QUE GOSTO DE ENCONTRAR

gosto de encontrar coisas
coisas perdidas
e coisas que ainda vão se perder
esse poema não é uma coisa perdida
mas um dia vai ser
então quando reencontrá-lo
vou conseguir terminá-lo

ÁGUA DA PRISÃO

a água da prisão
mina da solidão
e todo poro do companheiro
é mamilo
e todo corpo é dócil
e doce é a água que mina
tal qual estrelas suspensas
do corpo suspenso pelas mágoas
mina a água

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CANÇÃO DO EXÍLIO FETAL 2

dentro da barriga é escuro
fecho os meus olhos contra o muro
de carne que me joga
noutro lugar mais escuro
dentro da barriga é morno
bebo do espaço líquido
meu destino escorro
lacrando o colo uterino

FLATULÊNCIA

um flato colorido
faz mais ruído?
ou roído é o orifício
de onde saiu o flato colorido?
quem pôs cor
cor no flato?
quem pintou
esse odor agressivo?
com certeza era vazio de juízo
esse orifício
repleto de humor colorido

quinta-feira, 7 de abril de 2011

PENSAMENTO SECO

antigamente eu tinha cabeça
mas não pensava
hoje penso
e não tenho mais cabeça
o pensamento permanece
do lado de fora
apostemando o dia
depois seca
e vira poesia

quarta-feira, 6 de abril de 2011

FERRUGEM

porque o tédio foi feito
pra ser gasto
não devemos retê-lo
a lâmina do dia
abre os pulsos
e nunca foge quem deveria fugir
o tédio não se mistura com o sangue
o sangue é vermelho
mas tem cheiro de ferrugem
alguém duvida o que
oxida o coração?

CONSELHOS

segui o teu conselho
segui sem deixar pistas
segui o vulto que me cega
ceguei antes do fim
essa escuridão é o começo
e eu que pensava tua voz uma mão
agora tenho certeza

CAIXA DE FERRAMENTAS

os sentimentos sob a minha responsabilidade
devastam os sentidos
tão curtos
nem cabem no mundo
talvez por isso
seja difícil enxergá-los
os sentimentos sob a minha responsabilidade
talvez eu consiga nomeá-los
se um dia eu consegui abri-los
descobrirei que sou maior que eles

terça-feira, 5 de abril de 2011

DEGUSTAÇÃO

o confuso gosto da vida
te desobriga a engolir
a te engolir também
se desobrigam
isso te permite existir

TEMPO OCULTO

o passado passa mal
espero que morra
o futuro um furo
onde ninguém cabe
o presente
algo que alguém
sente pela gente
a vida é simples
quando desocupa
nos pendura na morte
quando se ocupa
nos solta

VARAL DA CULPA

ao varal
o corpo
acima do mundo
o sangue
quase chuva
a sombra enlameada
encharcando a culpa
o sol a lua
e todos os demais objetos
que naufragam

segunda-feira, 4 de abril de 2011

TINO

todo contrário tem suas cabeças
já tive as minhas
agora busco de costas
razões inventadas

SAUDADE

preencho com carne
o formulário do vazio
pé sem saber
é corpo sem pensar
porta pendurada no teto
será a saída?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

FRUTA

cansei de promover espaços
entre a minha culpa e o mundo
adotei agora este modelo
enterrar o silêncio na palavra
e retirar depois que apodreça

INVENÇÃO DE ÁRVORE

quem inventou a raiz
não conhecia asas
e ergueu gestos de
galhos retorcidos
musgos e areia
e inútil ergue sua copa
para o alto
na tentativa de um vôo
imaginário