sexta-feira, 29 de julho de 2011

POLÍTICA

se eu disser o contrário
não minta
se eu disser a verdade
não sinta
se eu falar em vermelho
não veja
ao se olhar no espelho
não seja

LOUCURA PARTICULAR

a lâmina no pulso
era uma metáfora
mas a vida não sabia
e se foi antes do sangue
ao lado do corpo
e não adianta querer estancar
o sangue coagulado
mesmo sem cérebro
o coração continua batendo
nem tudo que pulsa está vivo

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A POESIA SÓ

alguns poemas são detestáveis
falam de amor e se amparam em palavras
falam de amparo e usam a palavra amor
desamparada e só
assim a poesia se aceita
aceite esse poema
deixe o amor lá fora
e o amparo
a poesia só
sem as palavras

ONDE ESQUECI MINHA RAZÃO

existe um lugar
onde irei chegar
e quando chegar
já me encontrarei por lá
surpreso com a minha chegada
perguntarei a mim
porque só cheguei agora
e responderei que voltei
para o lugar de onde
nunca deveria ter saído
e ao me ver assim confuso
diante de mim mesmo
pensarei em algum poema
e escreverei a esmo
e aos que entenderem
perguntarei onde estão
e para lá encaminharei
minha razão

CHUVA E SOL

a chuva está mais perto
que o sol
assim como a dor
está mais perto que o amor
o sol brilha sem necessidade
o amor também
a chuva irriga os cantos
a dor também

CHUVA SEM VENTO

os arranhões
no vidro da tarde
são verdes
vistos mais de perto
são a chuva

CHUVA COM VENTO

o vento empurra a tarde
contra o tempo
o barulho da chuva
transborda as horas

quarta-feira, 27 de julho de 2011

ODE À ALEGRIA

meu riso é verde
como a pedra
meu lastro é raso
pulso vago
não tem paredes
minha idéia
minha alegria
é vasta
janela

O GRITO DO MORTO

não precisa tocar no morto
pra saber dos seus gritos
sua boca escancarada
cheia de dentes
engole toda a sala
e deixa tudo ausente

terça-feira, 26 de julho de 2011

PRISÃO

entro na minha prisão
levando a chave pendurada no pescoço
por dentro sou moço
vivo da procura
por fora sou um velho cego
tateando a fechadura

POEMA PARA LEMBRAR QUE JÁ SOU GRANDE

meu maior sonho na infância
era ser criança
mas cresci antes do tempo
e alcancei a altura do meu sonho
hoje não brinco mais de sonhar
levo o sonho a sério
e brinco de acordar

segunda-feira, 25 de julho de 2011

MEUS LIMITES

os meus limites são suaves
nem corta tudo
só metade
e o que não corta
permanece aberto
como se soubesse porta

APRENDENDO A MORRER

quem aprendeu a morrer
só faz isso uma vez
eu aprendi a morrer
mas faço isso todo dia
escrever e morrer
são a mesma agonia

VARAL DE PEDRA

o amor não se estende
entre um ponto e outro
o amor não se estende
imóvel
pedra pesada
esperando ser levantada

POÇO RASO

não te dei sorrisos
para que eles voltassem
é raso o poço que se cava
para encontrar poesia
é raso o poço
em que me encontram
mino algo parecido
quando confundes sorrisos com palavras
esse não é o maior problema
maior é cavar
além do permitido

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A PELE DOS NUMEROS

nunca deu pra entender
a pele dos números
soma-se o suor
procurando águas
e o sal divide
o possível caminho
nunca entendi para dar
poder aos números
divide-se a água
procurando rumos
e o leito multiplica
o caminhar sozinho

SAUDADE

cabe num copo
não cabe num corpo
nao cabe num vivo
cabe num morto

A POESIA É ASSIM

a poesia é assim
parece que não tem fim
parece que não tem meio
que justifique o fim
a poesia é assim
parece que vem de mim
nem sabe de onde veio
nem sabe de onde vim
a poesia é assim
parece que não parece
parece que não perece
quando começa é o fim

quinta-feira, 21 de julho de 2011

CARTA AOS RUMINANTES

nunca comi capim
acredito que alguém já comeu
por extrema necessidade
ou nenhuma
já bordei estrelas no escuro
já mordi o silêncio
quando fui atacado por ele
nunca vomitei o que sou
porém todo dia
alguém põe o dedo na minha garganta
isso explica as marcas de unhas
nas minhas palavras
embora eu nunca tenha escrito pra ninguém
por certo
o vazio da página se distraiu

FLUÊNCIA

o poeta devaneia
tropeça na gramática e
cai no precipício do fácil
o poeta quer pouco
tudo basta
quer todas as palavras numa caixa
e a impossibilidade de abrí-la
quer na sua palavra
o outro
o poeta não quer
quer a façanha
de aumentar o silêncio
da entranha

quarta-feira, 20 de julho de 2011

TAREFA

a cabeça se foi
mas o sonho permanece
na mesma posição
entre o silêncio e a razão
esculpir paredes
para guardar os sonhos
todos os dias
tarefa do tamanho
da poesia

NOTURNO SEM ÁLCOOL

curva com maré alta
o sol bebe o rio sem álcool
e mesmo assim se embriaga
desaba no final da tarde
arrota a noturna ressaca

ENCAIXE

sem dificuldades me encaixo
no destino como uma luva
estou por fora do destino
na sua curva
evito o contato do destino
com as coisas sujas
não contamino o destino
e a sua sina
não me contamina

terça-feira, 19 de julho de 2011

COLAR

o poeta faz um colar de pérolas
usando bolhas de sabão
recebe em espécie
o que aparece
do outro lado da razão

CÉU PARISIENSE

não vejo o céu de Paris
não vejo o solo
não vejo pessoas
nem fogo
nem luzes
Paris se vestiu de branco
as pessoas aquecidas
sob o frio
são o sangue dessa cidade
sangue que circula
sem coração

segunda-feira, 18 de julho de 2011

TOQUE DO ENLAMEADO

todo mundo quer compromisso
o pó sempre quer um encontro com a água
para se tornar lama
os pés dentro da lama
atingem o nível necessário
a lama abraça a perna deixando marcas
quem não quer ficar marcado pela lama
depois procura a água

TRAVESSEIRO DE SOMBRAS

finjo que estou dormindo
ouço os barulhos da casa
o coração no travesseiro
bombeia idéias de sonhos
onde o meu corpo não cabe
saio pelas ruas
com o mundo por dentro
eu deveria ser pequeno
vou além do meu passo
em qualquer abraço me engasgo
sem saber que é um precipício

quinta-feira, 14 de julho de 2011

MESMO TETO

estamos quase sob o mesmo teto
o que nos une um deserto
e duas sombras
talvez palavras porejadas
de uma testa imaginária
o sonho que ergui tentava alcançar a alma
mas não tive altura para isso
ao rés do chão
enxergo precipícios
em cada poro
em cada vão

OBJETOS PELO CHÃO

esquecem que eu não sinto nada
e espalham sentimentos pela casa
não posso recolher objetos
se não sei onde guardá-los

quarta-feira, 13 de julho de 2011

RASO

nem tudo que me devasta
alcança o meu fundo
nas coisas rasas
enxergo o mundo

IDADE

o olho alcança o que quer ver
a cabeça não acompanha
a cabeça quer outro caminho
reto sem desvios
o olho encaminha o corpo
para o abismo

terça-feira, 12 de julho de 2011

A CULPA DA PALAVRA

agora que estamos a sós
posso dizer a verdade
sabe aquela palavra?
aquela que morreu enforcada?
não era a culpada
nem era culpado o silêncio
sabe onde se esconde a culpa?
depois do silêncio e antes da palavra
no território
onde o barulho do pensamento
começa

NOTURNO

eu não penso
em nada
tudo que quero
é madrugada
sem o escuro
com a minha ausência
clareio os muros
estou entre o futuro
e o fim

segunda-feira, 11 de julho de 2011

INVEJA

o céu deita de bruços
pra te ver no meu sonho

CABIDE

árvore
pendurada no espelho do meu quarto
pendurada na janela do meu sonho
árvore não sei o teu tamanho
sei das tuas raízes
dos teus galhos
com o teu tamanho
sempre me atrapalho
árvore onde perduro
pendurado entre teu queixo
e o mundo

CORAÇÃO TEIMOSO

à minha revelia
o coração continua batendo
bate em retirada
sem deixar rastros
bate na mesma tecla
sem fazer música
bate sem fazer barulho
rebelde coração
bate até sair sangue
do lugar devido
bate sem ouvir meus gritos

quinta-feira, 7 de julho de 2011

CONVERSA ÍNTIMA

a conversa das formigas com os mortos
requer palavras cinzas
as vogais inchadas pelo sono
provocam um constante alvoroço
entre o que restou da alma
e o osso

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A MAIORIA DOS ACORDOS SÃO SOMBRIOS

o mundo não me vicia
em todos os momentos que morri
morri aos poucos
nunca utilizei o meu corpo
para me abster do mundo
as almas porosas
alimentam o mar da angústia
minha alma porosa
troquei pelos motivos
que me fizeram morrer
morri quando me fiz ético
morri quando me fiz cético
morri quando me fiz
cadáver esquecido
e a ausência dos outros
me fez levantar

RACHADURA

a faixa de segurança
rachada
por onde escorre
a minha sombra
murmura o sol
que carrego
na fala

GOTEJANDO SOMBRAS

a chuva se foi
com ela a minha vontade
de escorrer
agora imóvel
gotejo sombras
num lugar qualquer

PARA DIZER NÃO

se for pra dizer não
diga sempre
assim você não corre o risco
de não dizer não
para a pessoa certa
o não cria uma barreira positiva
vista de dentro para fora
e afasta indesejáveis
que se acomodam
diante do sim

NA DÚVIDA MELHOR EXISTIR

a grande dúvida de deus:
onde devo me esconder para existir?
na mente ou no coração do homem?
o homem que pensa, sente deus?
o homem que sente, pensa em deus?
e o homem?
onde deve se esconder pra existir?

terça-feira, 5 de julho de 2011

PERTO DAS FLORES

o objetivo de morrer
não é a fome
outras formas de fugir
produzem vozes
de melhor qualidade
mesmo no deserto
as flores sempre estão perto
a pétala de grão de areia
o perfume da morte
enjaulando teus gestos
parece fugir
o vaso que te carrega
mas apenas descansa

OUVINDO MÚSICA

ontem surgiu
uma música no meu ouvido
era a música da morte
ela dizia
para onde vais
para onde vais
para onde vais
não precisarás de música
só precisarás da dança

segunda-feira, 4 de julho de 2011

FORA DE HORA

não
você não vai morrer agora
depois desse lá fora
tem outro lá fora
e a vida
que parecia encher tudo por dentro
vai te colocar no centro
do que você pensava ser
vai te matar por dentro
sem você nem perceber

PARADO

meu olho aqui
minha cabeça acolá
minha cabeça não quer pensar o que vê
meu olho não quer pensar
mover a cabeça sem o olho
olhar sem mover a cabeça
mostrar-se mais que a paisagem
ser mais que o pensamento
eu não deveria estar aqui
mas o mundo me move
como a qualquer outro lugar