quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O LIVRO QUE NÃO LI

terminado o ano
e não consegui ler nenhum livro
talvez por isso as palavras me escapem
estão por aí
entre as pregas dos gritos
entre as nuvens que cobrem o tempo
estão por aí as palavras
e você aí talvez atento ao que digo
libere essas palavras
fale-me tudo que já sei
em qualquer idioma
todo grito é igual
todo sussurro é confundido
com uma idéia insossa
ou então não diga nada
releia em voz alta algum livro que não li

O POEMA, O POETA E OUTRAS CONSIDERAÇÕES

o poeta é menos importante que o poema
o poema sobrevive sem ele
porém o poeta não sobrevive sem o poema
sem o poema o poeta não tem a menor importância
o poeta sem o poema
lembra um pássaro que não voa
o poema sem o poeta
lembra um vôo sem o pássaro

RUA

quem conhece
o outro lado da rua
não atravessa
rega a flor
espera que o sol
ilumine os dois lados
espera que a rua
seja apenas um caminho
a ser ultrapassado

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

EMOÇÃO

a composição da emoção
começa na beira de um rio
caso não exista o rio
serve a beira do olhar
lágrima não sabe
que não é rio
mas sabe
onde vai desaguar

COR

antes da cor
alcançar a flor
existe a poesia
e por não entender
sua cor
expõe incolor
agonia

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O AMBIENTE DA FELICIDADE

o ambiente da felicidade
não comporta passarinhos
não há árvores
para construir ninhos
no ambiente da felicidade
não cabe água corrente
porque não há
leitos suficientes
no ambiente da felicidade
alguém procura por outro à toa
no ambiente da felicidade
só cabe uma pessoa

FOTO

o mar ao fundo
pequeno detalhe azul
entre o meu olho
e o que realmente
devo enxergar

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

TÚNEL

não precisa
entrar no túnel
para saber
que é escuro
o túnel do cego
é mais puro
porque não existe
o outro lado
aos que enxergam
tudo é mais claro
quando o túnel termina
não precisa
entrar no mundo
para saber
que é escuro
o mundo do cego
é mais puro
porque não existe
o outro lado
e os que enxergam
outro lado no mundo
são os mais cegos

SOBRE AQUELE ASSUNTO

repito
já falei sobre esse assunto
repito
já falei sobre esse assunto
se por acaso
algo não ficou bem esclarecido
ou não foi devidamente esgotado
voltarei a esse ponto
no momento devido
por enquanto repito
já falei sobre esse assunto
repito

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

RARO

ser difícil é raro
uso o corpo
como anteparo
sob ele tudo
que o torna raro
enxergam pele
cabelos lágrimas e medos
não sabem da alma distante
escondida no labirinto do sangue
e assim todos os dias
disfarçar a hemorragia
é o maior segredo

MINA

a poesia não me salva do silêncio
por ele
começo a cavar
encontro ouro
encontro água
não consigo me encontrar

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

CANCERÍGENO

desenvolvo câncer
na palavra
quando interrompo
o silêncio
da página

NÃO COMIGO

se a morte pensa
que vai mexer comigo
está enganada
pode mexer com meu corpo
comigo não
pode parar meu coração
mas não vai parar
minha razão

W

encontrei uma data com w
quase inexistente no calendário
tal qual um peixe
fora do aquário
procuro ar
numa letra
difícil de respirar

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PASSO SOLITÁRIO

teu coração não
bate por mim
quando ele parar
não será o meu fim
deixarei teu corpo
pelo caminho
seguirei conversando
mesmo sozinho

PORQUE POESIA É AR

quando o oxigênio
não alcança o cérebro
uso as palavras
e enquanto o cérebro
permanece paralisado
escrevo poemas

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CAMINHOS

se quiser mentir
procure um surdo
se quiser ouvir
procure um mudo
se quiser uma testemunha
procure um cego
se quiser se iludir
leia um poema

MAR

mar vasto mar
quem te alagou
não cogitou chorar
nem acredites ser
todo esse sal suor
mar vasto mar
não passas
de um vasto urinol

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESCONDE ESCONDE

a felicidade é mais fácil na infância
porque a morte é longe
e não fabrica brinquedos
quando crianças morremos de mentirinha
e a vida nos faz de brinquedos
até morrermos de verdade
fechamos os olhos
enquanto os outros se escondem
para sempre

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A POESIA VAI TE PEGAR

a poesia vai te pegar
sem usar as mãos
vai te pegar pelo pé
e continuarás caminhando
vai te enterrar
e continuarás voando
a poesia vai te pegar
quando menos esperar
nem vais saber que é poesia
isso que te prende
nessa página

DESPEDAÇADO

quem quer se dividir
procura o sonho
não espera que a vida o despedace
não há sangue nos cortes do sonho
e a dor fica pendurada
do lado de fora
a vida nos desperta
tudo volta ao seu lugar
e recomeça o eterno despedaçar

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

VISÃO DO TOLO

o tolo não enxerga tudo
nem todos enxergam o tolo
o tolo enxerga quem não o enxerga
inútil gesticula
quem o enxerga não vê os gestos
só enxerga o tolo
quem acompanha os seus gestos
imagina os gestos sem o tolo
quem não enxerga o tolo
também não enxerga os gestos
o tolo e a rua são a mesma coisa

ESCOMBROS

esquecer o mundo
até perdê-lo
e reencontrá-lo
sob as palavras

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CAMINHANDO SOBRE AS ÁGUAS

era de pedra
o mar onde o outro caminhava
seus companheiros enxergavam água
e se afogavam
assim também ocorre com o poema
enquanto caminho sobre o silêncio
enxergam palavras
onde leitores e imagens
morrem afogadas

IMPALPÁVEL

desmistificar o silêncio
torná-lo intocável
mostrar-se mais que palavras
talvez eu mesmo
gesticulando o impalpável

SENTINDO MENTES

se eu conseguir
com as palavras
o que as imagens perderam
talvez eu sinta
a tua mente
perdida no silêncio

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

FIM DO TÚNEL

a luz apagou
o chão não aceita o passo
a pele não aceita o corpo
o sangue não aceita o coração
o ar não aceita o pulmão
a luz apagou
tudo vai fazer sentido
algo vai ficar parecido
nada vai ultrapassar o permitido

MANHÃ EM ESTOCOLMO

estou calmo em Estocolmo
não sei onde terminam meus ossos
e onde começa a neve
não sei do meu corpo
misturado aos destroços
de silêncios que erguem
músculos em forma de monumentos

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PEDAÇOS DE LUZ

surgem as palavras
como pedaços de luz
que interrompem as sombras
e claras
formam outros caminhos
que os cegos devem seguir

ENQUANTO RESPIRO

a cadeira voltada para a rua
embora a janela fechada
a paisagem me imagina
nem me conhece ainda
não imagino a paisagem
espero que o ar me abandone

FAXINA

finjo
como se soubesse
o que os outros sentem
pessoas lembram objetos
sentadas nas prateleiras
recolho uma a uma
retiro o pó
e a tinta que fica
na flanela
lembra a cor
de algum sentimento
que não me ocorre
no momento

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ONDE ESCREVO O MEU NOME

porque inscrevi meu nome
não quer dizer que eu esteja
estive em muitos lugares
onde nunca souberam o meu nome
noutros meu nome foi pronunciado
e eu nunca estive presente
o nome à pessoa não é um laço
um fosso cujo remédio
qualquer palavra é inútil

AMAMENTAÇÃO

a glândula mamária
pensava que me alimentava
eu soprava meus medos
e o anticorpo materno
desfazia-se em leite

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ABDÔMEN

o abdômen da palavra é a poesia
como é poesia o que sobra nos sonhos
e o que sobra nunca sabe inacabado
sempre sobra medonho
sobra um tórax solitário
que pensava fazer parte do barulho
pensava porque batia
batia por puro orgulho

ALGO PARECIDO COM UM JARDIM

a borboleta excluída
pousa no poema
o poema lembra uma flor
na alucinação do leitor
o poema lembra um jardim
quando chega ao fim

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

LÁGRIMAS

a chuva
lembra as raízes
por dentro
dos meus olhos

FLOR HUMANA

expulsa a cor
vomita o perfume
rejeita o estrume
a flor se suicida
sendo humana

AO LER ESTAS PALAVRAS

observe a palavra
derramada na página
ferimentos sem prantos
sobre fundo branco
sob teu olho
sob teu couro
não adianta nada
depois de lida
está encantada

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A POESIA NÃO SERVE PRA NADA

a poesia não apaga incêndios
não grita quando ferida
não sabe os gestos das árvores
não ergue homens nem afaga
a poesia não aparece
nem quando o silêncio cresce
deveria estar aqui
restaram só as palavras

PELA MINHA CABEÇA

mantê-la afastada dos sonhos
é o máximo que posso fazer
pela minha cabeça
o mínimo
é mantê-la sobre os ombros
com se eu pudesse contê-la

PAISAGEM SUÍÇA

o silêncio da Suíça
corta a superfície do poema
como se fossem paisagem
os cães se movem
as crianças não morrem
a pele clara de Zurique
dá a entender
que o resto do mundo
é mentira