sexta-feira, 29 de junho de 2012

PERDIDO

a chuva vem ao meu encontro
enquanto estou desabrigado
meus sapatos sustentam meu peso
o peso da água
e o peso das nuvens
a chuva apaga o meu rastro
jamais serei localizado

TOQUE

não sei que mão usar
para tocar a felicidade
quem a alcançou
favor mostrar

quinta-feira, 28 de junho de 2012

POEMA ENTALADO

o poema entalado
na goela do silêncio
com água
tentam empurrá-lo
mas ele só entende
de incêndios

AO INFINITO

depois das flores
os jatos de neon
perfilam tensos
troncos amanhecidos
talvez de árvores
talvez de homens
erguem os braços os galhos
em direção ao infinito
para onde foram as copas das árvores
as cabeças dos homens
eu já fui também

HÁBITO

desde pequeno mastigo arames
geralmente farpados
em silêncio rumino
as contrações explodindo
desde pequeno defeco arames
geralmente lisos
aos gritos expelindo
trilhas e traças construindo
desde pequeno me alimentam
com arames e vidros e pedras
geralmente separo o arame
de tudo que não presta
expurgo as pedras e os vidros
e as palavras que me restam

terça-feira, 26 de junho de 2012

PORTAS

há milhares de anos
uma porta ergueu-se
entre mim e o nada
a poesia é a chave
construo mãos
usando palavras inacabadas
circundo a maçaneta
com meus cinco medos
deveriam ser os dedos
com eles fixo o meu corpo
entre a madeira e o osso

quinta-feira, 21 de junho de 2012

SALA DE ESPERA

na sala de espera
espera-se de quem espera
que leia alguma coisa
prefiro ficar pensando
para pensar não preciso de idéias
preciso de idéias para escrever
embora muitos escrevam
sem ter idéia alguma
embora muitas idéias
nem sejam escritas
na sala de espera
quem não tem idéia
desespera-se
prefiro ficar pensando
em ter alguma idéia

TRANSMUTAÇÃO

a agulha atravessa a minha pele
alcança o osso e atinge a alma
e a acaricia ao invés de sugá-la
uma alma
com a marca de agulha nas costas
quem a encontrar
avise que está morta

terça-feira, 19 de junho de 2012

MORDIDA

a copa da árvore sem a árvore
flutuando entre o meio-fio e a foto
de boca aberta espero algo que eu possa morder
pode ser algo como essa passagem
entre a paisagem e o sono
algo que não tema os meus dentes
algo que queira morrer ao dar prazer

segunda-feira, 18 de junho de 2012

ENTRE AS ALAMEDAS

não sei andar de bicicleta
talvez por isso eu não tenha
o equilíbrio necessário para o choro
toda essa água em que me movo
é tudo pedra
meu oceano é minúsculo
quase não pesa
mesmo quando suo ou quando chovo
são aparas colhidas de outro sonho
se caminho trôpego pela alameda
quando deveria estar voando
imploro aos que encontraram as minhas asas
para que as esqueçam engavetadas

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A FOME E O FOGO

os fios que formam
a face do fogo
bebem na mesma fonte
dos fios que formam
a face da fome
então o fogo
é a outra forma de olhar a fome
então o que queima no faminto
não é a revolta
pela presença da fome
o que queima é esse fogo
que bebe na mesma
fonte da fome

quinta-feira, 14 de junho de 2012

PEDAÇO DE AZUL

o pedaço de azul
descascou a nuvem
depois se juntou a outras
e se precipitou
chover é natural de quem espera
estiar é natural de quem chegou

MODO DE USAR AS PERNAS

pouco uso as pernas
para me mover uso a cabeça
fecho os olhos e estou em Tóquio
colho uma flor no Gabão
penduro o chão
nas minhas pernas
arrasto o mundo
em minha direção

SOTERRADO

toda tarde
chove embaixo
da mesma árvore
todo abrigo
sabe o que é preciso
mesmo soterrado
a terra não sai
do meu lado

segunda-feira, 11 de junho de 2012

SALITRE

quem não tem o mar
para chorar
não tem onde guardar
o sal da lágrima
por dentro
salga a alma e a estica
num lugar
onde o sol
não possa alcançar

PRAIA

a praia que se adensa
tremula
tal qual uma bandeira
o dia me espia surpreso
porque a poesia me ensinou
a passar da hora de morrer


LEVE

se eu fosse livre
seria leve
estou preso a esse vôo
e se pareço parado
é porque os olhos
que me enxergam
estão fechados
meu vôo é breve
a sua vírgula
é o infinito
seu ponto final
ainda não me escreveu

sexta-feira, 8 de junho de 2012

AXIOMA

não adianta capricho
os meses retocados
estocados uns sobre os outros
iludem formando anos
nada se amontoa
escorre sob nossas peles
o sangue do axioma recortado


PRIMEIROS MOVIMENTOS

veja como ficou
quem diria que ficaria dessa maneira
ninguém imaginava
nem eu mesmo
queria dizer outras palavras
mas o tempo não deixou
o corpo não deixou
o máximo que consegui foi isso
espero a sua opinião
caso queira manifestá-la
ou então deixa pra lá
assim como eu deixei
fico observando
não digo mais nada

quarta-feira, 6 de junho de 2012

QUANDO O MEDO ACENDER

quando o coração
acender o medo
lembre que há no corpo
outras partes
que poderão soprar o medo
existem outras partes
do teu corpo
e existem outros corpos
em toda parte
podem usar teu coração
como um segredo
soprar adrenalina
estricnina ou vaselina
apagar o medo
de qualquer parte

JARDIM DA INFÂNCIA

um adulto nos penetra
assim termina a nossa infância
trancada numa sala
à prova de som
a psicologia é noturna
não funciona durante o dia
em vão ampara o silêncio
utilizando palavras
que não apagam
as manchas de esperma
na alma


segunda-feira, 4 de junho de 2012

NÃO LEIA

não tá a fim de ir
não vá
não tá a fim de morrer
não morra
não tá a fim de ler
não leia
agora
não venha exigir
palavras
onde o silêncio
é a melhor
maneira de dizer

BOLO FECAL

poesia é água
ajuda na formação do bolo fecal
mas isso é lá coisa que se ponha
numa poesia
vão dizer
então direi que
a morte também é água
e ajuda na formação do bolo fecal
da alma

sexta-feira, 1 de junho de 2012

TROCA DE OLHARES

deposito meus olhos sobre a mesa
recebo um troco maior
guardo a paisagem que sobra
no bolso esquerdo
saco outros olhos
do bolso direito
está sujo de dinheiro
suficiente para a passagem
aonde vou não preciso de olhares
espero que aceitem
minhas mãos como pagamento
no bolso da camisa
guardo todos os acenos

QUERIA DIZER QUE SOU A CHUVA

a chuva debalde
interpretando a paisagem
molhando as rusgas
não é bem isso
o que eu queria dizer
meus pés alcançam um brilho
onde o trem guarda o estio
não sou tão rápido
sigo o arrepio
como quem sonha com
uma morte feliz
ainda não sei se é isso
o que eu queria dizer
caio oblíquo
perpendicular à chuva
escorro sem destino