domingo, 30 de setembro de 2012

UM HOMEM DE CORAGEM

quando eu era homem não tinha coragem
agora tenho coragem e não sou homem
como se coragem e homem
devessem viver juntos
como se ter coragem fosse coisa de homem
como se o homem só existisse com a coragem
quando eu era coragem não tinha homem
agora tenho homem e não sou mais coragem
resta me travestir de homem
e marcar um encontro com a coragem
não sei se vou ter coragem
não serei se serei homem

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

CHUVA NO AQUÁRIO

enquanto nada se resolve
alguns vestem janelas
olhos e paisagens se misturam
aos automóveis pessoas e plantas
a vida mostraria a cara
caso possuísse
no entanto
permance impassível
assistindo a chuva
inundar o aquário

ÁGUA FORTE

as marcas da chuva
vão desaparecer
poucos conseguem
evaporar junto com a água
eu fui um deles

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ENTENDIMENTOS

alguns escrevem poemas para sonhar
outros escrevem poemas para viver
os poemas me escrevem?
ou escrevo poemas?
eu me pergunto enquanto os elaboro
mais fácil vive o tempo que se perde
sem precisar se entender

QUE CAI DO MEU OLHO

a água que cai do meu olho
muda a natureza de lado
parecia brincadeira
agora é fato

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

GAIOLA

o passarinho
e suas cores
seu canto e suas dores
seu encanto e sua solidão
dormem no escuro
do estômago
do gavião

CORRUPIO


a infância gira mais rápido que o mundo
atravessa-se uma bananeira
com risadas certeiras
estripam-se formigas
faz-se intriga
entre um grão de areia e outro
até formar um buraco
lombrigas são dependuradas
até tornarem-se pipas
esconde-se atrás de uma folha
que mais parece uma floresta
o universo cabe na infância
seres de outro planeta
rastejam no muro
até abduzir o sol
e brinca-se de adulto
só de mentirinha

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

QUANDO MAMÃE VEIO ME VISITAR

quando mamãe veio me visitar
não havia mais calendários
percorri todos os 365 dias de maio
como se fosse o primeiro

quando mamãe veio me visitar
não havia desmaios
e a lucidez era o gancho
que fixava o meu corpo entre as nuvens

quando mamãe veio me visitar
não havia mais água
e toda palavra pronunciada
derramava um deserto

quando mamãe veio me visitar
não havia mais alma
e a dor era a película
que me ocultava

quando mamãe veio me visitar
não havia mais tempo
tudo que seria dito
ficou tatuado no pensamento

quando mamãe veio me visitar
não havia mais espaço
corredores e portas
chegaram antes do abraço

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

CHEIRO DE ADEUS

peido adeus
como quem arrota
no fim dá no mesmo
depende de quem escuta
sempre encontro silêncios
no meio da luta
nem todo cu tem desmaios
nem todo filho é da puta

NUNCA MAIS

uma flor caída
um poema esquecido
pouco se perde
dois pássaros roçam as asas
durante um pouso
e nunca mais se encontram

DIA NOITE


o dia embrulha silêncios
que a noite vai engolindo
o dia espalha espasmos
que a noite vai tossindo

ANTES DO DIA


não importa se hoje é segunda-feira
a poesia chega antes do dia
e carrega com ela todos os objetos
que ainda não imaginamos
e o dia não permite
que se tornem realidade

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CARCAÇAS


acordo e enterro
minhas pernas
nas carcaças dos sonhos
os sonhos não me lembram
nem me lembro
se houve algum sonho
quem sabe os sonhos
libertem as minhas pernas
da necessidade de parar

MOTIVO

poupo-me da tristeza
não pensando
por outro lado
se eu pensar na alegria
não vou ficar alegre
pensar na tristeza ou na alegria
me abstenho
eu queria um motivo
para um poema
agora tenho

terça-feira, 4 de setembro de 2012

PREGO

espero a chuva
como um arrepio
espera a pele
espero a morte
como um prego na parede
espera um quadro

OLHOS LIMPOS

meus olhos estão limpos
mas não consigo enxergar a tarde
nem sei quando ela começou
ou se vai terminar
algumas tardes nunca começam
outras nunca terminam
quando havia vida
eu sabia
já superei essa fase
toda a sujeira dos meus olhos
foi embora com alguma tarde
que nunca mais voltou
meus olhos estão limpos
e quando estão fechados
inclinam meu corpo
em direção à noite

REGRESSO

sinto me falta
regresso a mim mesmo
dou em torno de mim
começos
avanço aos pedaços
dou pés aos meus passos
tropeços

RETIRADA


mais uma vez
retiro as palavras
dos seus locais impróprios
e penso organizá-las
num lugar próprio
e entre esses dois pontos
ocupo mais espaço
do que tempo
retiro-me sem tocá-las
e penso que as abandono
num lugar melhor