quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

PARA DIZER QUE NUNCA FUI ROMÂNTICO

o sol revela gestos imprecisos
entre o meu corpo e o chão
minha sombra deságua
e para não dizer que nunca fui romântico
deposito meu corpo na calçada
e danço com a minha sombra

COM A AJUDA DE APARELHOS

o aparelho que me mantém respirando
está com os dias contados
sinto seus olhos pela metade
suas mãos coladas à parede
seus fluidos dissipando-se pelas janelas
gostaria de falar para ele tudo isso
mas entre o meu pensamento e as palavras
há um tubo
e um estranho peso impede que eu me mova
algo mais pesado que a vida
sopra um vento que tremula o meu couro
não alcanço o botão que desliga o aparelho
meu braço mais curto que a vontade
faço melhor
busco a energia que o mantém ligado
e a engulo
agora meu estômago elétrico
digere o silêncio que procuro

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A MÁQUINA

um dia a máquina vai parar de funcionar
e eu não vou puder fazer nada
principalmente eu não poderei fazer nada
ninguém poderá fazer nada
a paralisação dessa máquina
não consta no manual de instrução
não há como reaproveitá-la
algumas vezes uma peça ou outra
dependendo do modo de paralisação
e por ser uma máquina quase imperceptível
cria alguns laços
e são laços que vão provocar
o desfazimento da carcaça
é necessário desocupar o espaço
e pensar que a máquina agora extinta
vai funcionar em outro tempo
de outra maneira
fora do alcance das que ficaram
talvez nunca mais funcione
e vá acumulando tempo sobre a sua superfície
em forma de ferrugem
e para que este espetáculo não seja visto
outras máquinas nominam as máquinas de gente
e as enterra como se ao enviá-las para o escuro
fizessem nascer sob a terra
algum tipo de muro
onde não mais existisse o futuro

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA MORTE

certo dia
encontrei uma estrela
parada numa esquina
como vocês devem saber
o sol é uma estrela de quinta grandeza
mas a estrela que eu encontrei
era de primeira grandeza
e vocês também devem saber
que uma estrela de primeira grandeza
parada numa esquina
não é lá coisa muito fácil de encontrar
e mais difícil ainda é conseguir
enxergar a estrela e consequentemente
a esquina onde ela está parada
mas tudo fica explicado
quando esse encontro acontece num poema
assim como a vida e a morte
presentes num poema
enxergar a vida
como se enxerga uma estrela parada numa esquina
a vida quer que você se esqueça dela
e quando você menos espera já está do outro lado
e o outro lado da vida é a poesia

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

TRATADO PARA HUMANIZAÇÃO DOS AUTOMÓVEIS

se queremos humanizar os automóveis
devemos primeiro arrancar as placas
não andamos com as nossas identidades
coladas nas nossas testas
nem com algum outro documento
colado em nossos rabos
se queremos humanizar os automóveis
devemos lacrar os escapes
uma vez que não nos é permitido
fumar em local público
se queremos humanizar os automóveis
devemos desonerá-los
é inadmissível o financiamento da amizade
em parcelas iguais e sucessivas
se queremos humanizar os automóveis
e não conseguimos nenhuma dessas alterações
devemos então mudar o direcionamento
e vamos automovizar as pessoas
introduzir óleo em algum orifício
beber gasolina três vezes ao dia
e ao avançar os sinais culpar os humanos


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

PÉS PELAS MÃOS

troquei o pé pela mão
a fé pelo não
trípede
caminho e a única mão
que me resta
escreve isso aqui
o pé que sobra
acrescenta um passo
que vai me levar
para outro lugar
que não vai me tirar
de onde nunca vou sair
de dentro de mim

NÃO QUERO SER FELIZ

não quero ser feliz
quem quiser ser feliz
que vá procurar outro lugar
eu não seria feliz
mesmo se quisesse
se a felicidade existisse
o sol nunca se poria
e a lua ficaria pendurada
em nossos pescoços
sugando o nosso alvoroço
se a felicidade existisse
a chuva só molharia
a fome não existiria
e nossos estômagos de flores
exalariam cores pelas nossas bocas
se a felicidade existisse
não precisaríamos da poesia
e as palavras nos mastigariam
sem cerimônias

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O MAR POR DENTRO

no começo toda frase é assim
depois vai formando reversos
e o cérebro espuma em segredo
ainda bem que a cabeça ainda está aqui
assim o mar não foge
apenas o sal do olhar denuncia
o sorriso marejado
a maresia no hálito

TALVEZ AMANHÃ

quando todas as palavras acabarem
e o silêncio aprender a ser mudo
a poesia vai mostrar para que serve
um poeta sem face
uma rua que trace
um movimento contrário
ao que se pensa
imaginário

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SEXTA-FEIRA

a poeira da semana
não comeu ainda tudo
há uma boca e precipícios
com alguns passos gravados nas laterais
todo sonho é um abismo
intocável
mas é um abismo
e mesmo que se juntem
todas as palavras
ainda não será possível
inventá-lo

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

AUTOBIOGRAFIA

quando falo de mim
estou falando de ti
e de alguém
que ainda vai existir
falo da asa sem o pássaro
do canto sem o ângulo
falo de palavras
fáceis de serem esquecidas

FACILIDADES

seria mais fácil para mim
criar um deus e guardá-lo
entre as palavras
prefiro mantê-las soltas
de entraves
livres de suportes
deixo que o vento as poupe
de um contato mais íntimo
com a superfície

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

DESGOSTAR

gostar da pedra sem tocá-la
gostar da pedra sem torná-la
não gosto de quem não gosta de mim
gostar é caro e raro
requer tempo e espaço
gostar é mais curto que o tempo
e ocupa menos espaço
gosto de não gostar de ninguém
e quem gosta de mim
melhor desgostar
meu tempo e meu espaço
não cabem aqui
tornei-me pedra ao me tocar

PARA QUE SERVEM AS PALAVRAS

as palavras foram ditas
e em algum lugar
foram guardadas
ou no ar
ou na memória
o que menos importa
é para que servem

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

SEM SAUDADES

a lua míngua
igual a um pássaro sem ninho
eu não sou pássaro mas vôo
eu não sou pássaro mas canto
e vivo à míngua do meu canto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PRATO

gravo fácil
os gritos no prato
ecos queimam a louça
o som sem a boca
desenhado sob a comida
soterrado

DE PAPEL

minha alma
não cabe nessa página
talvez em duas delas
dobradas pontiagudas
foguete de papel
cruzando o céu

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

FEBRIL

adoeci
a palavra não consegue
alcançar minha febre
esse poema foi o que melhor sobrou
após as convulsões
o corpo foi retirado e a sua pele
enfeita a parede de alguma sala em saturno
a espuma no canto da boca
sonha ser salgada sem ser mar
o sangue espalhado pensa espelhar o mundo
eu penso em alguma cura
mas a tarde me esquece
e me transforma em ontem

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

DIFERENÇAS DE POSICIONAMENTO

não consigo ler
e defecar ao mesmo tempo
é como se o meu intestino ficasse
concentrado na leitura
há três dias leio o mesmo livro
há três dias não defeco
e não terminarei a leitura
nem tão cedo
e como são passados vários dias
escrevo defecar pois quase
tornou-se um caso médico
escreveria cagar se fosse todo dia
defecar já é mais difícil
como a merda quando é feita todo dia
torna-se fezes quando vira caso médico
igual à merda que escrevo nesse momento
vai se tornar fezes ao ser analisada
por algum teórico da palavra

MUDO


sou mudo por dentro
nunca converso comigo
ou com alguém que por acaso
esteja aqui dentro
o pouco que falo
é o que aprendo lá fora
minha boca sopra
o que engole
minhas palavras
são as dos outros
não há como alguém
discordar comigo
estou falando
tudo que tenho ouvido
se por acaso algo
foi mal entendido
saiba que não fui eu
quem articulou o sentido

PARA NUNCA MAIS

eu tinha o mar pendurado no pescoço
agora nem tremo
restou o sal e o sol com seus calos
sinto em suas mãos o inverno e suas costuras
algumas abertas
por onde entro com minha sombra
e ergo desertos
sei caminhar sobre a areia
aprendi ao me equilibrar sobre as águas
meus pés suburbanos espalham as nuvens
o inverno no deserto nunca é perto
parece uma miragem feita de chumbo
correndo nas veias do mundo

DELTA

depois de reler
os meus três mil setecentos e quarenta e dois poemas
não encontrei a palavra delta
encontrei de dele dilata alta altera
e outras que nem vale mais a pena
soltei todas as palavras de todos os poemas
inclusive os que ainda vão ser escritos
elas escorrem agora até formar esse delta

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

VASOS

meus vasos linfáticos enfeitam a sala
seu líquido encobre o material de que é feito
ninguém pergunta pelas estranhas plantas
nem pelo forte cheiro
simplesmente invadem a casa
e se acumulam entre a varanda e o quarto
não trouxeram nenhum sentimento
apenas o mundo e outros acessórios
parecidos com os que carrego no peito
meu coração sabe tudo
mas insiste em bater na mesma tecla
não suporto mais essa música
guardo meus tímpanos num copo
desenho elefantes com o meu sangue
e os solto na sala

CAPACIDADE RESPIRATÓRIA

aumento a minha
capacidade respiratória
contando histórias
personagens sem pulmões
carrego em meus braços
isso me dá mais espaço
eles não falam
eles não sopram
flácidos se misturam
ao meu corpo
entre a minha pele
e o meu osso
quase asfixiam a
minha alma
isso me dá mais calma
para desligar os aparelhos
que mantêm viva
essa página

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MUTANÇAS

não seremos assim para sempre
ainda vamos crescer e as nossas cabeças
vão ultrapassar esse espaço
e ficarão dependuradas na janela
de modo que a paisagem e as pessoas
as confundam com a parede
e as nossas cabeças confusas
misturarão as pessoas e as paisagens

VISÃO

não consigo ter uma visão ampla
talvez a miopia do mundo não ajude
queria falar do além um pouco acima da pele
mas fico preso pelo nervo
pelo termo utilizado pelo sangue
queria dar outros nomes a esses nomes
a que nos reduzem
mas a caligrafia do mundo não tem fome

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

ABRIGO

a chuva é sempre tão inspiradora
as formigas recolhem-se
ficam mais próximas
ao meu corpo

ONOMATOPÉIA


o homem
é a onomatopéia do vazio
eu me permitiria outro grito
mas sou apenas um homem
persegrito


ROUPA DO MORTO

a roupa do morto pendurada no varal
a roupa do morto dobrada no armário
a roupa do morto guardada na mala
a roupa do morto reservada na loja
a roupa do morto no seu corpo
a roupa do morto agora é de madeira
bordada de escuridão e terra
a roupa do morto não mais precisa
ser lavada nem passada nem trocada
a nova roupa do morto
não passou por sua escolha
a nova roupa do morto
espera que ele seque
da carne do osso e da espera
e desocupe o espaço
para a roupa de um novo morto