terça-feira, 30 de abril de 2013

PRIMEIRO DE MAIO


primeiro desmaio
depois escuto o dia pingando
do lado de dentro do escuro
depois não escuto mais nada
o silencio carrega o meu corpo
até onde não alcanço dizer
depois acordo
no meio de um sonho
meu corpo todo é o mundo
o sangue jorra organizado
nas artérias nas veias
das árvores que cumprimentam
o sol ao passar
agora tudo está claro
mas a luz é um modo
que eu ainda não sei escrever

segunda-feira, 29 de abril de 2013

ASTRONAUTA

flutuo
estou preso
à atmosfera poética
sou um astronauta
patinando num trilho de luzes
assumo
carrego a vida pendurada no pescoço
como uma tela onde um filme
em preto e branco e mudo
desvenda palavras
o mundo debelo
municio de cores
as mãos de um cego
e o guio até a escuridão

PAISAGEM PLASTIFICADA

inverno
a parte da paisagem que não se esconde
plastifica-se
eu guardo meus gritos
num local onde não possa alcançá-los
molho por dentro
tudo que acendo
espero minha boca jorrar
palavras
não entendem o silêncio
vestem-se de poesia
como se soubessem

quarta-feira, 24 de abril de 2013

TRONCO VERDE

inverno
o verde da folhagem
espalha-se pelo tronco
dificulta a escala até o cume
não vejo frutos
nem flores
faço um grande esforço
para enxergar poesia
deixo que o frio
inunde meus olhos
até todo o mundo
virar uma miragem

SORRISO NOVO

comprei um sorriso novo
mas ainda não posso usá-lo
preciso de um rosto
de um corpo
de uma mão que possa pegá-lo
preciso de alguém
para admirá-lo
comprei um sorriso novo
vou demorar a usá-lo

sábado, 20 de abril de 2013

ENCOSTADO AO MAR

não preciso olhar o mar
para saber onde ele está encostado
basta tirar a poesia do lugar
e ele cai do outro lado

BRINCAR COM OS OLHOS

não é bom brincar
com os olhos dos outros
deixe que a paisagem
o inicie
à beira do canal
do olho
do outro lado do fim
deixe o seu tato
no caminho

quinta-feira, 18 de abril de 2013

CHAVES

meu coração
cheio de cicatrizes
pendurado no armário
o temor tem um cheiro escuro
cabe na minha face
pendurar raízes antes do tempo
é melhor que mover-se
as paredes onde caibo
são de sonho
a cabeça de algum morto
ressona independente do corpo
aos que ainda comovo
deixo as chaves
aos que me vertem
finjo que sou um rio
e espero o mar me esperar

quarta-feira, 17 de abril de 2013

INFÂNCIA ETERNA

as melhores coisas da vida
acabam logo
a minha infância eterna
salvou minha pele da faca
meu sorriso uso como uma flor
meus braços são laços
envolvendo o homem
que nunca vou ser

SENTADO NO FUTURO


fui até o escuro e voltei
e foi tão pouco
eu não tinha pele
e senti o mundo
eu não tinha tempo
e fiquei mudo
sentei ao lado
do que pensei passado
ele recitou poemas
até o som
formar os loucos
ainda assim
foi tão pouco
loucos misturados com crianças
flores ao redor do canal

LEVANTE

fica mais difícil
a cada dia
conseguir levantar
todo dia
um sacrifício
sinto que alguma
parte do corpo
permanece na cama
e o restante continua
quase viva
quase vida
chegará o dia
em que ficará
todo o corpo na cama
e o mundo vai se levantar
e me cobrir

terça-feira, 16 de abril de 2013

ESPELHOS


se não há sorrisos para o espelho
melhor quebra-lo
o lago conhece o sorriso
da planta dos meus pés
sua tensão é superficial
o suficiente para o meu equilíbrio
caminho e enfio as asas
entre as nuvens
respiro o azul ao redor
o ar a água
o fogo desnecessário
incendeia o que ainda
está por vir


segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ÁGUA DO HOSPITAL

a água do hospital
tal qual um rio
corre em frente
a minha casa
seu leito
formado de plasma
ampolas barbitúricos
drágeas vencidas
comprimidos seringas
luvas frascos
sangue iodo
papeletas sonos
gemidos passos
de onde pesco absurdos
e guardo na geladeira
da minha insônia

O NOME DO CÃO

os cães atendem pelo nome
também alguns homens
fingem-se de mortos
aproveitam a distração dos cães
e arrancam suas presas
eu não queria
falar de mim agora
finjo-me de morto
talvez meu corpo
de homem ou cão
seja reconhecido pelas presas
que mostro nas palavras
e em cada gota de saliva
minha raiva

TERCEIRO DENTE

acabei de perder um dente
o terceiro essa semana
caem os dentes cabelos
pelos e os dedos
só não caem os medos

sexta-feira, 12 de abril de 2013

UM SER HUMANO

um ser humano
retalhou o corpo de uma menina
usou seu pênis
um ser humano
com deus pendurado no pescoço
roeu a dor da menina até o osso
um ser humano
usou as cordas vocais
para amarrar os gritos da menina
usou suas tripas
para amarrar os braços da menina
um ser humano
escondeu-se no escuro
pensando não ser observado
mas está aqui neste poema
rodeado de seres humanos
por todos os lados

BILHETE SUICIDA

acordava todas as noites
e escrevia um bilhete suicida
até ontem

MORAR SOZINHO

nunca morei sozinho
por este motivo
meu coração
nunca vai parar de bater
sempre haverá alguém
escutando o pulsar
do meu coração
mesmo que ele
nem exista mais
sempre haverá alguém
escutando a minha voz
principalmente
quando ela fica parada
ouvindo o coração

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A NOITE AO REDOR

a noite cresce
ao redor da minha cabeça
e assim permanece
o dia todo
os tolos demonstram a dor
entoando baladas
eu simplesmente grito
sem usar palavras
quem decifrar meu grito
entenderá o infinito


ESPADA

não há espada
sem a língua
não há mágoa
sem a rima
rima à míngua
sem água
da língua
que lambe
a glande
da lágrima

terça-feira, 9 de abril de 2013

LABAREDO

eu quero ser claro
como um incêndio
mas não apago tanto
quanto me incluo
verto o momento
quando ardo
labaredo-me
apago a cinza
clara do fim
e ainda assim
mantenho-me
calmo

TROPEÇO

um sopro
quase erótico
e o prumo
das saias
cortaram as barras
mais ainda
o vento sem futuro
embrenhado
parecia uma floresta
teus cabelos
grudados no tempo
nos olhos do tempo
que me usou
como tropeço
para não ficar

SANGUE OBTUSO

sempre obtuso
é o sangue
mesmo o derramado
ou principalmente
um tratado sobre o corte
sem palavras
um gesto calmo
incoerente
com a força
necessária
sinto a parede
quando me choco
quando me cospem
após a morte

segunda-feira, 8 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

INSTALAÇÕES

a poesia instala
um terror menor
aproxima o leitor
de uma nova dor
uma nova maneira
de calar
transforma o espaço
vazio
num local
onde os passos
surgem das paredes

quinta-feira, 4 de abril de 2013

PARA SER PARAR

não era pra ser assim
mas é
e não dá pra saber
como seria
se assim não fosse
se é assim
e não dá pra parar
de ser
melhor
o ser parar

BUGANVÍLIAS

assim as buganvílias
escutaram
assim como as flores escutam
colorindo olhos que desconhecem
perfumando espaços
que nunca vão percorrer
entoando um sangue
que nunca vão perdoar
desejando uma pele
que não entendem
assim elas escutam
sons parecidos com palavras
formando objetos
roubados dos sonhos

quarta-feira, 3 de abril de 2013

NÃO


não o céu
a formiga carrega
o sol nas costas
não o mar
o sal carrega
o azul
não o sul
a sombra carrega
o ar
não aqui
além carrega
o olhar
não o ar
o som remete
o pulmão
não as flores
a chuva empurra
a primavera para
o canto da fala
não a poesia
o espanto crava
esse canto
e se acaba

TAXIDERMIA

seu coração não tem nada
disse o taxidermista
e retirando as palhas
da minha alma
preencheu a minha vista

segunda-feira, 1 de abril de 2013

D'ILHA

não lembro quando
recolheram o meu corpo
nem se houve esse gesto
nem sinto solidão
nem abandonado
sinto-me um homem
cercado de terra
por todos os lados

TUDO VAI MUDAR

queremos que tudo mude
mas tudo não comporta os nossos desejos
então desejamos o que podemos realizar
desejamos que a areia não escape das nossas mãos
que o deserto alcance a cidade
e a água que mata a nossa sede
assista à morte lenda das flores no jardim
queremos que o sangue permaneça
prisioneiro para sempre da nossa entranha
desejamos que o amor que se esvai por esse corte
tenha um rápido tempo de coagulação
queremos que o olhar do outro nos revele
e queremos que todos permaneçam cegos