sexta-feira, 31 de maio de 2013

MORRER POR AQUI

ninguém quer
morrer por ali
prefere por cá
um lugar
onde a alma
pensa existir
ninguém quer
morrer por aqui
prefere por lá
em algum lugar
onde o corpo
não precisa
existir

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DIMINUINDO A PAISAGEM

os sentimentos que me viam
cavaram minha ausência
como se arrancando a minha pele
diminuísse a paisagem
dentro do saco de músculos
os ossos provocam um barulho ensurdecedor
talvez por isso o mundo nunca durma
e deixe para mim
todos os seus sonhos

CORPOS TRISTES

o movimento no quadro
não mostra o momento
em que arrancaram os pregos
há o sangue as chagas
a dor estampada
permaneço mudo
gesticulo palavras
evito movimentos bruscos da boca
cuspo os pregos antes de sorrir

terça-feira, 28 de maio de 2013

FICHA DENTÁRIA

na minha ficha dentária
não constam sorrisos
talvez por isso
meus dentes flutuem
em cada pingo da chuva
repousam no meio-fio
como os ossos de um cão
que ao se coçar
provoca tremores no inverno
na minha ficha dentária
não constam mordidas
talvez por isso
minha fome escape
das chaminés das olarias
formando desenhos exatos
ao repousar entre
as árvores que o barro
forma ao se tocar

CAMARIM


o sol retocou a maquiagem
diante da poça
retirou-se
agora a noite

O TEMPO ROMPEU A MANHÃ

como se não houvesse
nenhuma ligação com o vento
o tempo rompeu a manhã
com o melhor do seu rosto
o olho
pendurado no centro de tudo
como se enxergasse
guiou o dia até onde
parecia o final

segunda-feira, 27 de maio de 2013

ONDAS AMARELAS

o céu
mais leve que o mar
reflete o azul
mais que o ar
engole ondas amarelas
que ninguém
consegue enxergar

sexta-feira, 24 de maio de 2013

RECEPTADOR

o poeta
é um receptador de silêncios
paga qualquer preço
paga inclusive
em poemas

PROCURAREI SORRIR

procurarei sorrir quando vierem
talvez amenize a minha culpa
não importa o modo
tenho certeza que será doloroso
mesmo assim permanecerei sorrindo
assim os loucos recebem as dores
regam flores imaginárias no vaso sanitário
adotam pássaros bordados
entre o olhar e as nuvens
procurarei sorrir mesmo que não cheguem
nunca se sabe quando transferem nossos ossos
sabemos da direção do vento
pelo modo como nossa pele se move no varal
pelo medo que nos move
procurarei sorrir

A CHUVA

a morte é como uma chuva
que nos surpreende
antes que alcancemos os abrigos
e mesmo que tentemos correr
nossos pés estarão presos na lama
e as nossas roupas
mesmo encharcadas
não colarão em nossos corpos

quinta-feira, 23 de maio de 2013

ABORRECIMENTOS

o mundo tem me aborrecido fácil
talvez eu deva cortar os cabelos
entre as alamedas sob o sol
misturado às folhas
parecerei agasalhado
minhas asas sob o terno
empurrando meu pulmão
contra as palavras
todas elas inúteis
como os aborrecimentos
que guardo nos bolsos
palavras aborrecimentos
as sombras dos pássaros
sobre a minha cabeça
tudo ao meu redor
parece uma grande brincadeira
mas só me permitem ser criança
se eu for morar num hospício
prefiro fingir que sou adulto
criando meu hospício de palavras

PAISAGENS MOVEDIÇAS

às vezes as paisagens movem-se
como se os meus olhos estivessem caindo
e ao caminhar eu tropeçasse neles
e os chutasse para bem mais perto das paisagens
e sentisse que as pontas dos meus pés
buscassem fazer parte de alguma paisagem
fora do alcance dos meus olhos

FLORES NO DESERTO

dizem que os poetas
enxergam flores num deserto
antes que as nuvens formem homens
antes que o suor sufoque o mar
antes que o ar procure luz
antes que a areia alague as sombras
eu não enxergo flores no deserto
meus olhos vivem mortos na poesia
meu corpo foge
quando a alma está por perto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A POESIA NÃO SERVE PARA NADA (RECITATIVO)

não se preocupe
mesmo sem certeza vai ser assim
não pense que pensar vai mudar alguma coisa
não pense
não se iluda com a curva do relógio
o tempo tem um ponto bem no meio

não se preocupe
continue administrando os ossos sob a tua pele
administre o sangue sob a tua pele
enquanto isso alguém adestra a tua alma
e o coração é apenas um músculo
que te ensina a pensar em segredo

a poesia não serve pra nada
a poesia não apaga incêndios
não grita quando está ferida
não sabe os gestos das árvores
não ergue homens nem afaga
a poesia não aparece nem quando o silêncio cresce
a poesia deveria estar aqui
mas só restaram as palavras

terça-feira, 21 de maio de 2013

REVERBERADA FONTE


fonte
a areia que cresce
até formar um monte
uso água na escalada
o mundo não desce
quase nada
o suficiente para mostrar-se
estranho
no cume como o ar
do meu tamanho

MINHA TESTA

minha testa
paralela ao sol
forma uma sombra
no meu pensamento
havia um poema lá dentro
agora está preso na página
amordaçado por outra página
pensamento quando for lido
outro momento de entendimento
outra maneira de tornar-se lento
minha testa
pendurada na cabeça
forma uma fresta
por onde o mundo se esvai

DIAS SEM SOL

mais que a perda apareça
mais que a vida pereça
mesmo que não haja
onde formar mais cascas
a pele vai dar um jeito
e vai postar-se diante da faca
da melhor maneira possível
inúteis vão ser os gritos
os pedidos os gemidos
e por mais que pareça ruim
a vida nunca tem fim

PUNHAL

o amor
não teme o coração
porque antes do coração
há o peito
antes do peito
há um punhal
e o punhal sabe
que o sangue do amor
não tem cor
e solene enche
o campo cavernoso
da dor

O SILÊNCIO

o silêncio
é a parte mais quente
do meu corpo
depois de morto
as palavras que ele exala
vai formando aos poucos
madrugadas
do tamanho de nada

segunda-feira, 20 de maio de 2013

OS ASCETAS

os ascetas culpam as pedras
porque com elas se confundem
eu não vejo culpa nem como perdoar
às pedras joguei-me várias vezes
nunca recebi carícias
à poesia já mostrei minhas garras
meu escarro meu engasgo
nunca recebi notícias
os poetas culpam as perdas
porque com elas se fundem

ENTRADA

inferno
de vez em quando
chega um anjo
para saber que
nem tudo é brilho
ou que o seu significado
se revolve
para outro lado
o brilho do inferno
vem do fogo
e o encaixe das labaredas
forma um jogo
mais moderno
inferno
sinto a mão na maçaneta
feita com meus ossos

quinta-feira, 16 de maio de 2013

PÓ E POESIA

de repente
a visão vai escurecer
mas você nem vai perceber
a respiração vai parar
mas você nem vai se esforçar
o coração vai parar de bater
e você nem vai notar
seu corpo vai começar a apodrecer
mas não se preocupe
antes disso
alguém vai guardá-lo numa caixa
e depois em algum buraco
sem que você faça nenhum esforço
os higiênicos vão queimá-lo
e aí sim você vai tornar ao pó
quanto à alma
se fizer parte do seu pensamento
vai se misturar a poeira
e devidamente filtrada
vai se incorporar à paisagem
misturada ao gás do dia
se não fizer parte do seu pensamento
vai virar poesia

BORDADO

o tempo o modo
o mundo
descostura tudo
enquanto isso
o passarinho
no seu canto
borda com seu bico
mais um dia

terça-feira, 14 de maio de 2013

POEMA FORTE

algum dia
qualquer poema será forte
e nem precisará ser escrito
bastará pensar um poema
e ele funcionará como um grito

segunda-feira, 13 de maio de 2013

DIA DAS MÃES DOUS

lembro bem
quando perdi os braços
estava num ventre
era escuro e quente
como sangue
urina e gente
algumas mães enfileiradas
esperam meus cumprimentos
meneio a cabeça
e ela desaba
massa encefálica e flores
se misturam
as mães recolhem a
massa encefálica
e a esconde sob os tapetes
separam as flores
entendem apesar do sangue
que é uma espécie de carinho

DIA DAS MÃES HUM

a última vez que vi minha mãe
ela não me dirigiu o olhar
seus olhos estavam perdidos
entre alguma árvore
e o muro do hospício
imaginava um salto imaginário
a partir de algum galho
imaginava a razão
da necessidade de razão
para não estar ali
entendi seu peso
e o carrego nas costas
de cada poema

sexta-feira, 10 de maio de 2013

JANELA DO MUNDO

o mundo espia o outro lado
pela janela
descobre quem está por aqui
debruçado comendo o tempo
o mundo não sente o mundo
nem quem se debruça
pensando que o assiste
o mundo espia
com seu olho inútil
encontra outros olhares inúteis
a janela liga paisagens
inexpressivas

NOVOS ERROS

do leite derramado
é que bebemos
lambemos sem chorarmos
chupamos do chão o enxuto
guardamos na língua o insulto
sabemos que os pés discordam
dos caminhos percorridos
mas não desviam
discordam dos sapatos
mas não os descalçam
estamos putos estamos passados
com tudo
e com nossos antepassados
não vamos repetir os erros
vamos reinventá-los

terça-feira, 7 de maio de 2013

CABEÇA E PENSAMENTO

um pensamento é melhor do que a cabeça
eu disse isso sem pensar
sem a cabeça não haveria o pensamento
devo ter perdido a cabeça
e se perdi a cabeça só sobrou o pensamento
mas o pensamento sem cabeça não existe
e a cabeça sem o pensamento pode existir
se é que o pensamento é coisa da cabeça
talvez esteja do lado de fora
e a cabeça capture usando a distração como isca
talvez nem exista a cabeça
tudo isso seja apenas pensamento
a cabeça pregada no corpo
o corpo pregado no mundo
pensando que existe
uma cabeça que pensa que existe

DIANTE DO ESPELHO

o sonho diante do espelho
a superfície move o som
e o transforma em realidade
parecia uma música
apenas dormia
a respiração fabricava outros sonhos
onde o oxigênio exigia
a presença de algo
parecido com o reflexo

OUTRA ÁGUA

mesmo totalmente
mergulhada na água
ainda assim
não fica molhada
a morte
impermeabiliza
o modo de olhar
tem a sua água
particular
ao nos retirar
deste lugar

segunda-feira, 6 de maio de 2013

POÇO

unhas no fundo do poço
as asas do escuro acomodam-se
voar requer abismos
num fundo impossível
o poço é poeira
no meio das entranhas
lá dentro é que mora o estio
a garganta onde o vento avança
lá dentro do bem dentro
tão dentro que o fora
o ignora

sexta-feira, 3 de maio de 2013

JUNTANDO OS CACOS


não adianta juntar os cacos
sempre vai faltar algum para completar o espaço
nem adianta substituir o objeto destroçado
outro igual não quer dizer o mesmo
havia o uso
havia o olhar colado à superfície
agora destroçado entre os cacos
melhor aproveitar o que sobrou de espaço
dar por perdido o que era antes
adquirir o vazio como um objeto
deixar o olhar perdido
o perdido gesto

quinta-feira, 2 de maio de 2013

SOBRE O FUNCIONAMENTO DA POESIA

a poesia funciona assim
uma peneira sob a vida
e por mais que ela seja sacudida
tudo passa para o outro lado
nada sobra por inteiro
nem o cheiro
funciona assim
como um pássaro
peneira a chuva
com o seu canto