segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A ÚLTIMA DO ANO

a última do ano
a última lágrima do ano
a última carta
a última tapa do ano
a última foda
a última moda
a última lembrança do ano
a última esperança
a última peça do ano
a última dança
a última poesia do ano
a última agonia
a última terapia
a última fala
a última bala
a última morte do ano
a última sorte
a última ação
a última aparição
a última atração
a última vaga do ano
a última mágoa
a última flor do ano
a última dor
a última cor
a última salva
a última trava
a última palavra

CASA SEM JANELAS

enquanto caminho
ouço o barulho das palavras
elas estão soltas
entre a minha pele e a tarde
estão me contando
as minhas partes
em ordem decrescente
temo pelo meu começo
canto alto
espero atrapalhar a contagem
ou promover um ódio
que não vai me prejudicar em nada
nenhum sentimento me prejudica
estou do lado de fora
e não sei como entrar

PURGATÓRIO

quem come céus
caga nuvens
quem come som
caga música
quem come palavras
caga poesia
quem come gente
caga almas
quem come flores
caga a primavera
quem come chuva
caga enxurrada
quem come silêncio
caga solidão
quem come azul
caga o céu
quem come luz
caga o sol
quem come cantos
caga passarinhos
quem come ódio
caga sozinho

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

MALABARISMO


utilizo malabarismos
para manter meu corpo no mundo
estico a pele sobre o abismo
movo um poro por segundo
arrasto do infinitivo um laço
parecido com um passo
e movo tudo
que me deixa mudo

ESCADA

a escada avisou
tem hora de subir
tem hora de cair
tem hora de ser
inclinado
dobrado
com o peso nas costas
a escada avisou
tem hora de pensar
que agora existe a hora
de pensar que existe escada

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

DISPARO

às vezes meu coração dispara
por motivos desconhecidos
ou meu coração dispara
no mesmo momento
em que alguns pensamentos
fazem disparar o meu coração
ou em algum momento
os dois disparam ao mesmo tempo
e nunca acertam o alvo

QUASE UM POEMA DE NATAL

procuro no escuro
onde está guardada
a estrela apagada
talvez esteja pendurada
em alguma árvore falsificada
talvez esteja gotejando
em alguma nuvem por dentro
talvez esteja guiando
compradores para o centro
talvez esteja criando
algum mês enganado
onde os dias nunca se acabem
onde as horas não se desmanchem
onde os homens não se reconheçam
e se mantenham sempre no escuro
onde a estrela apagada
permanece inalterada
esperando que algum idiota
comece a procurá-la

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DESABAMENTO

a sensação de desabamento
por dentro
me deixa sem base
caminhar requer
uma força que não entendo
os passos são pétalas
de uma flor
que ainda vai nascer
ficar significa
um amontoar de dores
das quais
sou o principal causador
desabo aos poucos
aproveito e enfeito
as quedas com palavras

A MORTE COMO PRIORIDADE

a morte não é minha prioridade
acredito que não seja
da maioria das pessoas
talvez seja prioridade
para alguns suicidas
ou para alguns poetas
o que não é o meu caso
como a morte não é minha prioridade
não tenho que ficar falando sobre isso
é um tema mórbido
triste e decididamente sem futuro
mas já que toquei no assunto
e um dia ela vai tocar em mim
não haverá mais nada o que fazer
nem preocupação
nenhuma dívida ou dádiva
nem haverá mais nenhum ar
para respirar

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

SOBRE PISAR NAS FORMIGAS

aprendi com as formigas
a nunca olhar para trás
pura perda de tempo
faz-se a curva
e procura-se outro caminho
cava-se na esperança
de encontrar o fim
mesmo escuro ainda
o esmagamento
sempre vem por cima

ACONTECIMENTO

isso que acontece
entre a página e a palavra
esse frio
quase imperceptível
que penetra por dentro
do osso
do pensamento
e o equipara
a qualquer movimento
entre o desejo
e o espelho

O SORRISO DO MORTO

por mais organizado
que seja o morto
sempre fica algo solto
organizar o próprio funeral
por exemplo
não vai dar tempo
sempre vão escolher
as flores erradas
as roupas erradas
o modo errado
de se livrar do corpo
ao morto não cabe
nem sorrir

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

ENGARRAFAMENTOS

o sangue parou de correr
nas minhas veias
mas já enfrentei engarrafamentos
piores do que esse
quando a minha alma
parou de correr entre as flores
ou quando o vendaval
não afagou minhas dores
água parada
ou sangue parado
não faz diferença
quando só se tem
a palavra como referência

LICENÇA POÉTICA

a poesia permite tudo
inclusive isso
fora isso
nada é permitido

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

BELIGERÂNCIA

sento diante do adversário
a palavra diálogo se coloca entre nós
e forma uma nuvem densa
repleta de ossos e sangue
não nos enxergamos
retiramos os corpos do lugar

RAIZ

não sentir-se na multidão
sentir-se um desmanchar entre as pessoas
caminhar igual a uma parede
repleta de prumos e sede
curvar o passo antes do toque no chão
raiz enlouquecida
que tenta respirar por dentro da terra
e não se enxerga
estende a mão para o alto
até formar uma árvore

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PRODUTOS DA IMAGINAÇÃO

as cores
assim como as palavras
são produtos da nossa imaginação
como também são produtos da nossa imaginação
a morte o medo e todos os sentimentos
tudo que escrevo
é produto da minha imaginação
como também nesse momento
sou produto da imaginação de alguém

EXPELIDO


minha cama me rejeita
da sua boca fico pendurado
como parte de uma saliva
mal cuspida
agarrado ao sonho
sou expelido para fora da vida

O PIOR AINDA ESTÁ POR VIR

a morte enfim
o pior ainda
está por vir
nada de luz
ou anjo ou caminho
nada de repouso
apenas escuridão
dor sem nome
solidão em dobro
a sensação de imobilidade
de incapacidade de sentir
inclusive medo

A QUALIDADE DO SANGUE

a qualidade do sangue
não interfere nas pessoas
nem as pessoas interferem
na qualidade do sangue
o que importa no sangue é o tipo
não importa para que tipo de pessoa
mas certos tipos de pessoas
não merecem nenhum tipo de sangue
nem o sangue de qualquer tipo
merece fazer parte de certos tipos de pessoas
a qualidade das pessoas
não interfere na qualidade do sangue
seja qual for o tipo o sangue age
independente do tipo da pessoa
o sangue tem cor
mas não tem sentimento
se o sangue agisse
conforme o tipo da pessoa
e não conforme o seu tipo
não teria muito tempo pra correr
entraria mudo e assim ficaria
até calar quem deveria

RESPIRO

sufocado pelos sonhos
procuro ar de qualquer tamanho
uma bolha numa folha
qualquer sopro me salva
solto ar pelas palavras
embaço meus olhos
minha fala

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

COMOÇÃO

mergulhei no corredor da comoção
à procura de alguma poesia
não tenho nada no coração
nem sangue
nem alguma forma de pisar
que forme algo parecido com um passo
arrasto o meu corpo com o auxilio do não
e o silêncio é o único lugar
onde consigo me alcançar

CAFÉ DA MANHÃ DO CAVALO

cercado de capins e com fome
solto na manhã antes do sol
abocanha a refeição e a arrasta com força
mastiga e rumina
seu pensamento e a comida
misturam-se com o cheiro de tudo
que a manhã exala
o sol nem vai estar nas suas costas
quando parar de comer
nem vai estar seu pensamento
alguém vai direcionar o seu caminho
montá-lo ou prendê-lo a algum veículo
a exemplo do poeta
alguém vai pensar em seu lugar

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A PROPÓSITO DE QUEDAS

durante o recolhimento dos meus ossos
senti o olhar interrogador do público
queriam respostas ao desmantelamento
afogado numa poça de sangue
terminei os procedimentos
e limpei as mãos nas sobras das roupas
ou em algo parecido com elas
expliquei o mundo visto do espaço
e a súbita aproximação da terra
interrompendo o voo
e a possibilidade de transformação da dor
em algo parecido com a poesia
poucos entenderam isso
querem beleza onde não existe
então me espreguicei e contorci meu corpo
o máximo possível
tentei me transformar numa flor
mas só consegui isso

MEDIOCRIDADE


de vez em quando
a mediocridade me dá uns solavancos
me vejo escrevendo sozinho
lendo sozinho o que escrevo
destruindo sozinho o que li
resolvi essa parte da minha vida
agora penduro palavras
em paredes que serão demolidas

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

SOBRE NUVENS


do alto
mesmo reconhecendo a inutilidade
das asas desenhadas em nossas costas
contemplamos as nuvens
suspensas por fios invisíveis aos nossos olhos
nos ensinam a precariedade do espaço
do alto
parecem pobres
mas espalham suas riquezas em formas azuis
parecem podres
mas exibem seus músculos claros
ao erguer os nossos corpos
antes da queda

POSIÇÃO DOS BRAÇOS

posiciono meus braços
por dentro do corpo
coço a minha alma
onde posso
ouço onde movo
meus ossos
movo o que posso
meu ócio
alcanço o que coço
em sentido contrário
meu corpo por dentro
do meu braço
sufoco minha alma
num abraço

CHUVA NO TELHADO

não ouço mais
a chuva no telhado
nem sinto o seu cheiro
lembro de um antigo filme
onde eu era um figurante
ao fundo quase apagado
soltando um barquinho de papel no córrego
o barulho da chuva me fazia protagonista
hoje sou apenas mais um figurante sem telhado

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

DENTES DE AÇO

cuido dos meus dentes
ou troco de carro?
a infecção num dente
pode se espalhar por todo o corpo
um carro quebrado
pode infeccionar toda a cidade
melhor trocar de carro
e chegar ao dentista
no horário

PEDRAS AO AR


pedras suspensas me preocupam
se estão no ar
algum buraco afastou parte da terra
ou a terra soprou
por algum motivo
as pedras no ar
ocupam o meu lugar

QUERO SILÊNCIO

não me estraguem com palavras
se querem me estragar
tragam silêncios
de preferência
repletos de ruídos
costurados por dentro
apenso uma faca cega
e pouco tempo

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

ABRIGADO

abrigo-me na sombra
formada pela chuva
antes de cair
o sol guardado no meu bolso
queima meu testículo esquerdo
pareço ter medo
mas permaneço imóvel
sob a marquise
transpirando uma ideia
maior que o dia

O SEXO DE HILDA HILST


se havia uma flor
sobre o sexo de Hilda Hilst
ela nunca vai saber
mas nada disso vai mudar o poema
nem a maneira pela qual
decidi viver

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

DEPOIS DA PALESTRA

perguntaram-me sobre a palestra
declinei da demonstração
insistiram na verdade
eu ainda estava a me recuperar dos sustos
palavras gestos olhos que nunca vi
então resolvi discorrer sobre o assunto
não sem uma certa eloquência
e menos brilho que a ocasião real
pareceu pedantismo
usar todo aquele aparato na resposta
mas era o que podia fazer naquele momento
como também nada foi entendido
como deve ser toda palestra
no momento exato em que acontece
e depois ao discorrer sobre
o mesmo assunto

À BEIRA DO ESPELHO

sento à beira do espelho
na esperança de me ausentar
procuro um abismo que me comporte
minhas pernas misturadas ao reflexo
insistem em me puxar

PEIXE FORA D'ÁGUA

os peixes que sabem
que pertencem a alguém
dobram a água de modo diferente
e a guarda em alguma gaveta atrás do sonho
mas nunca dormem

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ALTURA DO OSSO

queria ser triste
para isso é preciso coração e pele
duas coisas que não tenho
meu arrepio funciona
na altura do osso
meu sangue circula
sem bombeamento
queria ser triste
mas a vida
é mais absurda do que isso
apenas pareço

PUREZA

resolvi tornar-me puro
fico perto das palavras
e longe das pessoas

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

POÉTICA 12


sinto grandes dificuldades
em pronunciar certas palavras
estas por exemplo
prefiro escrevê-las

QUATRO PILHAS

farmácia também vende pilha
comprei um conjunto com quatro
resolvi engolir em dose única
assumi o risco da superdosagem
a primeira foi difícil engolir
as outras três desceram mais fácil
passo o dia engolindo
coisas desagradáveis
engulo o dia
por exemplo
o dia que não me cabe

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

INCISO

muitas coisas
foram retiradas
outras ficaram por dentro
algumas retiradas
foram identificadas
outras não
as que ficaram por dentro
desconhecidas como o lado de dentro
ficaram por dentro
melhor abrir tudo
melhor não esperar cicatrizar

DEZEMBRO

troquei a codeína
pela cocaína
os sonhos não me protegem
melhor manter-me aceso
roçando a cabeça nos pavios
dezembro chegou antes da hora
desorganizou a madrugada
como se soubesse mentir
respiro com menos dificuldade
do que vivo
finjo que bocejo para enganar a tarde
a noite cai aos pedaços
nunca recebo a melhor parte

FUGA PRIMEIRO MOVIMENTO

quase no fim
a vida te arrasta de volta
as dores nem começaram
apenas os cortes
ainda sem sangue
o corte apenas sem dores nem sangue
lâmina que só um poema pode conter

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

FELICIDADE

estava quase na mão
que foi levada

TRAMBOLHO

arrasto o meu corpo
com grande dificuldade
para fora da solidão
mas a minha alma
permanece por lá

SAL DO MEU OLHO

a chuva de domingo
retirou o sal do meu olho
e as pegadas que deixei
entre as perdas
colinas estragadas pelo sonho
carregadas de dunas
parecidas comigo
mais salgadas
mais brancas
mais longínquas