segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

RECITANDO PARA O NERVO


a boca abre
porque não cabe
todas as palavras
todos os mortos
foram integrados ao mundo
de alguma maneira
e hoje fazem parte
de alguma palavra
os mortos não cabem na boca
parecem palavras
que precisam ser ditas
algumas são ouvidas
como se estivessem vivas
algumas são esquecidas
como se estivessem mortas


NA PAREDE

pouco se prega na parede
sem que haja um furo
preguei minha alma e uma lágrima
a primeira secou primeiro


A ÁRVORE ENSANGUENTADA

a árvore ensanguentada e o seu grito
ocupam um canto da rua
do outro lado
homens e lagartos
rastejam sem pestanejar
o céu corta a tarde
com um azul inocente
repleto de nuvens maldosas
aviões carregam o silêncio para o lado perigoso
repleto de pessoas com medo e com música
formigas enfileiram passos domesticados
carregam o mundo em cada folha em cada falha
para onde vai o mundo e onde ele nos vai deixar
ninguém entende se o que a árvore grita é de verdade


O POEMA ABANDONADO

o poema abandonado
procura a beira da página
e se projeta
como se fosse um corpo
e sofre a queda e agoniza
e é enterrado e esquecido
como se fosse um morto


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

REUNIÃO

o poema está pronto
o poeta ainda não
as palavras não sabem o que é terminar
o silêncio não sabe o que é saber
estão todos aqui reunidos


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FALA SECO

a carne quer ser seca
onde não alcança
igual quando se fala
a sombra abaixo da palavra
nunca se entala


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CHEGA DE ENTENDIMENTO

agora não quero mais
ser entendido
compartilho o que sinto
e o que movo
são repartidos os ritos
os momentos e os lentos
palavras explodem
iguais ao silêncio
estilhaços cortam
da mesma forma


BAGAGEM

a neve quebrou
durante a viagem
mas não precisei
pagar por isso
o céu que era colorido
agora é só passagem


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PREVISÍVEIS


a fumaça passa
na mesma altura da nuvem
eu não alcanço
o que mordo quando o meu dente convém
as marcas me deixam como mágoas
ao falar com gestos invisíveis
sem esperança de ser escutado
pesa no meu bolso
tudo que deixei de fazer
construo o fogo de labaredas invisíveis
descarno a dor
e seus bueiros previsíveis

LÍNGUA FALO

empurro a língua
contra a outra
a língua noutra boca
falo palavras do outro
língua ou falo
falo na língua
não outra língua
boiando no cuspe
da outra boca
falo que explode
outro líquido
palavra de água
esperma ou cuspe
falo outra língua
acho palavras
falo que acho
falo que encaixo

QUANTAS PESSOAS


para o amor
não sei quantas pessoas
para a dor
mais ainda
não sei contar
para outras coisas
mas sei que são muitas

AO REDOR DA TERRA

o olho escorre pelo pátio
e não encontra o que ver
recolhe-se à órbita
dá uma volta ao redor da terra
pensa que é um planeta desabitado
espera ansioso algum explorador


QUEM VAI QUERER UM ABISMO


ande devagar
nunca se sabe
quando o chão vai abrir
nunca se sabe
quem vai querer um abismo
então corra



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PENA DE AVIÃO


as asas do avião
batem em câmera lenta
tão devagar
quase não dá
pra perceber
as penas das asas
misturadas com as nuvens


COLEÇÕES

meu vizinho
coleciona passarinhos
em gaiolas
a sua esposa
pela rua
coleciona esmolas
eu coleciono
cigarros fumados
no pulmão esquerdo
no direito não dá tempo
coleciono ventos
meu pai
colecionava hortas
nos dentes das lagartas
minha mãe
colecionava haloperidol
no urinol
meu irmãos
colecionam demências
o mundo
coleciona ausências




CANTANDO BAIXINHO

canto bem baixinho
tão baixinho
só pra terra ouvir
mas a terra é surda
e passa por mim
e me deixou aqui
cantando sozinho
bem baixinho
nem eu consigo ouvir
desconfio que já
nem estou cantando
estou só pensando
que estou cantando
bem baixinho
bem baixinho
baixinho



domingo, 23 de novembro de 2014

PLASTICIDADE DE BRASÍLIA

as árvores de Brasília são de plástico
todos os gramados também são de plástico
algumas pessoas de Brasília são de plástico
como são de plástico os prédios
o asfalto e outros objetos
escrever sobre Brasília
é menos poesia e mais inclinação
existe grande probabilidade
que um dia Brasília se torne uma cidade
por enquanto é apenas uma situação


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

CÉUS DUBLINENSES

o céu de Dublin
ligou-se a mim
por uma chuva
não tem sal
na lágrima do céu
que escorre pelo meu corpo
como se eu fosse um rosto

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

POUSO DA LIBÉLULA


a luz que se desprende da tarde
forma um rio iluminado
eu só sei nadar no escuro
bebi a luz até me safar
pendurei meus pulmões no varal
descansei meu corpo
igual a uma libélula pousada
no casco do cavalo


terça-feira, 18 de novembro de 2014

CÉU PORTUGUÊS

as nuvens portuguesas
nem sabem que são portuguesas
nem sabem que sobrevoam
nem sabem que não sabem
lembram meu olhar
um pouco mais acima
que nem sabe que é um olhar
nem sabe que é meu
nem sabe que está um pouco acima
parece misturado com a nuvem
como se fossem únicos
meu olhar da altura das nuvens
afasta o mundo
ao mover suas asas

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

SOBRE A ORIGINALIDADE

todo mundo escreve parecido
com o mundo
estou restrito a este idioma
quase nunca sou entendido
preciso explicar para o surdo
para o marciano e para os intrusos
fazer leituras silenciosas
para os cegos
preciso implicar com o silêncio
provocar danos no espaço
preciso ser preciso quando erro
e sempre errado quando acerto
escrevo parecido comigo
quando estou ausente
escrevo parecido com o que fico
quando estou bem longe
todo mundo escreve parecido comigo
quando estou fingindo que sou mundo


ÁLGEBRA

minha álgebra não é linear
o que parece fundo
é apenas um número primo que se afoga
e deixa de fora essa vontade pendurada
de nem ser parente
ser gente
que nos carrega para o cálculo
sem solução aparente


SOBRE O QUE EU FALEI ONTEM À TARDE

porque estou vivo
não quer dizer que eu mereça
além da vida ganhei outras coisas
que não podia carregar
e nem merecia
palavras que me inscreveram
em paredes carregadas
não me entenderam
preferiram as paredes
e o melhor modo
de derrubá-las


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

MORRERSER

o corpo que morre
não envelhece
envelhecer não é morrer
é apenas trazer a morte
pra mais perto
morrer não é envelhecer
é apenas evitar
que a velhice se aproxime


terça-feira, 11 de novembro de 2014

SEMOVENTES


da janela do trem
o tempo nos vê passar
parados na estação
observamos o tempo passar
quando na verdade
é apenas o trem que se move


QUANDO LEVANTA A MINHA SAIA

hormônios levantam a minha saia
a uma altura que o vento não alcança
eu já tive um coração que desistiu de mim
em seu lugar ergui um castelo
feito de cimento armado e tédio
minha saia levantada parece um mastro
que engoliu a bandeira
e nunca aprendeu a tremular


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DINHEIRO

comprei biscoitos
um bilhete
um espaço
pedi o escuro de troco
não coube no meu bolso


VOLTAR

a parede me olha
a luz me olha
como se eu estivesse ali
ainda não sei como voltar
talvez quando eu descobri aonde cheguei
olhe para a parede
olhe para a luz
e nunca me veja


INSONE

o sol se põe
ou se esconde
ainda não sei
a noite me cobre
como um lençol
repleto de furos
remendo com meus sonhos


PÁTIO DO MEDO

no meio
do pátio do medo
furei a coragem
bem no olho
interrompi a miragem
desencadeei esse sopro
mais de água que de ar
escorri pelo buraco do olho
juntamente com o lugar


EDITAL DE OCUPAÇÃO DE ESPAÇO

a secretaria de segurança pública
torna público que o espaço
ocupado pelo meu corpo
neste momento está vago
não havendo nenhuma perspectiva
em curto médio ou longo prazo
de reversão do acontecimento
sendo declarado com isso
a vacância do espaço ocupado
pelo referido corpo
os motivos da desocupação
ainda são ignorados
e no momento não vai alterar
este comunicado
informa ainda esta secretaria
que os candidatos aptos
para a ocupação do espaço
deixado pelo meu corpo
precisam passar pelos
procedimentos legais
estabelecidos por esta secretaria
desde a livre e espontânea vontade
de ocupação do espaço
até a maneira como este
deverá ser ocupado
convém ressaltar
a necessidade da absoluta
autonomia em relação
ao ocupante anterior
visto que foi excluído do referido local
por motivos que ora não são relevantes
mas que precisam ser evitados
a repetição de gestos palavras pensamentos
e demais características que impossibilitaram
a permanência do ocupante anterior
deve ser terminantemente evitada
tornando iminente a eliminação do novo ocupante
comunicamos ainda
que os candidatos ao espaço ocupado
desde que habilitados numa primeira seleção
serão informados evidentemente
de todas as regalias e principalmente
de todas as proibições
inerentes ao espaço
todas as dúvidas objeções
defecções e admoestações
passíveis e possíveis
serão dirimidas
por esta secretaria
fica estabelecido o prazo
de vinte e quatro horas
para que os candidatos à vaga
apresentem suas propostas
no endereço anexo
ao presente comunicado





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

MOTOR DO MAR

o motor do mar
é feito de ar
seu combustível azul
explode espumas na praia
quando quer ser sal
ou ser água
o mar se curva
e deságua
como se sonhasse
pelo lado de fora


FALÉSIAS RECIFENSES

as falésias da praia de boa viagem
são os edifícios
os olhos das falésias
enxergam o mar
mas não enxergam o mundo
aos poucos
a maresia vai comendo
as engrenagens do espírito



CAFÉ SOLÚVEL


enquanto meus pais se dissolvem
durante o café da manhã
 e os meus irmãos
disputam espaço com as flores no jardim
eu recolho os cacos
que sobrou da minha alma
o pedaço maior
do tamanho do espaço
eu engulo
sem demonstrar que a conheço



terça-feira, 28 de outubro de 2014

BARULHO DE SAPATOS

alguns sapatos fazem barulho
outros não
o meu não tem motor
move porque se move
por acaso estou dentro dele
ou melhor
meus pés estão dentro dele
às vezes meu corpo acompanha
na maioria das vezes não
meu corpo fica longe
ouvindo barulhos de sapatos
podem ser os meus
ou os de outras pessoas
o meu não tem motor
ouço porque se move
ou é o barulho de outros objetos
e eu confundo com sapatos


PROTEGENDO CRIANÇAS

protegem crianças
com guarda-chuvas elétricos
mas esquecem de amá-las
a tomada do amor ficou perdida
entre as roupas da mala
o plugue do guarda-chuva é mais importante
e correm o risco na chuva
sem para-raios
pensam que protegem crianças
melhor deixá-las na chuva
cobertas de amor


terça-feira, 21 de outubro de 2014

POEMAS OTIMISTAS

detesto poemas otimistas
daqueles em que parece que a morte não existe
daqueles em que a dor é uma exceção
daqueles poemas que mencionam flores
como se elas não nascessem do estrume
daqueles em que a felicidade transborda
como se fosse um rio sem leito
detesto poemas otimistas
que não provoquem lágrimas de dor
ou preocupações com o mundo
detesto poemas iluminados
por luzes artificiais
irrigados por sangue de tipo incompatível
detesto poemas otimistas
que só conseguem ficar de pé
com o auxilio de muletas
detesto poemas otimistas
encharcados de perfumes baratos
ou levemente perfumados com perfumes caros
detesto poemas otimistas
que parecem estar sempre conversando conosco
mas não entendemos nenhuma palavra
detesto poemas otimistas
que tentam nos fazer rir
quando estamos sem dentes
que tentam nos fazer viver quando
estamos morrendo
que tentam nos fazer pensar
quando queremos apenas viver


PARADO PARADINHO


quem quiser correr
que vá por ali
eu vou ficar por aqui
parado paradinho
se o mundo quiser me pegar
que passe por aqui
se conseguir me alcançar



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

ESCADA

antes de subir a escada
pensei  em tudo que senti
pensei que senti
eu não senti nada
parei porque a escada
interrompeu meu pensamento
meu pensamento era igual
ao caminho que percorri
a escada abriu a minha cabeça
melhor pensar sem sentir

ENCRUZILHADA

o encontro era aqui
mas o momento não era
ficou o meu corpo
que se perdeu da palavra

O SILÊNCIO AO REDOR

então resolvi escrever algo simples
para confundir um pouco
quem espera complexidade
em algo que não deveria
ter nenhuma complexidade
interrompo o silêncio da página
mas deixo o silêncio ao redor
deixo no olhar de quem tiver coragem de olhar para cá
alguma esperança de que ao final desse texto
deste texto de este texto de esse texto de es
deste texto
haja algum pretexto
para que algo realmente simples seja escrito
e com isso não consiga promover
a tão propagada necessidade de complexidade
em algo que não deveria ter


REGRAS

regra não tem preço
parece comida
pendurada num adereço
no começo erra
depois não quis menos
agora retina inacabada
engole o tom
da cala magra
regra não tem começo
empalidece instruída
ventilada num apreço
ao final era
e sempre queria mais
afora cortina abalada
esfola o som
da mala traga


terça-feira, 14 de outubro de 2014

ESCAVAÇÕES


primeiro apodrece o umbigo
por último a alma
e entre um e outro
tentamos preservar
tudo que será morto
alinhavamos parcerias com o tempo
pensando que o silêncio
é a concordância do tempo
prolongamos uma existência
desnecessária
cavando nossa presença no mundo
cavamos com as mãos
sem saber que somos os grãos
do mundo que cava mais fundo

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

AJARDINADO

pendurado no mundo
não fico
mesmo se eu soubesse
onde o mundo
fica pendurado
estiro meu corpo
por todo lado
meu poro escancarado
meu modo meu medo meus males
criando raízes
meus pelos abertos
confundido com flores
de vez em quando arrancados
enfeitam vasos lapelas
festas tristezas
meu corpo arrancado
do lado errado
me torna mais forte
que uma sequela



POÇO

no fundo do poço
recolho meus ossos
sempre falta um pedaço


NA CABEÇA DA ESTÁTUA

um dia alguém vai dizer
que isso não foi suficiente
para mudar o mundo
eu tento fazer a minha parte
não deixando páginas em branco
procuro provocar
olhares mais generosos
do que as palavras merecem
por melhor que seja a palavra
o silêncio sempre provocará mais estragos
o que se passa na cabeça da estátua
ou na cabeça do homem
que esculpe a estátua
nenhum discurso vai chegar perto

ESCORREGANDO

não preciso tocar na vida
para provocar ondulações
basta respirar e a vida se abre
e me solta dentro dela
como bem entende
escorro parecendo água
e o meu corpo sem pele
vai deixando marcas
por onde passa


terça-feira, 30 de setembro de 2014

POR AQUI


mesmo que não acerte na veia
o sangue vai correr
a culpa o medo o ódio
tudo é muito vascularizado
pinças travas torniquetes
peças raras
nada evitaria o fundo
mais vermelho
o sangue vai correr
sem cansar
vai correr até entupir
o sangue vai te deixar
por aqui

SOLO

desdizer do sentido
pálido segredo
envolvido entre
o grito e o modo
do escrito
percorrer arenitos
coloridos sonhos
frouxos sobre
o silêncio e o solo
percorridos

REFLETORES

lembro dos refletores
pendurados nas árvores
todas as manhãs
antes de ir para o trabalho
os refletores pendurados nas árvores
a luz provocando o dia
e eu procurava entender
o que tudo isso queria dizer
como se a luz
ou as palavras
tivessem a obrigação
de dizer alguma coisa


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

POUCO MAIS

pouco mais que os meus pés
assim foram as palavras
atravessaram onde não deveriam atravessar
murmuraram o que não deveriam murmurar
tomaram  forma onde eu estava
tornaram-se meu lugar
as palavras não são mais eu
pouco mais que os meus pés
eu diria
se ainda estivesse aqui


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ANTES QUE ME CARREGUEM

sou mais belo
que a sombra
mas permaneço fraco
não temo a morte
porque tudo acaba em silêncio
o dia morre todos os dias
a noite morre antes
e a minha pele é frágil
não resiste ao sopro
à faca ao soco
sei que tudo será transportado
juntamente com o meu corpo
não sei pra que lado


terça-feira, 16 de setembro de 2014

LUZES NO JARDIM

flores fingem que brilham
quando estão sozinhas
eu fingi que brilhava
quando estava só
hoje sou uma flor
apagada num jardim


GUARDANDO CHUVAS

porque ainda não estou morto
não significa que devo participar de tudo
a tarde está carregada de entulhos
por toda parte
e nem por isso torna-se noite
a morte chove aos tubos
como a arte
e também por toda parte
e poucas pessoas enxugam
debalde o tempo se debate
nas teias de aranha do guarda-chuva
como se fosse a espuma
de uma onda numa praia


MANUAL DE SETEMBRO

o sol não sabe dizer
sua boca escura
não se enxerga daqui
cada sombra
abaixo das gotas da chuva
caminhos de artifícios
onde as flores se apresentam fechadas
podemos fazer as cores
basta comer o sentir

QUARTA RODA

meu carro tinha três rodas
a quarta era sonora
parecia espanto parecia clara
o som da quarta roda
levava o carro
para onde as outras três
nunca chegava


CANTO MISTURADO

colei minhas falas
na água fervente
onde o pássaro mergulha
minhas palavras seus cantos
um cheiro de algodão queimado
não sei se vejo a rima
não sei mais de que lado
esse pássaro escaldado
vai pingar seu canto misturado
às minhas falas


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ALGO PARA NÃO SER PUBLICADO


de uns dias para cá ou mais
não sei precisar exatamente
me vi perguntando por que permaneço
por aqui a escrever essas amenidades
ou outras palavras e frases mais duras
para que acordem para algumas coisas
que tento dizer
e para isso utilizo coisas fúteis
como as palavras ou piores
como as ideias
e não vejo como consigo formar
ou palavras ou frases
que possam trazer alguma contribuição
para o panorama geral da nossa
literatura em língua portuguesa
ou outra qualquer língua
que se proponha a traduzir essas bestialidades
nas quais procuro me infiltrar
mesmo com essa capacidade de fuga
que herdei do silêncio
por isso constantemente
recorro a ele como quem grita
muitos dias após a extração da língua
e esse grito silencioso
pudesse formar algum tipo de aglutinação no ar
parecida com alguém
que ao ser apresentado conseguisse
manter a conversa agradável
por alguns instantes
até que a agonia da inexistência desse alguém
submetesse o interlocutor a refletir
sobre o modo como levamos nossas vidas
ao atravessarmos as ruas sem tropeçar
enquanto alguns alugam as pernas
como modo de sobrevivência
ou o modo como levamos a comida à boca
sem nenhum constrangimento diante
da fome que ainda assola
em algumas partes do planeta
ou não pensassem em nada disso
e simplesmente vivessem essa vida
como parece que a maioria continua vivendo
pensando nas coisas que precisam ser feitas
a partir de amanhã e no dia seguinte
ou nas coisas que precisam ser feitas nesse momento
sem precisar pensar nos outros
ou na forma como os outros estão pensando
principalmente ao seu respeito
viver
se é que se pode chamar isso de viver
afinal é o verbo oficial instituído para isso
e o qual devo usar nesse momento
sem precisar recorrer a outras palavras ou frases ou ideias
que fujam do idioma adotado nessa parte da terra
isso tudo e algo mais que agora não me vem
isso tudo motivou a escrever isso
que escrevo nesse momento
e que provavelmente nunca será publicado


ALAMEDAS

sinto-me às vezes
como uma folha caída
de uma árvore

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

MERIDIANOS

os bondes cortam a chuva
antes dos meridianos
por este motivo
ninguém se importa
se os cães estão sorrindo
da janela aceno para o mundo
que me deixou partir
sem passagem de volta

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

PRÓXIMO AO FIM

meu coração aos pulos
ou parado
não sei o que prefiro
temo a escuridão
claridade também
o mundo vasto
meu corpo maior que o mundo
não consigo um abraço
onde eu caiba
solto não consigo
um equilíbrio ao pensar
retiro da cabeça
recompensas
o frio sem fim




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

FRIO DA PÁGINA

aos poucos tento
equilibrar as palavras
ao fio da página
algumas mais gordas
outras mais magras
as palavras esperam alimentos
que desconhecemos
as expomos como se algo
tivéssemos a ser exposto
os outros desconhecem
os nossos vazios
que procuramos
preencher com palavras
que aos poucos
sendo entendidas
(a maioria não)
adentrem ao nosso vazio
como se o entender do outro
nos alimentasse

NA ÓRBITA

entro no pátio
com meu andar calmo
o silêncio que carrego não pesa
não deixa a marca dos meus rastros
flutuo na mesma altura das árvores
tenho frutos mas esqueci
também tenho folhas tronco
essas coisas parecidas
o mundo me carrega no olho
como se carregasse uma lágrima
não há motivos para a alegria do mundo
me preparo para a queda


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

QUARTEIRÃO



fui dar uma volta no quarteirão
o sol estava preso lá fora
os meus pensamentos estavam soltos
se havia flores não percebi
mas elas perceberam quando foram pisadas
gritaram perfumes
mas ninguém percebeu
o cheiro da vida não admite as flores
nem que as cores sejam perdoadas
tento prolongar o meu olhar além
a vida termina onde os meus olhos alcançam
depois disso 
talvez os cegos possam me guiar


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

NÚMERO DE ORDEM


minha calça de linho e a camisa
um bom chapéu
bom porque me protege do sol
penso que ele não me enxerga
e ele manda recados ao escrever minha sombra
caminho
nem sei qual é o caminho
sinto-me desnecessário
meu número de ordem no mundo
perdeu-se


CASA QUASE CLARA


branca
assim se abria a casa
para os meus pés
em forma de asas
para os meus sonhos
em forma de malas
branca
quase nula
pendurada diante do que perdeu
meu corpo sem sombra
atravessa um caminho
que resolveu abandonar


MONA LISA AFOGADA


mona lisa afogada
num copo ou numa taça
repleta de somos
iguais a ela
repousados entre as estrelas
cortados aos poucos
mas aguados
mais próximos de tudo
que nos tornam rápidos


terça-feira, 5 de agosto de 2014

NÃO TENHO AMIGOS INFLUENTES NO MEIO LITERÁRIO

minha poesia não atende
a quem procura sentimentalismos
minha poesia não sobra
nem sopra apenas morde
minha poesia nem é minha
talvez de alguém que me faça pensar que sou eu
minha poesia não tem raiz
mas se sustenta dentro de algo
parecido com uma floresta
minha poesia faz concessões
às palavras
minha poesia se abre
quando tudo está fechado
e se fecha quando procuram por ela
minha poesia quer ser simples
mas não vai conseguir
minha poesia cabe numa página
até ser retirada
minha poesia agrada aos gregos
por não ser entendida
e agrada aos meus amigos
por serem hipócritas
minha poesia pode ser utilizada
como anteparo como biombo
como forma de manifestação pública
e como uma maneira de me ver de outra maneira
minha poesia tem pressa
por isso é curta
porém é longa se precisar ser breve
se precisar de neve ela inverna
se precisar de sol nem se atreve
minha poesia tem chuva
tem muita água
mas não é potável
minha poesia tem gosto
mas não é palatável
não vai ser escrita num banheiro público
nem vai ser estampada nas galerias
minha poesia tem fala
tem falo tem cu e tem cabaço
minha poesia é de alto nível
mas nunca se abaixa
minha poesia é curva
embora seja quadrada
minha poesia não tem amigos nem inimigos
não faz falta a ninguém
porém é previsível e desigual
todos sabem como vai terminar
e não vai ser agora nem nunca
minha poesia tinha cabelos
tinha um tinteiro derramando o dia inteiro
agora não tem mais
minha poesia seca arranha a página
sem fazer barulho
minha poesia me agrada
por isso vivo no escuro
de onde não quero sair de lá
nunca mais


DORMÊNCIA

as palavras itineram
entre as minhas pregas
o tempo me cobre
como um livro
respiro a dormência
de um precipício
quero esticar minhas feras
entre um dente e outro
colho sorrisos entre os trilhos
enquanto o trem atravessa


A SOMBRA DO VIADUTO

debaixo do viaduto
não dá pra ver a lua
vejo o concreto
os desenhos no concreto
veias de uma agonia
a lua desaba
antes do viaduto
seu alicerce era a minha sombra


A MORTE NUNCA ACABA

a morte nunca acaba
por mais que eu desista
a vida me guarda na calça
sua virilha entupida de voragem
meus ossos sem coragem
e esse convívio de tédio e calor
dentro dessa calça sem cor
a morte nunca acaba
por mais que eu insista
a morte não me guarda
me deixa assim exposto
como se fosse um osso
o vento espalhando a dor
por onde eu nunca passo
a morte nunca acaba
é uma dor guardada
num corpo anestesiado
para sempre




segunda-feira, 4 de agosto de 2014

SOB O CONCRETO

todo esse concreto
pode meter soco faca
pode meter bala
e não vai sair sangue
não vai cair de febre
não vai gemer nem curvar
no máximo se arranhar
arranhão de fácil reparo
quanto a mim
estou quieto sob o concreto
mais quieto que o próprio concreto
não aguento soco nem faca
não aguento bala
meu sangue corre lento
por dentro tento
parecer o sangue do concreto
um sangue que nunca escorre
que nunca morre



LEMBRAR DAS PALAVRAS

muitas palavras lembram outras
outras esquecem
nunca me lembro de falar palavras que lembrem outras
minhas palavras são sozinhas
não me lembra
não me lembram
poucas palavras me procuram
esquecem de me lembrar
porque também não lembro outra pessoa
sou sozinho como as minhas palavras
não lembro a palavra que lembre essa que escrevo
escrevo essa porque é a que consigo me lembrar no momento
assim ocorre com as palavras quando me usam
não lembro outro
para as palavras não lembro nada



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

LADOS

tenho um lado
mais triste que o outro
e são tão solitários
que um não sabe
da existência do outro

quinta-feira, 31 de julho de 2014

TENHO TENTADO

tenho tentado não ser depressivo
mas está difícil
o sonho poderia me levar
para outro lugar
mas no sonho há peles e sangue
sem corpos sem artérias
a vida me leva
para outro lugar
onde permaneço imóvel
faço parte de algo
onde não posso entrar
aos que me tocam
permaneço quieto
revido com palavras
escutam vento água
respiram e bebem
paciente aguardo
o ruido dos corpos envenenados


ABANDONAR

abandonar as palavras
até que algum olhar as descubra
abandonar as palavras
e nunca mais encontrá-las


segunda-feira, 28 de julho de 2014

OBJETO OCULTO

estou com os dias contados
desde não sei quando
as horas funcionam
como folhas fabricadas pela desordem
mesmo rasgadas insistem ser páginas
aceno para a vida e ela me remove
usa meu coração como alavanca
estou fora de algum lugar
objeto oculto pela fala


SE ME DISSESSEM

se me dissessem
que o tempo era água
eu teria construído
uma pia sem ralo
um ralo onde coubesse
a minha cabeça
amarraria minhas pernas no teto
com apenas uma tripa
o restante alguém que usasse
como canos vazios
de uma instalação
desnecessária
se me dissessem
que o tempo era a calma
construiria uma estrada
sem saídas
e correria em linha reta
até chegar a vida


sexta-feira, 25 de julho de 2014

POÇAS

a chuva passa
a dor não chove para sempre
um dia passa
e ao passar deixará algumas poças
um dia as poças secam
algumas vão ser reabertas
com uma nova chuva
outras vão apenas
parecer cicatrizes

quinta-feira, 24 de julho de 2014

FAIXA DE PEDESTRES

as plantas sujam o asfalto
com a sua fragilidade
pombos caminham na faixa de pedestre
asas apenas lembradas no susto
pareço ser frágil
embora me mova
entre a faixa e os pombos
asas esquecidas
em algum escombro


segunda-feira, 21 de julho de 2014

MAIS DA CHUVA

gosto mais da chuva
que do medo
a água da chuva
não me apaga
o medo nem tem água
é só me olhar
que me apaga

sexta-feira, 18 de julho de 2014

ESTICANDO A PELE

a angústia aos poucos
forma o esboço
das pessoas
os gritos são os rabiscos
 de uma dor suportável
porque está além do corpo
não há motivos para a alegria
alegres ou tristes
tudo será interrompido
mesmo que eu consiga
alongar a pele
o máximo possível
a vida não vai
conseguir acompanhar


terça-feira, 15 de julho de 2014

CABEÇA

os dias passam ao lado
como um motim
no sangue coagulado
a partir do corte
bem longe do corpo
tudo se escancara
como um céu
eu queria ser livre
mas penso

TREINANDO O INTESTINO

treino meu intestino
a entender o tempo
e dentro do intestino
a alma escura
pensando que é clara se procura
 em cada dobra
e quando se encontra
não se mostra
e mostra que o tempo
nunca sobra


DEPOIS MUITO DEPOIS


tropeço nos corpos
espalhados lado a lado
entre eles o sol        
e outras estrelas sem nome
queima mais meus pés
não saber para onde vou
do que não saber
porque não estou parado
meu corpo deveria
estar entre eles
ou as minhas mãos
sujas de sangue



segunda-feira, 7 de julho de 2014

NÃO TENHO

não tenho cuidado
muito de mim
me deixo exposto
antes do nervo
me vejo em setembro
antes de agosto
não tenho cuidado
atravesso o estrago
pelo meio da estrada
formo o lago
sem nem ter água
não tenho muito
cuidado com
o que mostro
parece meu corpo
exumado esse pó
enlatado
não tenho
meu bolso
costurado na veia
repleto de idéias
minha cabeça
aos pedaços
não fica
velha

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TRILHA SONORA

às cinco e quinze
o passarinho do meu vizinho
canta na varanda
desarma o cimento e o asfalto
desarma a manhã
seu canto é igual
dentro ou fora da gaiola
compõe o poema
e sua trilha sonora


terça-feira, 1 de julho de 2014

FLORES DO CAPIM

as flores do capim
moveram meus olhos
retirei o que havia de sujo
entre o lodo e o meu sapato
suspenso entre as folhas
as asas esquecidas no armário
aqueci o momento
como se fosse uma estrela
de primeira grandeza


BORBOLETAS CAÍDAS

descobri algo mais triste que o silêncio
borboletas caídas
penduradas nas rugas da rua
suas cores misturadas ao asfalto
o voo interrompido
não sei por qual motivo
talvez a nostalgia da lagarta

TROUXE AS PALAVRAS

conforme combinado
eu trouxe as palavras
as que foram pedidas
e as que não foram pedidas
talvez no começo
não sejam entendidas
principalmente
as que não foram pedidas
talvez nem sejam entendidas
as que foram pedidas
o que posso fazer
fiz a minha parte
conforme combinado
eu trouxe as palavras


PRECISO DE UM BARCO

preciso de um barco
que navegue em minhas veias
um barco vazio e sem velas
os remédios não fazem mais efeito
preciso de um barco
que abra as minhas artérias
um barco que sempre afunde
e nunca atinja o fundo


quinta-feira, 19 de junho de 2014

PÉS JUNTOS

tem sido um grande esforço
acompanhar esse ritmo
o pé esquerdo segue o direito
e o direito segue o esquerdo
a tentativa diária de não cair
ando para frente
porque na frente ficam os olhos
mesmo sem nada enxergar
o escuro da frente é o escolhido
em frente
enfrento o escuro que me é oferecido
as mãos adiante
tentando moldar o inesperado
um tatear de nuvens sem abismos
tento acompanhar esse ritmo
e na maioria das vezes não consigo
de vez em quando os pés juntos
dão um salto no escuro



PASSOS DE AREIA

faz tempo que não piso na areia
meus pés sujos de rotina
somente na cama os enxergo
ou durante o banho
quando enxergo
também pra que a areia vai querer meus pés
talvez num futuro bem próximo
irá cobri-los
ou descobri-los entre os seus grãos
meus pés
mesmo quando estão parados
movem meu corpo
para onde não sei


quarta-feira, 18 de junho de 2014

RADIOGRAFIA DAS FEZES

de vez em quando me pego
radiografando minhas fezes
vejo pouco proveito
em averiguar possíveis fraturas
em tudo que o meu corpo
despeja para fora
ou no que resguarda
para despejar depois
quando não há ossos
sou obrigado a procurar
alguma mancha
alguma artéria entupida
isso quando a radiografia é boa
coisa rara
radiografar as minhas fezes
não é uma boa política
melhor arquivá-las
em algum lugar entre as falas
talvez seja mais justo




quarta-feira, 11 de junho de 2014

O INFERNO SÃO OUTROS

para visitar o inferno
não preciso ir muito longe
basta fechar os olhos
por isso permaneço atento
e de olhos bem abertos no paraíso
flutuo entre a gota de ódio e a idade
entre a gota de sangue e a felicidade
flutuo entre a flor amassada
e o peito do defunto
flutuo entre o lábio e a risada
entre a dor e a madrugada
permaneço de olhos abertos
bem longe do meu inferno

DESNUDO

olho a planta
olho a água
não consigo entender
poesia sem palavras
quero ser profundo
arranco a minha pele
e cubro o mundo
meus ossos tremulam
igual a uma bandeira
empalada pelo mastro


quinta-feira, 5 de junho de 2014

CLARABÓIA

meu olho direito enxerga uma coisa
o esquerdo enxerga outra
e eu no meio
sou a mais bela paisagem
diante dos olhos de um cego