sexta-feira, 23 de maio de 2014

OLHAR DO FRUTO

a morte
assim como os frutos
não permite que o olhar apodreça
como os frutos assim
apodrecendo o olhar
como os olhos assim
apodrecendo os frutos
o olhar
assim como os frutos
não permite que a morte apodreça


quinta-feira, 22 de maio de 2014

EDEMA

é próprio do idiota mastigar o tempo
mastigar avidamente
cuspindo as horas
quando eu mastigava o tempo
ainda não era idiota
mastigava lentamente e engolia tudo
isso me deixou com esse inchaço
e a necessidade de me livrar desse edema
faço furos aqui e ali
e dos furos escorrem poemas



quarta-feira, 21 de maio de 2014

MEIAS MEDIDAS

a morte é uma água
que afoga sem molhar
tenho molhado meus pés
e melhorado
ao deixar o rastro
dentro dos sapatos


segunda-feira, 19 de maio de 2014

SOMENTE A ÁGUA

se vamos ser felizes não importa
o sangue a lágrima
o cuspe da gargalhada
tudo água
e somente a água
atravessa a fresta

OLHAR ADOTIVO

procuro não me envolver com o dia
desencarno o meu sangue
flores não revolvem o asfalto
esse perfume encontrado no estrume
é uma concessão poética
minhas perdas e os fardos não são pesados
pesado é o modo como enxergo tudo
procuro uma paisagem para doar meus olhos
e aos olhos dos outros meu tato


MOMENTOS


guardamos algumas palavras
para certos momentos
dizer o momento certo
sem usar as palavras
esse ainda não é o momento


segunda-feira, 12 de maio de 2014

MEU CHEIRO

passo ao lado dos dias
passo e não me alargo
cada dia mais murcho
minhas pétalas
minhas feridas eternas
meu cheiro
não combina com o mundo
perco os sentidos
e permaneço acordado


quarta-feira, 7 de maio de 2014

BEIRAL

antes da tristeza
presto atenção ao meu coração
passarinho canta sem precisar de tristeza
triste de quem pensa
que passarinho canta porque tá triste
triste de quem pensa
que passarinho canta porque tá alegre
passarinho canta
porque é a sua melhor maneira
de se pendurar no dia
tem gente que se pendura na vida
quando está triste ou quando está alegre
eu me penduro na vida
quando estou escrevendo


terça-feira, 6 de maio de 2014

CAIXA DE SAPATOS

meu irmão tinha uma estrela
guardada numa caixa de sapatos
eu nunca tive
uma caixa de sapatos
eu sempre deixava minha estrela solta
na caixa de sapatos eu guardava lembranças
esse poema é uma delas

segunda-feira, 5 de maio de 2014

IMÓVEL NAVEGADO

meus plásticos disfarçados nos meus passos
murros de musgo num muro planejado
ventos criando corredores entre as bandeiras
manhas de ventos erguidas por cavalos
mudas de trepadeiras soterradas
aos anos perdidos erguendo espinhos
aos panos erguidos cobrindo os caminhos
aos meus corpos de infalíveis abraços
aos meus dentes perfilados num sorriso falso
deixo o que comove como quem se move
entre um e outro estilhaço



sexta-feira, 2 de maio de 2014

O QUE AS PALAVRAS FORMAM

aos poucos
o lodo forma uma camada
entre o céu e a escada
sob as palavras que gotejam
o lodo forma uma camada

DÁDIVAS

do meu nariz
escorrem nuvens
não carrego lenços
choraria um céu se soubesse
o barulho dos meus olhos nos bolsos
lembram moedas
porém não devo nada
aos que me cobram
nem tenho palavras