sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PREVISÍVEIS


a fumaça passa
na mesma altura da nuvem
eu não alcanço
o que mordo quando o meu dente convém
as marcas me deixam como mágoas
ao falar com gestos invisíveis
sem esperança de ser escutado
pesa no meu bolso
tudo que deixei de fazer
construo o fogo de labaredas invisíveis
descarno a dor
e seus bueiros previsíveis

LÍNGUA FALO

empurro a língua
contra a outra
a língua noutra boca
falo palavras do outro
língua ou falo
falo na língua
não outra língua
boiando no cuspe
da outra boca
falo que explode
outro líquido
palavra de água
esperma ou cuspe
falo outra língua
acho palavras
falo que acho
falo que encaixo

QUANTAS PESSOAS


para o amor
não sei quantas pessoas
para a dor
mais ainda
não sei contar
para outras coisas
mas sei que são muitas

AO REDOR DA TERRA

o olho escorre pelo pátio
e não encontra o que ver
recolhe-se à órbita
dá uma volta ao redor da terra
pensa que é um planeta desabitado
espera ansioso algum explorador


QUEM VAI QUERER UM ABISMO


ande devagar
nunca se sabe
quando o chão vai abrir
nunca se sabe
quem vai querer um abismo
então corra



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

PENA DE AVIÃO


as asas do avião
batem em câmera lenta
tão devagar
quase não dá
pra perceber
as penas das asas
misturadas com as nuvens


COLEÇÕES

meu vizinho
coleciona passarinhos
em gaiolas
a sua esposa
pela rua
coleciona esmolas
eu coleciono
cigarros fumados
no pulmão esquerdo
no direito não dá tempo
coleciono ventos
meu pai
colecionava hortas
nos dentes das lagartas
minha mãe
colecionava haloperidol
no urinol
meu irmãos
colecionam demências
o mundo
coleciona ausências




CANTANDO BAIXINHO

canto bem baixinho
tão baixinho
só pra terra ouvir
mas a terra é surda
e passa por mim
e me deixou aqui
cantando sozinho
bem baixinho
nem eu consigo ouvir
desconfio que já
nem estou cantando
estou só pensando
que estou cantando
bem baixinho
bem baixinho
baixinho



domingo, 23 de novembro de 2014

PLASTICIDADE DE BRASÍLIA

as árvores de Brasília são de plástico
todos os gramados também são de plástico
algumas pessoas de Brasília são de plástico
como são de plástico os prédios
o asfalto e outros objetos
escrever sobre Brasília
é menos poesia e mais inclinação
existe grande probabilidade
que um dia Brasília se torne uma cidade
por enquanto é apenas uma situação


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

CÉUS DUBLINENSES

o céu de Dublin
ligou-se a mim
por uma chuva
não tem sal
na lágrima do céu
que escorre pelo meu corpo
como se eu fosse um rosto

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

POUSO DA LIBÉLULA


a luz que se desprende da tarde
forma um rio iluminado
eu só sei nadar no escuro
bebi a luz até me safar
pendurei meus pulmões no varal
descansei meu corpo
igual a uma libélula pousada
no casco do cavalo


terça-feira, 18 de novembro de 2014

CÉU PORTUGUÊS

as nuvens portuguesas
nem sabem que são portuguesas
nem sabem que sobrevoam
nem sabem que não sabem
lembram meu olhar
um pouco mais acima
que nem sabe que é um olhar
nem sabe que é meu
nem sabe que está um pouco acima
parece misturado com a nuvem
como se fossem únicos
meu olhar da altura das nuvens
afasta o mundo
ao mover suas asas

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

SOBRE A ORIGINALIDADE

todo mundo escreve parecido
com o mundo
estou restrito a este idioma
quase nunca sou entendido
preciso explicar para o surdo
para o marciano e para os intrusos
fazer leituras silenciosas
para os cegos
preciso implicar com o silêncio
provocar danos no espaço
preciso ser preciso quando erro
e sempre errado quando acerto
escrevo parecido comigo
quando estou ausente
escrevo parecido com o que fico
quando estou bem longe
todo mundo escreve parecido comigo
quando estou fingindo que sou mundo


ÁLGEBRA

minha álgebra não é linear
o que parece fundo
é apenas um número primo que se afoga
e deixa de fora essa vontade pendurada
de nem ser parente
ser gente
que nos carrega para o cálculo
sem solução aparente


SOBRE O QUE EU FALEI ONTEM À TARDE

porque estou vivo
não quer dizer que eu mereça
além da vida ganhei outras coisas
que não podia carregar
e nem merecia
palavras que me inscreveram
em paredes carregadas
não me entenderam
preferiram as paredes
e o melhor modo
de derrubá-las


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

MORRERSER

o corpo que morre
não envelhece
envelhecer não é morrer
é apenas trazer a morte
pra mais perto
morrer não é envelhecer
é apenas evitar
que a velhice se aproxime


terça-feira, 11 de novembro de 2014

SEMOVENTES


da janela do trem
o tempo nos vê passar
parados na estação
observamos o tempo passar
quando na verdade
é apenas o trem que se move


QUANDO LEVANTA A MINHA SAIA

hormônios levantam a minha saia
a uma altura que o vento não alcança
eu já tive um coração que desistiu de mim
em seu lugar ergui um castelo
feito de cimento armado e tédio
minha saia levantada parece um mastro
que engoliu a bandeira
e nunca aprendeu a tremular


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DINHEIRO

comprei biscoitos
um bilhete
um espaço
pedi o escuro de troco
não coube no meu bolso


VOLTAR

a parede me olha
a luz me olha
como se eu estivesse ali
ainda não sei como voltar
talvez quando eu descobri aonde cheguei
olhe para a parede
olhe para a luz
e nunca me veja


INSONE

o sol se põe
ou se esconde
ainda não sei
a noite me cobre
como um lençol
repleto de furos
remendo com meus sonhos


PÁTIO DO MEDO

no meio
do pátio do medo
furei a coragem
bem no olho
interrompi a miragem
desencadeei esse sopro
mais de água que de ar
escorri pelo buraco do olho
juntamente com o lugar


EDITAL DE OCUPAÇÃO DE ESPAÇO

a secretaria de segurança pública
torna público que o espaço
ocupado pelo meu corpo
neste momento está vago
não havendo nenhuma perspectiva
em curto médio ou longo prazo
de reversão do acontecimento
sendo declarado com isso
a vacância do espaço ocupado
pelo referido corpo
os motivos da desocupação
ainda são ignorados
e no momento não vai alterar
este comunicado
informa ainda esta secretaria
que os candidatos aptos
para a ocupação do espaço
deixado pelo meu corpo
precisam passar pelos
procedimentos legais
estabelecidos por esta secretaria
desde a livre e espontânea vontade
de ocupação do espaço
até a maneira como este
deverá ser ocupado
convém ressaltar
a necessidade da absoluta
autonomia em relação
ao ocupante anterior
visto que foi excluído do referido local
por motivos que ora não são relevantes
mas que precisam ser evitados
a repetição de gestos palavras pensamentos
e demais características que impossibilitaram
a permanência do ocupante anterior
deve ser terminantemente evitada
tornando iminente a eliminação do novo ocupante
comunicamos ainda
que os candidatos ao espaço ocupado
desde que habilitados numa primeira seleção
serão informados evidentemente
de todas as regalias e principalmente
de todas as proibições
inerentes ao espaço
todas as dúvidas objeções
defecções e admoestações
passíveis e possíveis
serão dirimidas
por esta secretaria
fica estabelecido o prazo
de vinte e quatro horas
para que os candidatos à vaga
apresentem suas propostas
no endereço anexo
ao presente comunicado





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

MOTOR DO MAR

o motor do mar
é feito de ar
seu combustível azul
explode espumas na praia
quando quer ser sal
ou ser água
o mar se curva
e deságua
como se sonhasse
pelo lado de fora


FALÉSIAS RECIFENSES

as falésias da praia de boa viagem
são os edifícios
os olhos das falésias
enxergam o mar
mas não enxergam o mundo
aos poucos
a maresia vai comendo
as engrenagens do espírito



CAFÉ SOLÚVEL


enquanto meus pais se dissolvem
durante o café da manhã
 e os meus irmãos
disputam espaço com as flores no jardim
eu recolho os cacos
que sobrou da minha alma
o pedaço maior
do tamanho do espaço
eu engulo
sem demonstrar que a conheço