segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

RECITANDO PARA O NERVO


a boca abre
porque não cabe
todas as palavras
todos os mortos
foram integrados ao mundo
de alguma maneira
e hoje fazem parte
de alguma palavra
os mortos não cabem na boca
parecem palavras
que precisam ser ditas
algumas são ouvidas
como se estivessem vivas
algumas são esquecidas
como se estivessem mortas


NA PAREDE

pouco se prega na parede
sem que haja um furo
preguei minha alma e uma lágrima
a primeira secou primeiro


A ÁRVORE ENSANGUENTADA

a árvore ensanguentada e o seu grito
ocupam um canto da rua
do outro lado
homens e lagartos
rastejam sem pestanejar
o céu corta a tarde
com um azul inocente
repleto de nuvens maldosas
aviões carregam o silêncio para o lado perigoso
repleto de pessoas com medo e com música
formigas enfileiram passos domesticados
carregam o mundo em cada folha em cada falha
para onde vai o mundo e onde ele nos vai deixar
ninguém entende se o que a árvore grita é de verdade


O POEMA ABANDONADO

o poema abandonado
procura a beira da página
e se projeta
como se fosse um corpo
e sofre a queda e agoniza
e é enterrado e esquecido
como se fosse um morto


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

REUNIÃO

o poema está pronto
o poeta ainda não
as palavras não sabem o que é terminar
o silêncio não sabe o que é saber
estão todos aqui reunidos


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FALA SECO

a carne quer ser seca
onde não alcança
igual quando se fala
a sombra abaixo da palavra
nunca se entala


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CHEGA DE ENTENDIMENTO

agora não quero mais
ser entendido
compartilho o que sinto
e o que movo
são repartidos os ritos
os momentos e os lentos
palavras explodem
iguais ao silêncio
estilhaços cortam
da mesma forma


BAGAGEM

a neve quebrou
durante a viagem
mas não precisei
pagar por isso
o céu que era colorido
agora é só passagem