sexta-feira, 29 de maio de 2015

ERIÇAR



a penugem do peito do avião
fica eriçada quando toca a nuvem
a boca fica eriçada
quando toca a palavra
a dor fica eriçada
ao ser lembrada

quarta-feira, 27 de maio de 2015

BRINCANDO COM FLORES



desatento
nem percebo as flores
provocando a minha boca
falo caminhos
se eu falasse pássaros
mas falo passos
em direção a uma fala amena
que me torna ainda mais desatento
flores me mastigam
como se pisassem
perfumam meu sangue
como se de mim precisassem

sexta-feira, 22 de maio de 2015

CHOVENDO SEM ÁGUA



não gosto de dirigir na chuva
prefiro caminhar com a camisa colada nas costas
e a tinta azul do céu misturada à tinta que imagino
deve estar guardada por trás de todas essas portas
descanso a ponta de um passo na margem da poça
a outra ponta mergulho sem alcançar o fundo
e o cóccix que parecia vivo boia com a alma erguida
talvez se despedindo ou pedindo alguma ajuda
ainda não sei por que me acalmo
a água me torna parte da paisagem
escorro pelo ralo e assumo

quarta-feira, 20 de maio de 2015

MINHAS DORES

minhas dores
apesar de curvas
formigam por dentro do tempo
apesar de turvas
fomentam adentram
apesar de vulvas
emendam atentam
apesar de todas
apesar de tolas
minhas dores
são as minhas dores
não são tuas
não são vossas
nem são nossas


quarta-feira, 13 de maio de 2015

BAILARINA ATRAVESSANDO POÇA DE LAMA



uma rosa quando foge
deixa o espaço ensanguentado
mesmo que apareça escuro
quando refletida na poça de lama
o céu também aparece escuro
quando refletido na poça de lama
nem por isso deixa de receber
a bailarina de braços abertos
que dança apesar de tudo
mesmo que a música pareça afogada
quando refletida na poça de lama