sexta-feira, 28 de agosto de 2015

NO MEIO DO RIO

a areia atravessa o meio do rio
com medo de ser uma lágrima       
sabe que sem olho não há sangue
sem caminho não há fome
a areia atravessa o meio do rio
sem tempo de voltar

COM ÁGUA

se a estrela soubesse que é tão quente
não se apagava
permaneceria imersa em seu calor
e nos constantes pesadelos com água
mas ela prefere se apagar
mistura-se ao céu num abraço


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

MODO SONO

aos poucos
encaixo o meu corpo
no modo sono
a mente ao lado
auxilia o corpo inerte
a trafegar pelo sonho
como se coubesse


LÂMPADA

a lua é uma lâmpada que enlouqueceu
vaga solitária
em meio ao silêncio apagado
sonha que pode ser vista
mas é apenas imaginada

SEM RESPIRAR

quem perde o nariz
pode respirar pela boca
então você escolhe
ou respira ou come
ou respira ou sorri
ou respira ou fala
eu escolhi respirar
então não me venha
com sua comida
então não me venha
com suas piadas
então não me venha
com suas palavras


terça-feira, 25 de agosto de 2015

PENSANDO

eu pensava
que nunca passaria em matemática
que nunca alcançaria a ultima prateleira
que nunca veria o outro lado do mar
eu pensava que tudo era fácil
e que o mais fácil era o óbvio
eu pensava
que num olho não cabia tanta lágrima
que o rio só corria para o mar
que se o mundo parasse ninguém perceberia
eu pensava
que os pensamentos faziam parte da minha cabeça
e por conseqüência os meus atos
eu pensava
que não havia mais nada além do quintal
que não haveria mais ninguém
eu pensava
que as palavras não se transformavam
que os silêncios eram puros
e que eu poderia ser o que eu quisesse
mas eu estava enganado
todo esse tempo eu nem estava pensando
eu só existo no pensamento do outro


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

DESTROÇOS

pela manhã
recolho os destroços dos sonhos
tento me encontrar
mas sempre me perco de vista

terça-feira, 18 de agosto de 2015

CHAMA

já vi todas as estrelas
meus olhos bóiam num mar apagado
o que penso não prolifera no ar
rumina minha cabeça sem deixar rastros
quando caminho
uso meu corpo como estrada
minha vontade está acesa
ainda não sei pronunciar a chama


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

JARDIM NOTURNO

jardim vazio
ao lado da árvore o banco
mais comido que comendo
os pés de ferro enterrados até o pescoço
sobre ele a angústia sentada
com seu peso arrastou a tarde até o chão
a cabeleira repleta de estrelas apagadas
formando um escuro ramalhete
nas mãos de alguém
que nunca vai chegar


FIO

a vida pousada no fio
quietinha
antes do primeiro vento
o voo


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

SE HOUVESSE FUTURO

a rua atravessa o corpo
em passos largos
como se fugisse das curvas
que caem aos pedaços
e deixam poças abertas
por onde outros corpos fogem
como se houvesse futuro


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

LÁGRIMAS

não consigo mais chorar
nem pelos olhos nem pelas palavras
verto água nos sonhos
meus sonhos são de lágrimas

APLAUSOS DA ALCATEIA

o som do sol
mastiga a poeira
enquanto recolho a chuva
o sol tem esse poder
que a água não resiste
bóia no horizonte
sem molhar a bunda
sem arrancar aplausos
da alcateia

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

PASSA

quando a dor acaba
a morte chega
e a dor que a morte deixa
nunca passa

MESA

sobre a mesa
os sonhos e a cabeça
peças de um quebra cabeças
que nunca se encaixam
mudo a mesa de lugar
mudo a cabeça
e tudo fica na mesma


terça-feira, 4 de agosto de 2015

CARA À TAPA

antes de dar a cara à tapa
parei no mijador
despejei angústias junto com o ácido úrico
não tenho a menor idéia para onde foram
desprendi meus dedos na parede
enquanto olhava o que o cheiro provoca em troca
saí ainda com o corpo ainda quase aceso
as tapas me esperavam corri ao encontro
com a boca aberta
enquanto pensavam que eu sorria
eu mordia sem suavidade