quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

CURADOS

os doentes me pedem socorro
sem saber que já estou morto
como um autômato
carrego os doentes
nos meus braços ausentes
depois retorno
com todos curados e alegres
e ao lado repouso o meu corpo
que lentamente apodrece


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

ENFILEIRADOS

doentes enfileirados
a perder de vista
o sol alcança alguns
com a sombra dos seus raios
se houvesse um mundo perfeito
o sol não existiria
em total escuridão
não precisaríamos ver
doentes enfileirados
a perder de vista

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

SEM JANELAS

num quarto sem janelas
um cego com tempo suficiente
para tatear o mundo
mas prefere imaginar
o tamanho do próximo passo



LONGE O CORPO

de longe sinto
o corpo a soar
enxergam suor onde há música
a alma dança do lado de fora
como se não houvesse memória
e cada instante fosse necessário


VERÃO INVERNO


dizem que a vida
é igual poesia
um dia chove outro dia faz sol
eu não acredito
poesia sempre queima mais
sempre molha mais

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

FLERTE

olho para a poesia
como quem não quer nada
ela me olha de volta
e como quem não quer nada
me dá essas palavras

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PALAVRA OU OUTRA COISA

não era bem isso que eu queria dizer
aliás não foi isso o que eu disse
o problema é que você entendeu dessa maneira
e já que assim foi entendido
não posso dizer de outra forma
vou repetir as mesmas palavras
e você vai entender da mesma maneira
embora não seja isso o que eu queira dizer
não posso alterar o seu entendimento
nem devo alterar as minhas palavras
agora não sei se as palavras
são as que eu digo
ou as que você entende
talvez não estejamos lidando com palavras
mas com alguma outra forma de desentendimento


VALA

a tristeza abriu uma vala
debaixo do meu olho
a vala é do tamanho do oceano
vejo mais de perto os naufrágios
todos os dias sob a pele
construo um novo cais


CAMISA

abro a camisa até o umbigo
e como se fosse um botão
prendo o mamilo à casa do mundo
e ofereço ao resto as minhas costas