sexta-feira, 27 de maio de 2016

33 HOMENS?

foram trinta e três homens?
foram sessenta e oito olhos
sessenta e oito ouvidos
sessenta e oito mãos
sessenta e oito pernas
um medo
e um milhão de silêncios





terça-feira, 24 de maio de 2016

O RIO QUE CORRE DENTRO DA MONTANHA

a face pálida clareia a lágrima pedrada
parece uma ruga mas é uma mágoa
e afunda a carne em direção ao tempo
que parece fundo mas só atinge tudo
parece só pedra planta altura
parece menos clara que escura
parece calada eterna entranha
ninguém sabe o rio que corre dentro da montanha


sexta-feira, 20 de maio de 2016

ESPERANDO A LIGAÇÃO

o telefone tremula
mais que a mão
se afoga no gesto
querer ser o autor das palavras
que o fio traz
e não o ouvido
olvido as palavras
lembrar apenas o que não se deve lembrar
a saudade de um tempo
em que não se pensava no tempo
a tarde fazia a volta num espaço repleto de futuro e plantas
agora a tarde nem aparece mais
fica escondida sob um concreto modo de esquecer
e a noite finca os pés sobre nossas cabeças esmagadas


DESPELANDO

minha alma está despelando por dentro
sinto os ossos à mostra
o nervo curvado diante do escuro
meu corpo ausente
sobrevoa muros e prédios
pensa que é uma nuvem
e que a qualquer momento vai chorar ao chover


ESPERA

tatuei teu nome na janela
não na madeira
não na hora
tatuei teu nome no lado de fora


domingo, 15 de maio de 2016

EQUILÍBRIOS

o lago escorado na montanha
o peixe escorado no lago
a montanha escorada no mundo
o mundo escorado no homem
o homem escorado no nome


sábado, 14 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

A DOR ATRAVESSOU A NOITE

a dor atravessou meu sono
atravessou a noite
de um lado para o outro
ficou com as pernas de fora
unhas por fazer
solas dos pés sujas
a dor voou com o meu corpo atravessado pendurado
e quando descobriu que não possuía asas
desabou com o meu corpo junto
a dor atravessou o solo
e se alojou no escuro e foi descendo
como se soubesse o que é uma raiz
a dor gerou tronco galhos e frutos
gerou uma sombra
que nenhum sol consegue transpor


terça-feira, 10 de maio de 2016

HORÁCIO E A INDÚSTRIA CULTURAL

o cuspe de Horácio azeita a máquina da indústria cultural
o cuspe é saliva fora da boca
assim como é fora da boca a indústria
então a indústria também é cuspe
e saliva quando guardada na boca ou engolida
o cuspe no ar ou na calçada ou na parede
não tem valor algum
independente de quem seja
mesmo se fosse o cuspe de Horácio
o cuspe que umedeceu suas sábias palavras
mesmo se fosse o cuspe a indústria cultural
o cuspe onde a cultura mergulha pensando estar navegando
quando na verdade está se afogando mesmo no raso


quinta-feira, 5 de maio de 2016

POESIA FRACA

a poesia era tão fraca
que não sustentava uma palavra
a ideia escorria antes da página
a emoção tremia desossada